BA 166 | O que vem agora, na visão dos executivos das entidades

 
De acordo com o Sindipeças, no acumulado de 12 meses (maio 2019/maio 2020), o setor contabilizou uma queda de 16% no faturamento, sendo de 44,25% para as montadoras e de 20,39% para o mercado de reposição. E as perspectivas são de uma recuperação continuada. “Embora o cenário seja ainda de difícil previsão, devido aos efeitos potenciais da pandemia, a recuperação a partir de junho sugere que o pior já passou. A velocidade e o ângulo dessa recuperação ainda são incertos, mas creio que mais importante seja a constância no sentido da retomada”, diz o presidente da entidade, Dan Ioschpe.
 
Segundo ele, a retomada está ocorrendo, como indicam os volumes vendidos e produzidos a partir de junho. “A venda de autopeças para a reposição sofreu, mas menos que no caso das autopeças destinadas à produção de veículos. O que é normal em um cenário de envelhecimento da frota pela queda brusca na venda de veículos novos”.
 
Retomada que também é comentada pelo presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce), Ranieri Leitão. “O ano começou bem para o setor, mas em seguida veio a pandemia e dificultou a vida de todos. O primeiro semestre foi de muitas dificuldades, com um resultado entre 60% a 65% do que foi o primeiro semestre de 2019. Nos Estados que estão mais livres da pandemia, principalmente no Nordeste, já estamos com resultados acima do mês de julho de 2019. A perspectiva tem sido muito boa, com um aumento de demanda que perdurará por mais alguns meses”.
 
Presidente do Sincopeças-SP e vice-presidente da FecomercioSP, Francisco Wagner De La Tôrre, conta que o segmento de reposição e manutenção automotiva, diferentemente de outros setores, não parou por completo, mas sofreu uma queda muito significativa, com caída de 80% da atividade em abril e de 50% a partir de maio e junho.
 
“Antes da pandemia a atividade ainda não era a ideal, mas começávamos a nos recuperar de uma crise muito profunda, então, tivemos queda de 50% em uma atividade que já vinha enfraquecida. Em julho, as lojas de autopeças já registram 80% do faturamento de 2019, com tendência de crescimento. Creio que em agosto voltaremos ao faturamento do ano passado. De toda forma, podemos olhar esses dados como um copo meio cheio ou meio vazio”.
 
Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP e Sindirepa Nacional, informa que houve queda no movimento apesar do serviço de manutenção ter continuado em funcionamento na quarentena por ser considerado essencial. “Foi o que ajudou a não termos um cenário pior, como outros setores que simplesmente ficaram paralisados, como é o caso de restaurantes, comércio, shoppings, entre ouros. Para isso, o Sindirepa-SP enviou uma solicitação ao governo do Estado de São Paulo que foi atendida”.
 
De qualquer forma, ele diz que o cenário está sendo bem desafiador, principalmente porque o setor de reparação não tem amparo para obter linhas de crédito com condições adequadas ao negócio. “No geral, as empresas são pequenas e não possuem capital de giro suficiente para suportar as quedas que foram sentidas. Existe a necessidade de linhas de crédito para empresário conseguir colocar a casa em dia. Além disso, o consumidor com redução do poder de compra precisa de parcelamento maior para pagar os serviços”.
 
Dan Ioschpe, presidente do Sindipeças – Foto: Divulgação
 
Ele acrescenta que tudo isso somado aos encargos das empresas torna a gestão bem complicada nesse momento, pois os custos continuaram com a folha de pagamento, já que as empresas de reparação de veículos oferecem serviços e a mão de obra é a maior despesa. “Foi preciso se reinventar e quem não estava nas redes sociais precisou correr atrás para entrar e atrair clientes. Tem ainda a preocupação com a saúde dos funcionários e os cuidados necessários com adoção de medidas no dia a dia”.
 
Fiola comenta que as empresas que atendem a linha leve em grandes centros urbanos ainda sentem muito forte o impacto negativo da pandemia. “A retomada é lenta, mas já está bem melhor do que no começo quando tudo parou. O consumidor ainda está inseguro e com medo por temer em perder o emprego e ficar sem renda, por isso fica resistente com gastos extras, como a com manutenção do veículo, além disso, também está optando mais por home office, evitando deslocamentos. Tudo isso afeta o movimento nas oficinas”.
 
