Para Ricardo David, diretor da Elev, são fundamentais uma estrutura de recarga sólida e uma política de incentivos fiscais integrada a uma Política Nacional de Eletromobilidade
Por Karin Fuchs
O novo governo já sinalizou a intenção de investir no setor de eletrificados, conforme as recentes declarações do Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas faltam projetos concretos. Nesta entrevista com Ricardo David, diretor da Elev, empresa especializada em soluções para todo o ecossistema dos carros elétricos, ele esclarece o que é necessário para este setor crescer, o que inclui investimento na infraestrutura de recarga e uma política de incentivos fiscais integrada a uma Política Nacional de Eletromobilidade.

Balcão Automotivo – Quais são as expectativas do setor com o novo governo?
Ricardo David – Nós estamos apenas no início do governo e ainda há muito o que esperar. Porém, tenho a convicção de que o reconhecimento da necessidade de um plano nacional é de grande importância para o setor. Mas ainda aguardo propostas concretas, principalmente conversando com os empresários que estão investindo no setor.
BA – O que é necessário para crescer o mercado de eletrificados no Brasil?
RD – Para o crescimento deste mercado são fundamentais o investimento na infraestrutura de recarga e os incentivos. Sem uma estrutura de recarga sólida, fica difícil para os motoristas optarem pelos veículos elétricos, pois eles precisam se preocupar em encontrar pontos de recarga durante suas viagens. Além disso, os incentivos fiscais são importantes para atrair as montadoras para produzirem veículos elétricos no País, o que pode gerar empregos e impulsionar a economia.
BA – Quais seriam os incentivos fiscais?
RD – Em primeiro lugar é importante ressaltar que uma política de incentivos fiscais deve estar integrada a uma Política Nacional de Eletromobilidade, onde toda a cadeia produtiva e de consumo precisa ser contemplada. Sendo assim, devemos desonerar a prospecção dos minerais indispensáveis à fabricação das baterias, com o objetivo de sermos protagonistas na produção desse elemento essencial do ecossistema da eletromobilidade. Nesse caso, estamos nos referindo ao PIS, COFINS E ICMS.
Na produção dos veículos elétricos, incentivos no IPI são absolutamente necessários para atrair novos investimentos. Na infraestrutura de carregamento é preciso definir o modelo tributário mais adequado, uma vez que existem conflitos entre a aplicação do ICMS ou ISS no fornecimento desses serviços. Essa insegurança tributária gera desconfiança por parte dos investidores e muitos projetos são adiados.
BA – Pela frota atual e a demanda que virá, qual seria o número de eletropostos necessário?
RD – Essa proporção tem variado de país a país, em função, basicamente, de sua extensão territorial. País como a Noruega possui uma proporção de 30 veículos para cada carregador. Na China, segundo a Bloomberg NEF, existem 16 veículos para cada carregador, enquanto na Alemanha esse número atinge a marca de 8 veículos por carregador.
No Brasil temos aproximadamente 40 mil veículos elétricos que demandam infraestrutura de carregamento e um total de 2,3 mil eletropostos, resultando em 1 eletroposto para cada 17 veículos elétricos. Esse número, apesar de não ser distante de países como a China, apresenta uma distorção, por estarem concentrados nos grandes centros urbanos das regiões sul e sudeste. Acreditamos que o número de 25 veículos para cada carregador seja um alvo a ser alcançado nos próximos anos.
BA – Ainda que em 2022 o mercado de veículos leves eletrificados no Brasil tenha registrado um crescimento de 41% em relação a 2021, com 49.245 unidades comercializadas, o volume ainda é pequeno. Em sua opinião, como se dará o aumento da participação dos eletrificados na frota brasileira?
RD – O crescimento do mercado precisa estar em sintonia com uma política nacional de eletromobilidade. O usuário de um veículo elétrico precisa estar seguro de que encontrará um eletroposto nos principais pontos de circulação no país, sejam em rotas turísticas ou comerciais. Outro fator é a disponibilização pelas montadoras de modelos mais econômicos, que permitam o acesso a essa tecnologia de camadas cada vez maiores da população. Mas tudo isso vai depender das condições que os governos municipais, estaduais e federal propiciem ao crescimento desse setor.
BA – O senhor acredita em uma tendência para os 100% elétricos no País ou a grande demanda será para os híbridos? Apenas para ilustrar, no ano passado, do total de veículos eletrificados emplacados, 63% ou 30.439 unidades foi a participação dos veículos híbridos.
RD – Os números de crescimento do mercado de eletrificados já sinalizam uma certa tendência para os 100% elétricos. Acredito que, com um sinal governamental mais em sintonia com o mercado, teremos um forte avanço dos 100% elétricos nos próximos anos, seja devido a pressões por políticas ambientais mais efetivas ou mesmo pelo sinal econômico que esses modelos representam.
BA – Para finalizar, em sua opinião, como deveria ser o plano nacional para impulsionar este setor?
RD – Em primeiro lugar, defendo uma forte iniciativa na inserção do veículo elétrico no transporte público. Teríamos uma consequente melhoria da qualidade do ar nos grandes centros urbanos e uma redução nas tarifas públicas, afetando de forma positiva as camadas mais carentes da população, que efetivamente dependem do transporte público para sua locomoção.
Em seguida, buscar incentivar o setor de escoamento da produção e logística, de modo a reduzir a contribuição do frete no preço final de insumos básicos, gerando economias para os mais necessitados e, por fim, incentivos para frotistas e motoristas de aplicativos, objetivando uma aceleração na conversão dessas frotas. Dessa maneira, a eletromobilidade contribuiria para uma melhor distribuição de renda em nosso País e melhorando as condições ambientais dos grandes centros urbanos.