BA 185 | Conflito Rússia x Ucrânia implicará na reestruturação da economia

No dia 24 de fevereiro, a Rússia invadiu a Ucrânia, dando início a uma guerra que impactou e vai impactar ainda mais o mundo inteiro em uma economia globalizada que já vinha sentindo os efeitos da pandemia. Os reflexos são em vários setores, incluindo a indústria automobilística, pela alta do preço do petróleo e a falta de componentes já recorrentes nos anos anteriores. Nesta matéria, os motivos da guerra são explicados por Paulo Fagundes Visentini, historiador e autor do livro “Por que o Socialismo Ruiu” (ver BOX), e especialistas comentam as sequelas, em especial para o Brasil.

Sócio da Santa Fé Investimentos, Fabio Foccacia, diz que os setores que dependem de produtos derivados de petróleo, como o segmento de calçados, a construção civil (com toda parte de tubos de PVC, calhas, revestimentos) e a cadeia de petroquímicos podem ser bastante pressionados com preços de insumos subindo e sem repassar totalmente na ponta final com pressão nas margens de lucro. A exemplo também do setor automotivo.

“Ele já vem sofrendo com toda a parte de semicondutores e fornecimento de chip pelos países asiáticos, e também deverá sentir a inflação dos derivados de petróleo nos componentes dos automóveis. Lembrando que os derivados de petróleo são usados na fabricação de amortecedores, revestimentos de volante, painel, porta-malas e tetos, entre outros”, afirma.

Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb, conhecido como o “buscapé dos investimentos”, explica que além da guerra pressionar os preços de commodities como petróleo, trigo e insumos agrícolas, algo prejudicial ao enfrentamento da inflação americana por parte do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, há também a questão dos juros americanos. “Um assunto que ainda não sabemos como será endereçado. O aumento dos juros é a maior ameaça que temos atualmente aos investimentos globais”. A próxima reunião do FED para decidir essa questão será na segunda quinzena deste mês.

Economista e advogado, conselheiro da Associação Comercial de SP, Alessandro Azzoni, destaca o agronegócio, um setor que poderá ser afetado com a falta de insumos, pela dependência de fertilizantes da Rússia. “Mesmo que a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, já tenha sinalizado a possibilidade de comprá-los do Canadá e os insumos de trigo da Argentina, outros países também buscarão suprir essa demanda. Cada país não conseguirá diminuir a sua quantidade de insumos, assim, quem pagar mais levará mais”. Além disso, o Brasil ainda enfrenta uma escassez energética.

“O preço do combustível no Brasil impacta também na questão energética. O Operador Nacional de Energia fez uma análise probabilística, de forma que mesmo com todos os históricos pluviométricos e projeções dos reservatórios de água, ainda faltará um percentual energético que deverá ser suprido pelas termoelétricas, a gás e a diesel. A energia elétrica é um dos fatores que impacta diretamente na produção do agronegócio e toda a distribuição de seus produtos é feita por transporte rodoviário, que é impactado pelo preço do diesel”, explica Azzoni.

Preço do petróleo

Daniel Toledo, advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, informa que o preço do petróleo tende a subir ainda mais, de acordo com a escassez, e a lei de oferta e de procura. “O petróleo ainda é um dos principais combustíveis que movimenta a economia de vários países. Muitos deles utilizam o gás e alguns tipos de óleos para produzirem energia elétrica. A Rússia é o segundo maior produtor de petróleo do mundo e quando há diversos embargos, essa grande fatia de petróleo é retirada do mercado, não porque a Rússia não quer vender, mas pelos embargos contra a compra”.

Paulo Fagundes Visentini, historiador e autor do livro “Por que o Socialismo Ruiu”

Ele esclarece que o embargo da Europa com a retirada da Rússia do sistema Swift não incluiu gás e petróleo. “As pessoas não estão falando disso, justamente para que não houvesse um enfraquecimento na produção de energia, principalmente da Alemanha, que depende muito do gás para produzir energia elétrica. Os embargos foram mais no outro sentido do sistema Swift, do que de um embargo 100% punitivo”. Em outras palavras, a União Europeia excluiu bancos russos do sistema de comunicação interbancária Swift, que sustenta as transações globais.

