Sucessão familiar: os desafios deste processo e a importância do Conselho

No Brasil, 90% das empresas são familiares, respondem por 65% do PIB e por 75% dos empregos gerados, segundo o IBGE. Pelos dados da 4ª edição da pesquisa “Retratos de Família: Um panorama das práticas de governança corporativa e perspectivas das empresas familiares brasileiras”, produzida pela KPMG, em 2021, 44% dos participantes consideram que, neste momento, a próxima geração não está preparada para participar da gestão da empresa.

Entre os entrevistados, 45% afirmaram que a próxima geração está em fase de preparação e 11% se encontram preparados. Outros 24% falaram sobre a possibilidade de transferir a gestão para a geração seguinte e um quinto admitiu a possibilidade de captar um profissional de mercado. 

Das empresas que participaram da pesquisa, 52% têm um Conselho de Família ou equivalente constituído. No primeiro ano da pesquisa, em 2016, essa porcentagem era de 49%. Nesta entrevista, Gilson Faust, consultor sênior da GoNext, empresa especializada em governança corporativa e sucessão familiar, fala sobre a importância da criação deste Conselho.

Desafios

Gilson Faust, consultor sênior da GoNext

Segundo ele, o maior desafio é iniciar o processo de sucessão no momento certo. “Aquele onde o familiar que será sucedido está em condições de identificar o candidato mais adequado para ser o sucessor e liderar o processo, preparando adequadamente o novo gestor, transmitindo a cultura empresarial construída até o momento da sucessão, bem como, garantindo que ele seja aceito e integrado em toda a organização empresarial”.

Na hipótese dos filhos não se enquadrarem como candidato à sucessão, diz Faust, “o sucedido terá que identificar outro executivo para gerir o negócio familiar, podendo ser o candidato oriundo do quadro interno da empresa ou executivo de fora”.

Conselho de Família

Faust conta que a criação do Conselho de Herdeiros é recomendada para todas as empresas, pois o papel desse órgão é preparar seus integrantes para atuarem como sócios ou sócios e gestores, portanto, dependendo do respectivo porte, pode ou não existir os dois papéis.

“O momento dessa decisão passa a ser depois de serem aplicadas as ferramentas de avaliação de potencial para os candidatos, identifica se eles, ou algum deles, reúnem as habilidades técnicas e emocionais para o exercício do cargo. É indispensável averiguar se o filho, mesmo que esteja apto reunindo as habilidades, pretende assumir essa responsabilidade, evitando-se que assuma o desafio por imposição ou pressão do sucedido e familiar”, explica.

Opções

A definição da opção por candidato de fora da empresa para liderar, é indicada quando a empresa precisa aproveitar as habilidades e competências desse profissional, adquiridas em experiências em outras organizações, que serão úteis e decisivas para a performance do executivo.

“Outro cenário também é quando mesmo o candidato reunindo as condições ideais para o exercício do cargo o clima emocional na família empresária está comprometido e desgastado ao ponto de influenciar e contaminar o exercício adequado do executivo-familiar”, acrescenta.

Confira a seguir, as dicas de Gilson Faust para preparar o herdeiro:

1/ Quando criar o conselho de herdeiros: A partir da adolescência já é possível formatar o órgão customizado para aquele perfil dos herdeiros e sucessores.

2/ Momento ideal para os herdeiros começarem a ser preparados: Ele está diretamente relacionado ao momento da vida dos herdeiros, analisando o estágio da vida e da carreira de cada um. Apenas quando eles estiverem aptos a compreender o contexto de uma organização empresarial é que justifica-se a implantação do conselho.

3/ Como definir o líder: Para evitar conflitos, o melhor caminho é definir um líder para o processo e balizar as decisões com critérios técnicos bem definidos.

4/ Ferramentas para o desenvolvimento do conselho: Entre eles, a criação de uma agenda anual com calendário pré-definido e o regimento interno, sendo as matérias escolhidas aquelas que estão aptas à formação técnica e comportamental dos integrantes, observando-se o perfil de cada um.

5/ Paz entre herdeiros: Um dos pontos mais importantes na gestão do conselho é a igualdade de tratamento entre todos os integrantes, operando as dinâmicas e reuniões com transparência, prestação de contas e, principalmente, muita articulação e diálogo. Isso é fundamental para a boa condução de todo o processo, que pode durar vários anos.

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