BA 178 | Julho: Segmento de caminhões atinge o melhor patamar desde 2014

O resultado poderia ser ainda melhor se não houvesse falta de semicondutores e insumos

O mercado de caminhões continua a todo vapor neste ano e já superou os resultados de 2014, tanto na média mensal pelo último balanço da Anfavea, com base em julho, como também no acumulado do ano. Em números, as vendas de julho tiveram um acréscimo de 25,5% em relação a julho de 2020, somando quase 12 mil unidades, e de janeiro a julho foram 70,7 mil unidades vendidas, quase 50% a mais que em igual período de 2020.

“É o melhor resultado desde dezembro de 2014 e o melhor também desde julho de 2014. O mercado de caminhões continua bastante demandado pela pujança do agronegócio, da mineração e do e-commerce”, disse Marco Antonio Saltini (foto), vice-presidente da Anfavea. Segundo ele, no segmento de caminhões, os pesados e semipesados representam quase 73% das vendas.

Por outro lado, o segmento de ônibus não tem apresentado o mesmo desempenho, muito influenciado pelo transporte escolar. Comparando o mês de julho com o anterior, a queda foi de 11%, com 1.300 unidades vendidas. Já no acumulado do ano, foram 8,8 mil unidades vendidas, um volume 21,7% maior do que 2020, até pelo efeito pandemia, e o melhor resultado de acumulado desde 2019.

“O segmento tem uma influência grande do caminho da escola, da última licitação, só falta o emplacamento. Essa influência, impacta no volume de ônibus vendidos. Mesmo assim, percebemos que independentemente do caminho da escola, o segmento de ônibus continua sendo o que mais sofreu entre os pesados. Julho foi o pior resultado desde abril deste ano e o pior julho desde 2017, o que mostra um mercado bem fragilizado”, avalia Saltini.

Produção

A começar por caminhões, até o mês de julho foram 89,5 mil unidades produzidas, um acréscimo de 115% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em relação aos ônibus, a alta foi de 12,1%, comparando os dois períodos, totalizando 11,9 mil unidades. Hoje, um dos maiores problemas enfrentados na indústria automotiva é a falta de semicondutores. Segundo a pesquisa da KPMG, “Sobrevivendo à tempestade do silício”, (Surviving the silicon storm, em inglês), embora as montadoras sejam responsáveis por cerca de 10% das vendas globais de semicondutores, elas sofrerão cerca de 80% dos US$ 125 bilhões em vendas perdidas devido à escassez desses componentes, um prejuízo estimado em US$ 100 bilhões. Além disso, sem o fornecimento de chips, há montadoras que já tiveram que reduzir a produção e suas receitas foram afetadas.

O segmento de pesados no Brasil também é afetado pela falta de semicondutores, porém, em menor proporção do que no de automóvel pelos diferentes volumes de produção. Mesmo assim, se não houvesse esse percalço e a falta de peças, a situação estaria mais confortável.

“O mercado está bastante demandante e se não tivessem esses percalços com insumos e semicondutores, estaríamos em um patamar de produção um pouco acima, consequentemente, o mercado também. Estamos rodando entre 11,5 mil e 12 mil unidades vendidas mensalmente, é muito difícil estimarmos como seria, a pandemia provocou esse desarranjo na cadeia e isso varia de fornecedor para fornecedor, de empresa para empresa. Certamente, seria mais tranquilo para produzir”, comenta Saltini.

Pelos dados da Anfavea, a média de emplacamentos de caminhões é de 540 veículos/dia, superior aos patamares dos anos de 2019 e de 2020. “Normalmente, esse é um segmento em que o cliente programa a compra, em um prazo que ele define de acordo com as suas necessidades”, disse o executivo. Portanto, ainda não se trata de uma antecipação de compra, o que é previsto para acontecer a partir do próximo ano, conforme analisa Saltini.

“O que observamos hoje é uma retomada em função de todos os efeitos de um agronegócio pujante, da própria atividade econômica que vem retomando após a pandemia. Não é um efeito de antecipação de compra, está muito cedo para isso acontecer. Talvez em 2022 nós tenhamos essa sensação de antecipação de compra, como foi em 2011 para 2012, para evitar o aumento de custo”.

No segmento de ônibus, ainda há muitas incertezas. “Ele até o momento está muito fragilizado. Já era um setor que não tinha uma situação confortável antes da pandemia, tem a questão da tarifa que impacta na inflação, mais os custos para os transportadores e é sempre uma conta difícil. Com a pandemia, o fechamento das cidades, muitos ônibus urbanos deixaram de circular, ao mesmo tempo em que a frota circulou sem passageiros, o segmento se fragilizou mais ainda. A oportunidade veio com o fretamento”.

Na ponta

Na análise da Fenabrave, o cenário é similar ao da Anfavea: o segmento de caminhões tem sido impulsionado pelo mercado agrícola aquecido e pelo crescimento da economia nos primeiros meses. No primeiro trimestre, o PIB cresceu 1,2%, resultado que fez com que mercado financeiro projete um crescimento de 5,3% para o PIB neste ano.

Pelas projeções da Fenabrave, divulgadas no início de julho, o segmento de caminhões é um dos destaques do setor e pode ter neste ano um dos melhores resultados de sua história. A previsão é de fechar o ano com alta de 30,5%, somando 116.415 emplacamentos e de 10,6% para ônibus, ou 20.150 emplacamentos.

“Hoje, cerca de 8 a cada 10 fichas de financiamento são aprovadas. Temos modelos com programação de entrega agendada para janeiro de 2022. São veículos já negociados, mas que, em virtude da demanda, só poderão ser entregues no próximo ano”, afirma Assumpção Júnior (foto), presidente da Fenabrave.

E mesmo com todos os impactos sofridos pelo segmento de ônibus, Assumpção comenta que “ao menos, os números no acumulado do ano são superiores aos do mesmo período de 2020. Acredito que o avanço da vacinação e a consequente flexibilização das quarentenas poderão provocar reflexos positivos neste segmento, mas, enquanto isso não acontecer, muitas empresas continuarão em compasso de espera”. Pelas contas da Fenabrave, no acumulado do ano até julho, o volume de emplacamentos de ônibus cresceu 11,3% quando comparado ao mesmo período do ano de 2020.

Pela análise da Fenabrave, ônibus é um dos segmentos que mais tem sofrido os impactos da pandemia, já que a restrição de circulação de pessoas fez com que as empresas de transporte cancelassem ou adiassem investimentos em renovação ou ampliação de suas frotas.

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