BA 186 | Relaxamento das restrições sanitárias movimentam setor automotivo

Ao que tudo indica, a vida está voltando ao normal com o relaxamento das restrições sanitárias. Na reposição automotiva tem sido observado um aumento de demanda e até da manutenção preventiva, pela postergação da troca de veículos por muitos. No comércio, de maneira geral, Rodolpho Guedon Tobler, economista e pesquisador do FGV IBRE – Instituto Brasileiro de Economia, diz que o andamento das flexibilizações tem um efeito positivo, como foi observado ao longo de 2021. Mas para o setor do comércio, tem um limite.

Rodolpho Guedon Tobler, economista e pesquisador do FGV IBRE – Instituto Brasileiro de Economia

“Isso porque já havia tido uma retomada em 2020 e com a flexibilização o setor de serviços volta a ganhar importância, sendo um concorrente para o andamento do comércio. As pessoas diminuem um pouco o consumo de bens e passam a consumir serviços que ficou muito restrito na pandemia. No final de 2021 já se observava uma redução da atividade econômica, que atingia o comércio”, explica.

Em relação ao comércio eletrônico, impulsionado pela pandemia, Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, afirma que vender por meio de marketplaces, redes sociais e até mesmo aplicativos de mensagens se tornaram práticas cada vez mais comuns no dia a dia das empresas, além das facilidades proporcionadas pelos meios de pagamentos.

“O consumidor pode realizar uma compra e efetuar o pagamento fazendo um PIX ou recebendo um link de pagamento gerado pelo lojista, a fim de finalizar a compra. Este modelo de atuação do varejo continuará, ou seja, a empresa deverá diversificar os seus canais de vendas e buscar conhecer cada vez mais o seu cliente, atendendo-o de forma prática e segura”, esclarece Kelly.

Segundo ela, empresas que vendem produtos de valor agregado maior e que requerem conhecimento técnico também deverão oferecer um canal de venda digital, com as especificidades da mercadoria. “O consumidor que antes da pandemia tinha certo receio em comprar online, teve uma boa experiência, adquirindo os mais variados tipos de produtos. Agora, mesmo que prefira comprar no estabelecimento físico, o canal digital será fundamental para que ele tenha acesso a todas as informações, com a possibilidade de fazer o comparativo das especificidades técnicas do produto que pretende comprar e os respectivos preços”.

Na opinião de Tobler, o comércio online parece que foi acelerado ao longo da pandemia, mas veio para ficar em partes. “Antes da pandemia, o percentual de vendas online no setor era pouco menos de 10%. Esse resultado, nos momentos de mais restrições, chegou a mais de 20%, mas na última apuração no início de 2022, mostrava algo perto de 11%. Ou seja, houve um aumento, mas muito mais tímido que se imaginava no início da pandemia”.

Mudanças no varejo

Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP

Diante do cenário pandêmico, Kelly analisa que a digitalização dos negócios foi a alternativa encontrada por milhares de empresas para continuar as atividades. A pandemia somente antecipou um processo que veio para ficar. “A expectativa é de que se tenha modelo híbrido de vendas; um mercado no qual os consumidores, em razão da tecnicidade do produto, prefiram comprar em uma loja física”.

Ela acrescenta que quanto aos demais produtos, o cliente poderá escolher entre adquiri-los no estabelecimento físico ou no online, ou comprá-los no comércio eletrônico e retirá-los na loja física. “O ambiente de negócios exigirá cada vez mais que os varejistas mantenham os dois canais de vendas integrados, proporcionando a melhor experiência de compra para o consumidor”, ressalta.

Novas estratégias de vendas também foram a principal mudança no varejo, conforme explica Tobler, “para conseguir passar pelo pior momento da pandemia e às vezes até mudança no seu produto principal. A questão de novos canais de venda parecem ser a estratégia que mais deve ser mantida num mundo póspandemia”.

Sobre o cenário macroeconômico, o economista comenta que elas não são tão favoráveis para o setor, assim como para a economia. “Atualmente, o cenário macroeconômico está negativo, com inflação alta, juros em processo de elevação, e mercado de trabalho reagindo lentamente, com a renda média em níveis muito baixos”.

Além disso, ele acrescenta que este é um ano que vive com grandes incertezas como a questão da guerra, que ainda não tá claro o tamanho do impacto no Brasil, e a eleição, que também adiciona mais incerteza. “Com isso, a expectativa é de um ano muito mais morno do que foi no ano passado, em ritmo lento de recuperação com alguma oscilação ao longo do ano”.

Integração do físico e do digital

Renato Lass, diretor de Desenvolvimento de Negócios do Segmento Automotivo da Linx

Renato Lass, diretor de Desenvolvimento de Negócios do Segmento Automotivo da Linx, não acredita que a reabertura do varejo físico reduzirá as vendas online, mas sim o contrário. “O que mais temos visto é uma integração cada vez maior entre o comércio físico e o digital, a omnicanalidade, e o comércio físico se valendo de um canal online, que muitas vezes permite a retirada em loja ou até mesmo o contrário, compras online e a possibilidade de receber não de um centro de distribuição, mas do estoque de uma loja”.