E Toledo faz uma crítica. “A Petrobras ainda é uma estatal e como tal, pertence ao povo, mas na prática não pertence, pois o povo não tem nenhum tipo de benefício que seja concedido por ela. Ela é uma estatal, mas tem atitudes e precificações de acordo com o mercado externo, tem uma gestão como se fosse de uma empresa privada, com capital aberto e o seu lucro é revertido para os investidores. O povo não vê o benefício de um eventual controle de preço e acaba tendo prejuízo quando há alta da commodity no mundo”.

Foccacia coloca que a defasagem de preços de combustíveis no Brasil, tanto para a gasolina quanto ao óleo diesel, já chega perto dos 40%, mesmo com o efeito positivo da recente valorização de nossa moeda. Nesse sentido, ele explica que a gasolina comum deveria ser vendida em algo como R$10/litro ou mais pela regra de paridade do governo com a Petrobrás.

Sobre o conflito na Europa Oriental, ele diz que isso torna o cenário inflacionário ainda mais preocupante e combinando com crescimento menor. “Ainda temos muitas dúvidas quanto à duração desse conflito e se as tensões geopolíticas poderão ou não ser prolongadas. A conta para o governo deverá chegar e a decisão de repassar ou não preços deve ser iminente e bem como a apreciação pelos congressistas dos PLP 11 e PL 1.472”, afirma.

De maneira geral, Pascowitch comenta que com a guerra algumas relações comerciais podem ser afetadas e que falta de insumos, o desequilíbrio da balança comercial, a disparada do frete marítimo, entre outros assuntos, podem afetar negativamente a produtividade da economia brasileira e pressionar a inflação do país. “No Brasil, o maior impacto está concentrado na área econômica: a disparada do preço do petróleo, a escassez de trigo e a interrupção da exportação de fertilizantes são alguns dos temas mais sensíveis neste momento”.

Fabio Foccacia, sócio da Santa Fé Investimentos

Ele acrescenta que a guerra também tende a elevar os preços internacionais e contribuir para o movimento inflacionário, o que certamente impactará negativamente a economia brasileira. “Adicionalmente, precisamos destacar o fato de estarmos em ano eleitoral, o que potencialmente pode abrir espaço para discursos do governo e da oposição favoráveis ao controle dos preços dos combustíveis em vista da disparada do petróleo”.

Setor automotivo

Os altos custos de componentes e a falta de semicondutores, um problema que já existia, são o que mais afetarão a indústria automobilística, na análise de Azzoni. “Havia uma previsão de normalização (de fornecimento) para o próximo segundo semestre, mas com a guerra e a China sendo uma forte aliada da Rússia, isso pode comprometer o bloco russo-asiático na questão dessa regulação. Lembrando que a pandemia ainda não acabou, nós temos efeitos póspandemia e de guerra. Duas situações extremamente estressantes no mercado internacional”.

Ele acrescenta que além da falta de semicondutores, há uma dependência de energia para a produção de veículos. “Muitas dessas indústrias dependem de derivados de petróleo para produzirem energia e isso vem fazendo com que muitas diminuam a sua produção. Principalmente as alemãs, tanto que a Alemanha tem pedido para que as empresas trabalhem em sistema rotativo. Como uma das maiores produtoras de carros do mundo, ela acaba impactando vários outros setores”, informa Azzoni.

Outro exemplo que ele cita é a falta de caminhões nos Estados Unidos. “Lá, o valor dos caminhões está subindo bastante e muitas empresas estão querendo contratar caminhoneiros autônomos, que têm seus próprios caminhões, para suprirem a necessidade da frota. Vemos os valores das manutenções ficando cada vez mais caros e os preços dos carros sendo vendidos com ágil em diversos lugares do mundo. Há um impacto muito grande em cima disso”.

Foccacia também prevê que o cenário será mais desafiador para o setor automotivo. “A questão agora pode ser tratada levando em consideração um menor crescimento nas vendas e somado a números de inflação mais alta durante o ano corrente. Estimamos o IPCA perto de 5,5% para 2022 e toda atenção aos preços das commodities que são vitais ao setor, como o aço e os derivados de petróleo. Na parte de financiamento, vamos ter a pressão do aumento de juros que deriva desses números piores de inflação”.

