Especialista destaca a importância da saúde mental para empreendedores

O empresário é cobrado para investir, inovar e gerar empregos, além de lidar com processos burocráticos, dificuldade de acesso ao crédito e custos elevados para operar. E a sua saúde mental também merece cuidado

Cada vez mais, colaboradores contam com programas de bem-estar e apoio psicológico. Por outro lado, o CEO, o fundador e o pequeno empresário costumam enfrentar em silêncio as decisões mais difíceis, segundo David Braga, CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-MG). “São eles que precisam comunicar demissões, renegociar dívidas, buscar crédito, lidar com crises e, ainda assim, transmitir serenidade para equipes que esperam respostas em meio à incerteza”, afirmou.

A difícil arte de empreender no Brasil

Empreender no Brasil não é fácil, diante da burocracia, da complexidade jurídica e tributária, da dificuldade de acesso ao crédito e dos custos elevados para operar. “Mudanças nas regras e divergências de interpretação geram insegurança, enquanto oscilações de juros, inflação, câmbio e consumo dificultam o planejamento e pressionam o caixa. Para pequenos negócios, com menos recursos e pouca margem para imprevistos, esses obstáculos podem comprometer a sobrevivência”, comentou David Braga.

David Braga, CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-MG) – Foto: Divulgação

Outro ponto colocado por ele são as disputas políticas. “Elas agravam esse cenário quando atrasam soluções, interrompem políticas públicas e reduzem a previsibilidade para investir. Ao mesmo tempo, muitos empreendedores começam sem preparação suficiente para precificar, controlar custos, liderar equipes e avaliar o mercado. Superar essas barreiras exige regras claras, estabilidade institucional, crédito adequado e capacitação gerencial: abrir uma empresa precisa vir acompanhado de condições para mantê-la e fazê-la crescer”, descreveu.

Apoio necessário aos empresários

De acordo com David Braga, os empresários precisam de segurança jurídica, estabilidade econômica e regras claras para investir e contratar. “O apoio deve incluir simplificação tributária, redução da burocracia, agilidade no licenciamento e acesso ao crédito com custos e prazos adequados, especialmente para pequenas e médias empresas. Políticas públicas devem ter continuidade, transparência e resultados acompanhados”, pontuou.

Para impulsionar a inovação e gerar empregos, David Braga disse que é necessário investir em qualificação profissional, formação gerencial e infraestrutura de logística, energia e conectividade. “A aproximação entre empresas, universidades e centros de pesquisa também deve facilitar o desenvolvimento de produtos e processos. O objetivo é criar condições para que os negócios aumentem sua produtividade, cresçam com responsabilidade e ampliem as oportunidades de trabalho e renda”, defendeu.

Saúde mental dos empreendedores

Muito se fala da importância de as empresas cuidarem da saúde mental de seus colaboradores. Mas, quanto aos empresários, David Braga afirma que “por trás de uma empresa existe uma pessoa que também sente medo, enfrenta incertezas e precisa de apoio. A responsabilidade de pagar salários, manter o negócio e tomar decisões difíceis pode vir acompanhada da pressão de parecer forte o tempo inteiro. O empresário não pode ser lembrado apenas por sua capacidade de produzir, contratar e resolver problemas. Sua saúde mental merece cuidado antes que o sofrimento comprometa sua vida. Buscar acompanhamento psicológico e, quando necessário, avaliação médica é reconhecer que nenhuma responsabilidade profissional elimina os limites humanos”, orientou.

Segundo ele, “esse cuidado também exige mudar a forma de conduzir o negócio: dividir decisões, delegar responsabilidades, preservar o descanso e construir relações nas quais seja possível falar de dificuldades sem julgamento. Redes de empresários, mentores e assessorias qualificadas podem reduzir o isolamento e ajudar a enfrentar problemas concretos, embora não substituam o acompanhamento em saúde mental. Não basta recomendar equilíbrio a quem vive uma rotina de sobrecarga; é preciso criar condições para que esse equilíbrio seja possível. O sucesso de uma empresa não deveria ser construído à custa da saúde de quem a mantém”, afirmou.

O exemplo australiano

Para ilustrar um país que tem um programa de apoio aos empresários, David Braga citou a Austrália. “Na Austrália, a saúde mental de quem empreende tem um programa próprio de apoio. Financiado pelo governo e realizado pela Beyond Blue, o NewAccess for Small Business Owners oferece seis sessões gratuitas e confidenciais de apoio em saúde mental, além de dois acompanhamentos posteriores. Por telefone ou vídeo, pequenos empresários e trabalhadores por conta própria encontram orientação para enfrentar estresse e sobrecarga, sem necessidade de encaminhamento médico. É um serviço de intervenção inicial, não destinado a quadros graves ou complexos. A iniciativa reconhece algo essencial: assumir a responsabilidade por um negócio não torna ninguém imune ao sofrimento”, descreveu.

No entanto, disse David Braga, “o exemplo não significa que empreender na Austrália seja livre de pressão, mas demonstra que o cuidado com o empresário pode se transformar em uma ação pública concreta. Para o Brasil, fica uma reflexão: cobramos investimento, inovação e geração de empregos, mas que apoio oferecemos às pessoas que sustentam essas entregas? Crédito, capacitação e simplificação são fundamentais; acolhimento e acesso à saúde mental também precisam integrar essa agenda. Quem mantém uma empresa em funcionamento não deveria precisar chegar ao limite para encontrar ajuda”.

O papel das entidades empresariais

Para David Braga, o valor de uma entidade empresarial também se revela quando o associado enfrenta um problema que não sabe com quem dividir. “As entidades podem fortalecer esse vínculo com grupos de troca confidenciais, mentorias entre empresários e orientação acessível sobre gestão, crédito, legislação e sucessão. Encontros precisam abrir espaço para dificuldades reais, além de resultados e oportunidades. Quando existe confiança para falar sobre caixa apertado, conflitos ou decisões difíceis, a entidade se torna uma presença concreta na jornada de quem empreende”, explicou.

Para finalizar, o executivo disse que esse compromisso exige proximidade contínua. “É preciso procurar o associado, compreender suas dificuldades e acompanhar os encaminhamentos, inclusive facilitando o acesso a profissionais de saúde mental. Quem deixa de participar também merece atenção, pois o silêncio não significa necessariamente que tudo vai bem. A força dessa atuação aparece na confiança construída e na utilidade do apoio oferecido. O empresário precisa saber que não é necessário apresentar uma história de sucesso para merecer escuta e que pode pedir ajuda antes de chegar ao limite”, concluiu.

Compartilhe