Neste ano, nem a taxa Selic e nem a inflação devem ter uma retração significativa, impactando a oferta de crédito e a inadimplência
No cenário macroeconômico, segundo a economista Tereza Fernandes, consultora da TF Consultoria e da Fenabrave, três variáveis-chave impactam diretamente as projeções e expectativas para o setor automotivo: crédito, inadimplência e situação fiscal, e nenhuma dessas variáveis está com bons indicadores.
“O crédito está prejudicado. Em outubro de 2024, chegou a crescer 31,4%, mas no mesmo mês do ano passado, cresceu somente 0,3%, com risco concreto do ano (2025) fechar próximo da estabilidade ou com leve retração. A inadimplência de automóveis cresceu no ano passado e está em torno de 4,4% (considerada elevada), e a dívida pública em relação ao PIB estava em 79,02% no mês de novembro de 2025. A meta de orçamentária de déficit, fixada em até 0,25% do PIB, tende a não ser cumprida. São essas três variáveis que eu recomendo acompanhar para efetivamente tentar definir como vai ser, no geral, o mercado automotivoneste ano”, afirmou Tereza Fernandes.
PIB – A projeções para o PIB em 2025 é de um crescimento entre 2% e 2,2%, abaixo dos 2,5% previstos anteriormente. O resultado oficial só será divulgado no mês de março. “Para este ano, a estimativa é de um crescimento mais tímido, em torno de 1,5%. O crescimento do PIB em 2025 está concentrado em quatro vetores, agronegócio, indústria extrativa, construção civil e setor de serviços. Neste ano, entre esses vetores, o setor de construção civil começa a desacelerar”, analisou a economista.

Taxa de juros – Para este ano, a taxa de juros se mantém elevada, contribuindo para a redução da oferta de crédito, afetando, principalmente, para setores que dependem de financiamento, como o de veículos. Em 2025, a taxa básica de juros (Selic) fechou em 15%. “A expectativa é de que a taxa de juros seja reduzida de forma gradual somente a partir de março e, se estivermos certos neste cenário, os juros vão cair muito pouco, terminando o ano em 13%. Estamos um pouco mais conservadores do que o mercado que estima em 12,5%”, afirmou.

Inflação – O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) fechou o ano de 2025 com uma alta acumulada de 4,26%, segundo o IBGE. “Ligeiramente abaixo do teto da meta (de 4,5%), mas ainda longe do centro da meta (de 3% com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, permitindo que a inflação ficasse entre 1,5% e 4,5%). Para 2026, a inflação deve permanecer em torno de 4,3% e temos como risco a
implementação da Reforma Tributária, que a gente sabe que é inflacionária, principalmente, a área de serviços pode ter um impacto maior. Ela não será implementada de uma vez, mas deverá gerar impacto e uma desvalorização mais forte do câmbio, que a gente acredita que vai acontecer mais no final do ano, próximo às eleições”, comentou. No ano passado, o câmbio encerrou em torno de R$ 5,48. Para este ano, a previsão é em torno de R$ 5,90 a R$ 6,00.

Cenário internacional – As incertezas se apresentam em relação às taxas cobradas de importação e do ponto de vista positivo, os conflitos entre Rússia e Ucrânia, a retirada de Maduro, da Venezuela. “Tudo isso não deixa de ser conflito e não deixa de gerar volatilidade nos vários mercados. De uma maneira ou outra, direta ou indiretamente, nos afeta também no Brasil. Além de todos esses fatores como itens de volatilidade, nós temos a CPI do INSS, agora, o caso do Banco Máster, e as eleições, que ainda serão muito polarizadas. Nada disso significa ruptura, mas significa volatilidade com as variáveis que não são controladas, oscilando de forma importante. E isso obviamente reflete na economia”, afirmou Tereza Fernandes.
Um ponto positivo é o acordo do Mercosul e a União Europeia. “Pode começar muito devagarzinho, será implementado mais em 2027 do que em 2026, mas do ponto de vista de expectativa é muito positivo”, finalizou. O cenário e as projeções de Tereza Fernandes foram feitos durante a primeira coletiva do ano da Fenabrave, na sede da federação na segunda semana de janeiro de 2025.