BA 179 | Especialistas explicam os efeitos macroeconômicos atuais do Brasil

Alta do combustível, inflação, taxa de juro, desemprego e informalidade. Percalços que refletem no consumo, no desempenho do PIB e no setor de autopeças

O Brasil vive um momento delicado do ponto de vista macroeconômico. Ainda é alta a taxa de desemprego, de 14,7%, 36 milhões estão na informalidade e para conter o avanço da inflação, que deve terminar este ano em 9% pelas previsões dos especialistas, a taxa de juro está subindo. Em setembro de 2020, a taxa Selic era de 2,0% ao ano, agora está em 5,25% e com a expectativa para 7,63% no final de 2021. Além disso, o litro da gasolina subiu nove vezes neste ano e acumula alta de 27,5%, e de 37% nos últimos 12 meses, segundo o IBGE. Todos esses fatores impactam no consumo.

Planejador financeiro CFP (um dos mais respeitados certificados globais do mercado) e conselheiro da Planejar, Carlos Castro (foto), esclarece que a taxa de desemprego é um reflexo da queda do crescimento econômico. “Para poder absorver essa mão de obra desempregada hoje, a economia precisa crescer. No caso do Brasil, a taxa Selic foi colocada para baixo, em 2,0% ao ano, para estimular a economia e houve um efeito positivo. O FMI (Fundo Monetário Internacional) previa uma queda de 10% para o PIB em 2020 e caiu 4%”.

Agora, o cenário é o inverso, esse estímulo está sendo retirado. “A retirada de estímulo que começou com a elevação da taxa Selic é exatamente para poder trabalhar a retomada da economia. O efeito do excesso de estímulo foi o aumento da inflação, que subiu muito, e agora se busca uma normalização econômica, que é voltar a crescer a Selic para conter a inflação para que as expectativas de crescimento retornem. Pelo Boletim Focus (do Banco Central), a previsão para 2022 é de um crescimento em torno de 2% para o PIB, para um PIB que cresce a 2% há uma tendência de o emprego voltar”, diz Castro.

Estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz (foto), pontua que quanto mais formalidade, mais seguras as pessoas se sentem. “A informalidade deixa os trabalhadores mais inseguros e com menos propensão para consumirem. Eles estão menos protegidos por leis trabalhistas, essa forma de emprego se mostra mais instável, inconstante e imprevisível”. Para exemplificar, ele menciona o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), do FGV IBRE.

Em julho deste ano, o ICC subiu 1,3 ponto, para 82,2 pontos, maior valor desde outubro de 2020 (82,4 pontos). Em médias móveis trimestrais, o índice subiu 3,2 pontos, segundo aumento após seis meses consecutivos de queda. Pelo índice, acima de 100 é otimismo e abaixo, pessimismo. “Ele ainda não voltou ao patamar pré-pandemia, mas as expectativas estão melhores. O mais interessante é que, na relação com a informalidade, ele mostra por faixa de renda que quanto mais baixa, menos confiante eles estão”.

Cruz comenta que a instabilidade política impacta na taxa de desemprego, lembrando que em 2022 haverá eleições. “Na Alemanha, por exemplo, no próximo mês há uma eleição, deve haver troca de poder, mas o mercado não fica tão inseguro, pois os partidos que têm chances de ser eleitos discordam de algumas maneiras de como chegar lá, mas não diferem tanto. Aqui no Brasil é bem diferente, nós temos uma insegurança muito grande”.

Ele acrescenta que as eleições de 2022 prometem ser muito polarizadas. “O que acaba afastando muitos investimentos internos e de empresas externas no País. Isso encarece a dívida pública, o que comprime bastante o espaço para investimentos do próprio governo. O ideal seria discutir mais gastos públicos, monitorar o que é gasto e desengessar as despesas”, afirma.

E, ainda, que o momento de transformação digital complexo no mundo inteiro, requer novas maneiras de formação. “Os governos precisam se preparar para treinar montantes relevantes da população que não estão preparadas para trabalhar nesse mundo digital. O Executivo podia focar em formular programas de treinamentos, claro que isso seria bem mais fácil com uma harmonia entre os partidos”.