A expectativa, diz ele, é que os próximos meses sejam melhores, pois as pessoas começaram a usar mais o carro. “Já a área agrícola que teve as atividades aquecidas durante a pandemia movimentou a reparação nas regiões onde há concentração do agronegócio, como a Centro-Oeste”.
 
Produção local
 
Com a pandemia, ficou perceptível o risco que é depender de fornecedores de outros países. Questionado se está havendo algum movimento para aumentar a produção local de autopeças, Ioschpe diz que a pandemia mostrou que é prudente possuir mais de uma opção de fornecimento para qualquer componente. “Dito isso, o que irá determinar a médio e longo prazos a localização da produção serão as condições competitivas dos países e regiões. No caso do Brasil, temos de avançar com os temas que impactam a nossa competitividade sistêmica, como a questão tributária e a falta de infraestrutura, para citar apenas dois exemplos”.
 
Para De La Tôrre, haverá não apenas um aumento da produção local, mas um reposicionamento das indústrias, principalmente as globais, que perceberam que não é prudente depender de um único local como fornecedor global de produtos. “Creio que os países terão que repensar quais são os setores mais estratégicos e ter uma produção local. Mesmo que isso tenha impacto no preço, ficou claro que não dá para depender de um único lugar como fornecedor global de mercadoria industrializada”.
 
Ele explica que isso favorecerá não somente a indústria de autopeças como outros setores estratégicos nacionalmente. “Já percebemos que as lojas de autopeças e os distribuidores estão com sérias dificuldades para reposição de seus estoques na plenitude do seu mix por conta do gargalo logístico que se criou com a parada da atividade econômica da Ásia no primeiro semestre, e agora estamos sentindo os efeitos dessa paralisação. Independentemente do câmbio, esse fato, por si só, já incentiva a produção local”.
 
Ranieri Leitão, presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce) – Foto: Divulgação
 
Na opinião de Leitão, deveria haver um esforço maior para apoiar as indústrias nacionais. “Deveríamos nos esforçar e falar a mesma linguagem em todo o País para apoiar as indústrias nacionais e o nosso parque de autopeças. Isso seria bom para o Brasil e traria mais confiança ao setor com as peças de fabricação nacional. Nós, do Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce) e também como Sincopeças Brasil e Câmara Automotiva Nacional, damos apoio total é pela produção das peças feita pela indústria brasileira”.
 
Vendas de veículos
 
Em junho, para cada veículo leve foram vendidos 4,5 usados. Fiola avalia que a queda nas vendas de veículos novos vai resultar no aumento do movimento na reposição. “As pessoas vão adiar a troca do carro e vão precisar fazer manutenção no usado, o que vai refletir positivamente na cadeia da reposição. Essa situação já aconteceu em outras crises, quando a reposição se manteve estável. Outro fator importante é que a idade média dos veículos está aumentando e já chega a 9 anos e 8 meses, isso também contribui para o aumento da demanda de manutenção nas oficinas”.
 
Ioschpe comenta que a frota circulante brasileira, de 45,9 milhões de veículos em 2019, envelhece ininterruptamente desde 2014, segundo o tradicional levantamento do Sindipeças. “Se a frota envelhecerá mais, isso dependerá da recuperação, que pode minimizar ou não o impacto. Mas, como tendência, a queda na venda de veículos novos acelera o envelhecimento da frota”.
 
Ele pontua que em 2019, a idade média chegou a 9 anos e 8 meses, e que especificamente os caminhões tinham cerca de 11 anos e 7 meses de idade, bem mais que em 2014, de 9 anos e 7 meses. “Políticas públicas que estimulem a renovação da frota, inicialmente de veículos comerciais, podem reverter essa curva. Temos trabalhado intensamente com o governo nessa ação, que é fundamental para a preservação da vida, pela diminuição na quantidade de acidentes, e do meio ambiente, com a redução da emissão de poluentes, com ênfase na linha pesada neste momento”.
 
Na opinião de Leitão, a queda nas vendas de novos tem o lado bom e o ruim. “O bom é que haverá reparo de mais veículos, o varejo venderá mais para os clientes resolverem os problemas dos carros usados e para fazerem as manutenções. Com a comercialização dos veículos usados a tendência é também crescer o volume de negócios do varejo e da reparação. No futuro, menos veículos novos vendidos impacta no setor”.
 