Ele destaca que cada vez mais nós vamos ouvir falar menos de diferenças de visões entre o comércio físico e o online, mas sim, sobre omnicanalidade, a experiência do cliente no centro e tudo isso se confundindo de uma maneira positiva para o consumidor. “O consumidor já se habituou a comprar pelo online e o varejista precisa se adaptar para capturar essas oportunidades. Se ele não entrar no mundo digital, ele perde oportunidade de negócio e fica restrito à clientela de sua região”.

Mesmo do ponto de vista de autopeças, que é uma compra mais técnica, Lass diz que o varejo evoluiu demais no momento da pandemia. “Esse era um dos mais conservadores em termos de transformação digital para efetivamente trazer um movimento de mais conexão com o cliente de forma online. Durante a pandemia, o varejo automotivo teve uma evolução muito rápida na direção de modernizar a sua relação com o cliente”.

Como exemplo, ele cita o catálogo de peças digitais. “Hoje, o cliente consegue verificar a aplicação de uma peça baseada no chassi, nas placas do seu veículo. Com todos os dados na mão, permite que ele tenha cada vez menos a necessidade de um apoio técnico para a compra. Além disso, o atendimento online dos varejistas, que estão mais à frente nesse processo, evoluiu bastante, é possível realizar uma venda consultiva através de e-commerce”.

Do ponto de vista de logística, Lass destaca que a evolução tecnológica foi gigantesca. “Cada vez mais, vemos no dia a dia a possibilidade de compras instantâneas, entregas no mesmo dia ou até na mesma hora, a exemplo dos supermercados. Os investimentos que os market places fizeram em termos de crescimento de frota e entrega foram cruciais, mas foi a tecnologia que permitiu ao cliente se aproximar do estoque, esteja aonde ele estiver. Hoje, o estoque não está só nos centros de distribuição, ele está nas lojas”.

As vendas online continuam ganhando força e Lass mostra isso em números. “Em 2021, houve um crescimento expressivo em relação ao e-commerce no Brasil, de quase 27% em relação a 2020, segundo a Neotrust. E a projeção de crescimento é de 42%, de 2021 até 2025, de acordo com a pesquisa Future of Retail, realizada pela Euromonitor International e o Google. Muitos que não tinham feito compras online antes da pandemia, passaram a ter contato com o e-commerce, viram que funciona e que é conveniente e prático”.

Sobre as mudanças tecnológicas que impulsionaram as vendas digitais, muito apoiadas ao varejo físico, Lass destaca as soluções de gestão de ERPs que permitem integrar o estoque na nuvem, disponibilizando-o para que ele seja visto em diversos canais, seja ele um market place, assim como no próprio e-commerce do varejista ou em um canal de venda exclusivo, como o WhatsApp.

“Por meio de um catálogo, esse estoque fica disponível para que possa ser comprado pelos canais digitais. A tecnologia de análise logística permite cruzar a disponibilidade do estoque, a localização do cliente e do item que está sendo vendido. Isso otimiza o melhor custo disponível de frete e o melhor prazo de entrega, possibilitando também a redução de custo para quem está vendendo, pois viabiliza uma venda de urgência com um preço bacana”, conclui.

Recuperação

Alexandre Dias, do Grupo Guia Norte, de São Paulo (SP)

Alexandre Dias, gerente Executivo do Grupo Guia Norte de São Paulo (SP), formado por três empresas de portas abertas, uma mecânica com a bandeira Bosch Car Service, outra de funilaria e pintura, e uma revenda de pneus. E de portas fechadas, uma empresa voltada para a preparação e entrega de veículos de locadoras, comenta que eles trabalham muito para o mercado corporativo, principalmente na reparação de veículos para locadoras e foi onde sentiram mais impacto durante a pandemia.

“Como as pessoas ficaram muito em home office, automaticamente, elas deixaram de trabalhar com o carro, deixaram de circular. Os carros passaram a quebrar menos e, com isso, mesmo as manutenções preventivas acabaram sendo prorrogadas. No caso do cliente pessoa física, eu já não senti a mesma coisa, as pessoas passaram a rodar um pouco mais. O impacto foi menor do que no eixo corporativo”, afirma.

Ele conta que em 2021 eles tiveram uma queda de 30% a 40% e, em alguns meses, até um pouco maior. “Nós conseguimos passar pela pandemia sem fazer nenhuma demissão, usamos todas as ferramentas disponibilizadas pelo Governo, entre elas, a suspensão de contrato e redução da jornada. Os piores meses foram entre março e junho de 2021. No segundo semestre nós tivemos uma recuperação e, agora, está até melhor do que o segundo semestre do ano passado”, compara.