Inflação e crise hídrica

Carlos Castro explica que os maiores impactos na inflação são a moradia, transporte e alimentação. “A inflação da cesta de consumo, medida pelo IPCA está, em média, em 9%. A média de renda do brasileiro é em torno de R$ 2.200,00 e quem ganha essa renda acaba comprometendo cerca de 60% com esses três itens essenciais. Se a inflação é maior, quem tem uma renda comprometida sente muito o impacto inflacionário”.

A previsão é a inflação subir para algo em torno de 7% neste ano, para trazer a inflação para o centro da meta, que é de 3% para 2024, conforme definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). “Estamos acima desta meta. Para normalizá-la é preciso aumentar a taxa de juro. Com isso, a expectativa do Banco Central é terminar 2021 com uma inflação de 7%, começando a convergir a partir de 2022”.

Além disso, ele pontua outros fatores que impactam no crescimento econômico. “Há outros efeitos globais, como a questão do commodity do combustível, o câmbio e a crise hídrica, que revertem isso mais em inflação, de forma que a perspectiva de recuperação econômica pode se tornar mais lenta”.

Gustavo Cruz comenta que a inflação vai pesar no bolso e diminuir o espaço para outros gastos. “A reação das pessoas é segurar um pouco os gastos e se readaptar. Temos que levar em conta também que as taxas de juros estão subindo, elas vão encerrar o ano em torno de 8%, sendo que começamos o ano em 2,5% (taxa Selic) é um aumento de taxa bem forte que obviamente mexe com a quantidade de pessoas que está mais disposta a um financiamento e as famílias estão mais apertadas”.

Em relação à crise hídrica, ele diz que o maior temor é chegarmos a um tipo de racionamento ou a um apagão. “Isso reduz o PIB diretamente, são as indústrias deixando de produzir, pois ficam sem luz em um determinado horário, é o agricultor que planta menos pela incerteza se terá água para irrigar a plantação, porque o custo irá subir muito, o que não torna tão rentável, e assim por diante”.

No bolso das pessoas, Cruz coloca que essa crise afeta de duas formas. “A direta é no reajuste da conta de luz e a indireta está no fato da energia impactar vários preços da cadeia, quase tudo o que usamos leva energia para ser produzido. Vários serviços usam energia para atender os clientes, todos os itens praticamente passam por alguma utilização de luz, desde a sua saída até chegar ao consumidor final”.

Gasolina e veículo elétrico

Como dito no início, neste ano, o litro da gasolina subiu nove vezes e acumula alta de 27,5%, e de 37% nos últimos 12 meses, segundo o IBGE. Rodrigo Aguiar (foto), sócio-fundador da Elev, conta que a desvalorização da moeda e os impactos da pandemia afetam diretamente no seu valor e no uso do veículo.

“Reflete diretamente, principalmente quando pensamos que a partir do momento em que temos um aumento do valor do combustível por km rodado as pessoas limitam o uso do veículo, utilizando o automóvel apenas conforme o necessário”. Pelas previsões da Anfavea, até 2035, 62% da frota de veículos brasileira poderá ser representada por carros elétricos.

Questionado até que ponto a alta da gasolina faz com que consumidores migrem para os carros elétricos? Aguiar responde: “O carro elétrico vive hoje um momento em que vemos o aumento da sua autonomia, no qual o valor do km rodado nestes automóveis representa apenas 25% do valor que um usuário gasta em um veículo de combustíveis fósseis. Além disso, temos que considerar que ainda teremos aumento no valor da gasolina”.

Mas, ainda, ele é inacessível para a grande maioria da população. “O preço do carro elétrico é alto, visto que não temos uma política nacional de redução dos impostos. Somente a diminuição da carga tributária para os veículos elétricos e a revisão das políticas automotivas brasileiras para este tipo de automóvel farão com que haja uma grande redução no valor dos carros elétricos em território nacional. Devemos considerar que o aumento da produção dos automóveis elétricos poderá refletir diretamente na diminuição destes valores”.