Uma conta que Azzoni faz na ponta do lápis. “Com a Selic acima de 10%, podendo chegar a 12,5%, dependendo do processo inflacionário, para o consumidor final essa taxa é ainda maior, pois se o banco tem um custo de 12%, ele vai ter que repassá-lo com pelo menos meio percentual ao mês. O custo da taxa Selic vem desestimular o financiamento em longo prazo no mercado de veículos, o que vai impulsionar muito a venda dos usados”.

Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb, conhecido como o “buscapé dos investimentos”

Foccacia comenta que algumas medidas podem dar um certo fôlego. “Como o alívio na bandeira tarifária de energia pela ANEEL e após recuperação parcial dos reservatórios e uma possível redução nos impostos de combustíveis, que podem ajudar a atenuar esse efeito. Recentemente, o Governo Federal também aliviou o IPI com exceção de cigarros, o que pode contribuir de maneira benéfica para ajudar a conter a bolha inflacionária”.

Dependência

Sobre a globalização, que aconteceu acentuadamente nos anos de 1990, Azzoni faz uma análise dos impactos que ela trouxe e defende o estímulo ao processo de industrialização. Antes da globalização, o modelo microeconômico era o de estar próximo aos centros fornecedores e distribuidores, a exemplo da indústria automobilística no ABC paulista.

“A região desenvolveu toda a sua indústria automobilística porque lá estavam todas as indústrias de autopeças e fornecedores para reduzir o custo do frete e o produto ficar mais barato. Com a globalização, a abertura dos mercados, os componentes podiam ser buscados em qualquer lugar do mundo, desde que o custo fosse mais baixo e o processo tecnológico fosse melhor, o que de fato ocorreu”. E não só na indústria automobilística, como também em outros setores, isso resultou na desindustrialização do País.

“Nos anos de 1980, as indústrias respondiam por 36% do PIB brasileiro, hoje, respondem por cerca de 13%. Para o processo de reindustrialização, algumas coisas teriam que ser revistas, como a Reforma Tributária e seria preciso mais uma Reforma Trabalhista para a flexibilização dos custos trabalhistas. E ainda para o investidor estrangeiro, as questões tributárias e trabalhistas causam uma insegurança muito grande no business plan e a insegurança jurídica também desestimulam os investimentos no País”.

Ele defende que deveria haver estímulos para o processo de industrialização e a revisão dos custos de produção. “Em média, 40% do preço do veículo são tributos. É uma carga tributária muito alta. Tem que haver uma Reforma Tributária que de fato estimule a economia. A redução da carga tributária não significa perda de arrecadação, isso é um paradigma que tem que ser quebrado. Ao contrário, tivemos exemplo no governo Dilma Rousseff de isenção de impostos e que houve um superávit fiscal. Acho que é um caminho muito importante retomar a questão da industrialização”.

PIB

Alessandro Azzoni, economista e advogado, conselheiro da Associação Comercial de SP

Daniel Toledo avalia dois cenários para o PIB. “Nesse momento de guerra, ele pode até ser positivo, porque com a alta do dólar, os produtos brasileiros acabam sendo extremamente bem cotados no exterior e obviamente, vamos acabar exportando mais, principalmente para países que importam muito da Rússia. O Brasil pode acabar suprindo essa necessidade”. Por outro lado, a dependência na contramão.

“Nós temos uma dependência muito grande de fertilizantes e de outros produtos tanto da Rússia quanto da Belarus, e que não vamos conseguir trazê-los. Se não conseguirmos resolver esses problemas, com certeza a nossa safra cairá muito. Como o Brasil é muito dependente do agronegócio, vamos sentir uma queda gigante por causa da falta desses insumos que são importantíssimos para o País”, afirma.

Para Fabio Foccacia, esse ano é muito atípico para previsão de PIB e com dois tópicos que podem modificar o rumo da economia. “O primeiro deles é a guerra e a pressão muito forte em commodities e às quais nosso País produz em grande escala com destaque ao petróleo, minério de ferro, aço e derivados e toda a parte do agronegócio. Relativamente, esses setores deverão ser beneficiados e seguimos com otimismo para esse lado da economia brasileira, um forte contribuidor do PIB”.