Presencial

Roberto Rocha, da Rocha Autopeças, de Campinas (SP) e região

Roberto Rocha, da Rocha Autopeças de Campinas (SP) e região, conta que com o relaxamento das restrições não houve um aumento de vendas substancial, mas as pessoas estão indo mais às lojas. “Muitas vezes, o pessoal estava comprando pelo online, como por exemplo pelo WhatsApp. Hoje, eles querem ir à loja, tanto que em um único dia, recebemos cerca de 300 pessoas em uma de nossas unidades”.

Para ele, a postergação da troca do veículo não resultou em aumento de vendas. “As pessoas estão tendo que consertar o carro que não trocou, antes, elas davam um jeito para comprar outro. Hoje, quem tem dinheiro talvez não para comprar um carro zero, mas para fazer a manutenção necessária, acaba gastando um pouco mais. Mas, isso não está refletindo tanto na venda do balcão. A venda está estável e percebemos um crescimento nas compras pelo cartão de débito. A população ainda está muito refém de receber o seu pagamento para poder gastar”.

Rocha informa também que a falta de peças persiste e, para contornar esse problema, a solução tem sido comprar de outros estados, o que eles não faziam antes. “Em alguns deles, a compra é vantajosa por ter benefícios fiscais e, consequentemente, um preço melhor do que em São Paulo. Às vezes entre 2% e 3% menor. Mas pela quantidade, esse percentual acaba sendo muito. Porém, demora um pouco para chegar e não dá para fazer aquela venda cruzada. O que estamos fazendo é comprar para estocar”.

Físico e Digital

Na Jocar, em São Paulo (SP), o diretor Executivo, Moisés Sirvente, faz uma análise similar à de Rocha. “Não sentimos diferenças com o fim das restrições sanitárias, o que percebemos foi um aumento da manutenção, pois as pessoas estão sem dinheiro para trocar seus carros. Mesmo assim o movimento não foi ótimo neste começo de ano, mas sim bom”.

Para eles, a falta de peças não é mais um problema. “Voltou ao normal e, como sempre aconteceu, faltam alguns itens. Os fornecedores que entregavam rapidamente os pedidos continuam fazendo isso e os que demoravam também continuam igual. No começo da pandemia, não tinha nem embalagem, agora tem e a questão é outra, o aumento de preços”.

Com atuação também pelo comércio eletrônico, ele diz que o recorde de vendas foi no mês passado, mesmo tendo aumentado muito a concorrência com os market places. “Tudo depende do que o cliente quer. Se o seu carro estiver parado, ele precisa da peça de imediato e só vai comprar se não achar em outro lugar. Quanto mais rápido a entrega é melhor, mas não depende só de nós, tem a questão da transportadora”.

Ele compara que o custo para manter um comércio eletrônico é quase igual ao de manter uma loja. “O que muda é que você não precisa estar em um ponto comercial, às vezes pode estar em um lugar que tem isenção fiscal e isso é o que, no geral, fica até mais barato. Por outro lado, é preciso investir mais em Marketing. E eu acredito que o e-commerce crescerá ainda mais”.

Na reparabilidade

Gerente Administrativo na JK Centro Automotivo, Matheus Macena Pinheiro, conta que as restrições sanitárias impactaram diretamente a ida do cliente na empresa. “Nós prezamos por um espaço de muito conforto para nosso cliente, como sala de espera climatizada e lanchonete, para que ele se sinta muito confortável, à espera do veículo. Com as restrições, nós não pudemos oferecer esses espaços com total capacidade e muitos clientes que decidiam vir para acompanhar o diagnóstico acabavam, de certa forma, sentindo falta”.

Os que iam ao centro automotivo, todos os cuidados foram adotados, como a disponibilidade de máscaras, álcool em gel e os ambientes o mais higienizados possível. “Aos clientes que optavam por não vir, nós oferecemos serviços como busca e entrega do veículo, nossos consultores passaram a fazer chamada de vídeo e gravar vídeos para mostrar ao nosso cliente o que estava acontecendo com o veículo para esclarecer todas as dúvidas”.

Com o relaxamento das restrições sanitárias, esse cenário mudou. “Já percebemos mais movimento de pessoas em nosso centro automotivo. Nós tivemos um aumento de 20% na demanda de veículos”, afirma.

Na oficina Power Class, em São Bernardo do Campo (SP), Nilson Patrone diz que o fim das restrições não mudou muito para eles. “Tanto que 2021 foi um ano muito bom para a oficina e neste ano não está sendo diferente. A queda no movimento só aconteceu bem no começou da pandemia, entre o primeiro e o quinto mês de 2020. Acho que depois o pessoal se acostumou com a pandemia e nós adotamos todos os protocolos de segurança”.

O que de fato mudou na Power Class foi o perfil da manutenção. “Hoje, os clientes estão investindo mais nos carros deles, pois perderam muito o poder de troca. Os preços dos carros novos e usados subiram muito. Com isso, a manutenção preventiva está vindo mais para a oficina. Os preços dos carros beneficiam as oficinas mecânicas, pois nós vivemos de carros usados. Não é que temos que torcer por nenhum tipo de crise, mas acredito que tem que ser bom para todo mundo”, finaliza.

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