O executivo do Sincopeças-SP faz uma avaliação similar. “A venda do carro zero hoje é a demanda do nosso mercado depois que passa a garantia desses veículos. A queda de 40% que a Anfavea projeta para este ano, lá na frente vai impactar negativamente o nosso mercado. De toda forma, cada automóvel seminovo e usado vendido hoje gera três vendas, porque o consumidor que compra este carro seminovo vende o dele mais antigo e alguém compra este mais antigo. É um giro de três vezes que promove um movimento positivo para a reposição e a reparação, haja vista que quem vende o automóvel faz uma revisão prévia e quem compra dá uma incrementada e isso gera negócios para o nosso segmento”.
 
Francisco De La Tôrre, presidente do Sincopeças-SP e vice-presidente da FecomercioSP
 
Transporte individual
 
Com a pandemia está havendo uma tendência de as pessoas utilizarem o transporte individual em detrimento ao coletivo. De La Tôrre não chamaria isso de oportunidade. “Mas como um incremento da demanda, muito embora seja um pouco cético com relação a essa observação porque estamos num País de poder aquisitivo muito baixo. Desde antes da pandemia, quem pode evitar o transporte público já evita porque é muito ruim e a infraestrutura não consegue atender minimamente a demanda de transporte porque é pouca e precária”.
 
Segundo ele, quem tem condições econômicas já opta por utilizar o veículo. “Pós-pandemia teremos, seguramente, um consumidor e um usuário de transporte mais pobre, portanto, essa observação apontada pelos especialistas, de tendência de aumento do transporte individual, tenho dúvidas se isso serve para o Brasil. De qualquer forma, temos o atendimento das demandas provocadas pela retomada da economia e por uma frota mais envelhecida, que demanda mais serviços e muitas vezes serviços mais complexos. Essas são as oportunidades”.
 
Já Leitão acha que isso é uma tendência. “As pessoas estão usando mais os veículos particulares, o que é notório em todo o País, exceto nas cidades menores. Isso irá oportunizar mais veículos precisando de manutenção e nosso mercado será aquecido neste ano”.
 
E Fiola também comenta sobre os reflexos positivos. “Muitas pessoas vão optar pelo transporte individual e devem tirar o carro da garagem para trabalhar ou usar aplicativo, mais veículos nas ruas gera demanda de manutenção nas oficinas. O que é preciso observar também é a mudança de perfil do consumidor, com mais carros alugados para motoristas de aplicativos, as locadoras se tornam clientes em potenciais e a maneira de lidar e trabalhar é diferente, mas deve ser considerado pelo reparador como um nicho de mercado a ser explorado”.
 
Impactos da pandemia
 
Ranieri Leitão e Francisco De La Tôrre analisam quais serão as principais mudanças no setor. A começar por Leitão: “sintetizando, a pandemia trouxe mudanças profundas no psicológico do empresário de autopeças. Primeiro, nós temos que imaginar que todo o cenário está mudando e as empresas passarão a vender não só presencialmente, mas essencialmente por plataformas virtuais. O empresário que não se atentar a isso ficará para trás”.
 
Ele orienta que é muito importante querer conhecer o novo, que não é mais tão novo. “Sintonizar as empresas com o mundo virtual e encontrar soluções para minimizar os problemas que podem acontecer no futuro. O mundo virtual é sem volta e o empresário que quiser participar desse bolo terá que ter mudanças mentais para poder se congregar a esse universo”.
 
Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP e Sindirepa Nacional – Foto: Divulgação
 
Para De La Tôrre, falar sobre as principais mudanças no setor após a pandemia é uma pergunta bem difícil. “Mas, posso afirmar com certeza que a utilização da tecnologia, como forma de manutenção do sistema de trabalho e como forma de conexão entre clientes e fornecedores, veio para ficar. Não tenho dúvida que o processo de utilização da tecnologia disponível será aumentado em todas as suas possibilidades, ou seja, tanto no processo administrativo de gestão das empresas como no processo de compra e venda de produtos”.
 
Ainda de acordo com ele, “olhando para o que aconteceu durante a gripe espanhola, no auge da pandemia, as pessoas também tiveram uma alteração muito profunda e abrupta dos seus hábitos e, na medida que a pandemia foi passando, os hábitos voltaram a ser como antes. Não sei como essa pandemia afetará os costumes, mas estou certo quanto à utilização da tecnologia como forma de otimização do negócio em todos os seus aspectos. Os veículos continuarão precisando de reparação e reposição de peças e as lojas devem manter o foco no seu negócio, investindo, na medida das suas possibilidades, em tecnologia e treinamento dos seus funcionários”.
 
 
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