Para finalizar, Aguiar defende um planejamento. “Precisamos iniciar um planejamento de políticas e regras. Leis convergentes visando a melhoria do ambiente para o mercado de veículos elétricos, em paralelo, o crescimento da infraestrutura para o atendimento da recarga destes automóveis”.

No quesito mobilidade, Gustavo Cruz diz que há uma tendência de usar menos os veículos e ilustra isso com uma pesquisa da Kantar. “Ela mostra que no mundo as pessoas estão realmente utilizando menos carros, indo para transportes mais ecológicos, como bicicletas e até mesmo caminhadas. O Brasil não foge muito à regra. A tendência é que até 2030 os carros sejam 28% menos utilizados, as bicicletas 47% mais, transporte público 10% mais e a caminhada 25% mais. Até na nova geração há um percentual menor de quem tira carta de motorista”.

Reflexos no Varejo

Em Novo Hamburgo (RS), Bruno Reginatto (foto), da BL Auto Peças, comenta como esse cenário macroeconômico tem se mostrado presente no dia a dia. “O que temos observado é a redução do uso do carro, principalmente das famílias que têm mais de um, adequando a logística dos moradores da casa para utilizarem somente um carro. Isso ficou muito mais acentuado neste ano”.

Na questão do aumento da gasolina, o impacto está no custo das entregas. Por trabalharem com a parte de lataria, além de motos, elas também são feitas com carro. “Não tem como repassar esse custo para o cliente, tarifar a entrega. O poder de compra está cada vez menor, principalmente para o cliente final. Nas oficinas, os clientes estão fazendo somente a manutenção básica e postergando cada vez mais adiante o que realmente precisa ser feito no veículo”.

Além do aumento exorbitante dos preços. “Para nós, a inflação a partir do início da pandemia foi algo absurdo. Estamos falando de um aumento de 200% em peças de giro e da curva A dobrarem de valor, principalmente de produtos a base de plástico, peça mecânica, cabo, vela, pastilhas e discos de freio, que tiveram um bom reajuste. Trabalhamos com faróis, lanternas e para-choque, que também tiveram um aumento absurdo”.

Sobre a crise hídrica, Reginatto diz que houve reajuste nas tarifas, mas especificamente para eles que adotaram desde o início deste ano a energia solar nas instalações da empresa, o impacto não será tão grande.

Uma bola de neve

Em São Paulo (SP), Ricardo Chiarato (foto), da DR Mecânica, comenta que o aumento constante da gasolina neste ano pode impactar o setor de oficinas. “Esse aumento é um absurdo, estamos vendo postos cobrarem mais de R$ 6,00 o litro e ninguém faz nada sobre esse valor. Por enquanto, as pessoas ainda estão preferindo andar com seus carros ao invés do transporte público, acredito que uma grande parcela ainda receosa em contrair a Covid, mas não tem como saber até quando as pessoas vão conseguir arcar com esses valores tão altos. Os clientes estão reclamando todos os dias e se as coisas não mudarem, vamos vêlos fazendo cortes nos itens de revisão do carro com medo de como será daqui para frente”.

Quanto à crise hídrica, somada à inflação, Chiarato diz que elas estão impactando, e muito, nos valores tanto dos serviços prestados quanto no valor das peças. “Tudo aumentou, conta de luz, água, peças, produtos. Tem peças que estão dando diferença de valor de uma semana para a outra, não tem como manter o valor do serviço que prestamos quando a conta de luz e da água da oficina dobraram de valor”.

Segundo ele, tudo virou uma bola de neve. “Pandemia, crise política, desemprego e, infelizmente, quem está sentido no bolso, tudo o que está acontecendo, são as pessoas que vivem com um poder aquisitivo menor”. O lado bom é em relação à inadimplência. “Não sentindo a inadimplência, pois parcelamos no cartão. O que fizemos foi aumentar o número de parcelas para ajudar os clientes”, finaliza.

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