O segundo, diz ele, passa pelas eleições ao Planalto e como o governo poderá ou não editar medidas que contribuam para o nosso crescimento. “Números divulgados no começo do mês de março, com dados de 2021 fechado, comprovam que o ritmo do crescimento da economia está acima das expectativas de mercado e alinhados com nossa visão na Santa Fé Investimentos de que o PIB deste ano deverá ser positivo e acima de + 0.5%”.

Tempo de recuperação

Pelo percentual S&P 500, confira a seguir o tempo de recuperação de cada guerra. Conforme explica Bernardo Pascowitch, o S&P 500 são percentuais considerados com base no início das tensões e impacto na bolsa de valores “Levando em consideração a variação do S&P 500, o índice de ações mais antigo e mais importante do mundo. Em alguns casos, pode ter sido o dia imediatamente anterior (como no caso dos ataques de 11 de setembro). Em algumas guerras, o mercado já estava precificando alguns dias antes”.

Breve história

 

Daniel Toledo, advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional

Para entender as causas que sucederam ao conflito, Paulo Fagundes Visentini, historiador, especialista em relações internacionais contemporâneas e política externa brasileira, e autor do livro “Por que o Socialismo Ruiu”, conta que a razão principal foi a forma como a União Soviética foi dissolvida. “Tem que ter uma visão realista e equilibrada do que está acontecendo, para não ser a briga do bonzinho contra o malvado. A realidade é mais complexa”, ressalta.

Ele explica que com a dissolução da União Soviética, “a Rússia teve perdas imensas, mas ficou com um território maior, com o lugar que a União Soviética tinha no Conselho de Segurança e com o status de potência nuclear. Outros países que tinham armas nucleares, como a Belarus, Ucrânia e Cazaquistão tiveram que desmantelar essas armas. A Rússia também tem recursos naturais estratégicos (petróleo, gás, urânio e metais), e se tornaram não somente autossuficientes em grãos, como também exportam trigo, milho e soja, principalmente para a China”.

Por outro lado, ele diz que a Ucrânia não fez reformas econômicas como a Rússia e que a sua economia ficou meio parada no tempo. “Hoje, a Ucrânia é um país mais pobre. Outra coisa importante é que a Rússia adotou um regime federal, com repúblicas autônomas que falam suas línguas locais. Já a Ucrânia decidiu fundar um estado ucraniano, só que praticamente mais de um terço da população ucraniana não é ucraniana. Ao escolher uma língua, ela criou ressentimentos dentro do país”.

Para entender um pouco mais sobre o conflito, ele explica que a Ucrânia é fatiada em três partes: “a Oriental e o litoral, que é basicamente de russos, o centro, que é o que podemos dizer de ucraniano light e se acomodaria, desde que tivesse vantagens econômicas, algum tipo de relação mais íntima com a Rússia, e a Ocidental, mais avesso a isso. Para compensar essa instabilidade, a Ucrânia tentou se aproximar do Ocidente, pedindo o seu ingresso na OTAN. Essa é a linha vermelha com a guerra. O Vladimir Putin quer que a Ucrânia aceite um estatuto de neutralidade, que nem a Finlândia tem, e que também respeite e aceite as diferentes línguas em seu território”.

Sobre o posicionamento do Brasil, Visentini comenta que “a regra da diplomacia é: quando dois irmãos brigam, eles vão acabar se reconciliando e se perdoando, mas, aqueles que se meteram na briga e apoiaram um dos lados, não serão perdoados pelo outro lado. Houve uma violação de direito internacional pela Rússia e o Brasil votou a favor. A votação é simbólica, mas o Brasil cumpriu o seu papel”.

A votação a qual Visentini se refere aconteceu no dia 2 de março, na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) para defender a paz e a segurança. Na ocasião, foi aprovada uma resolução contra a invasão russa da Ucrânia. Foram 141 votos a favor, incluindo o Brasil, 5 contra e 35 abstenções. A Rússia, Belarus, Síria, Coreia do Norte e Eritreia foram os que votaram contra e a China se absteve. “A guerra perturba, mas não deve demorar muito. A Rússia tem um PIB pequeno, ela não tem recursos humanos e nem financeiros para mantê-la por muito tempo”.

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