Estudo da Roland Berger e da Lazard avalia a produção global de veículos

A necessidade de desglobalização da cadeia de fornecimento também fez parte do estudo, um movimento que já está acontecendo. Porém, Taiwan responde por 50% da produção global de semicondutores e 70% dos microcontroladores automotivos

Por Karin Fuchs

A primeira etapa de um estudo da Roland Berger e da Lazard, divulgado recentemente, teve como foco uma análise geral da produção global de veículos de passeio e das margens dos fornecedores. A segunda abrangerá as implicações e os desafios para os fornecedores e a terceira, as medidas que eles precisam adotar para fazerem os movimentos necessários, as adaptações.

Pelos resultados, a indústria automotiva global só deve retomar os níveis pré-pandêmicos após 2025. Em números, no ano passado, a produção de veículos global foi estimada em 80,6 milhões e em 84,9 milhões de unidades para este ano, abaixo dos 94,2 milhões produzidas em 2018.

Na análise de Cristiano Dória, Head de Operações para o Brasil da Roland Berger, “se fizermos uma conta, de 94,2 milhões para 84,9 milhões, estamos falando de uma queda de 10%, o que não é um absurdo, se considerarmos que durante a pandemia a produção foi de 74 milhões de unidades. Nessa base de comparação (94,2 milhões para 74 milhões) foi uma queda bem grande, retomou para 84 milhões de unidades e a retomada até 2025 deve ser em passos mais lentos”.

Cristiano Dória, Head de Operações para o Brasil da Roland Berger

Questionado sobre dados específicos do Brasil, ele respondeu que especificamente este estudo tratou de regiões globais, mas que outro estudo da Roland Berger mostra qual é a participação do País na América do Sul. “São 13 milhões de veículos produzidos na América do Sul, a participação do Brasil é de 2,4% do total e, quando considerado apenas automóveis, ela é de 1,8%. É pouco! Em 2013, chegamos a produzir 3 milhões de veículos no País e nós acreditamos que lá por 2030 esse volume poderá voltar”.

Margens

As consultorias preveem que mesmo com a produção global de automóveis em tendência de alta as margens das montadoras devem seguir sob pressão diante do cenário de custos produtivos em elevação, capital mais caro para financiar investimento e juros a pressionar as contas de montadoras e seus consumidores.

Na cesta de montadoras analisadas, elas têm receita anual entre 0,5 e 10 bilhões de euros, o que inclui as grandes montadoras, a margem EBIT (lucro deduzido de juros e impostos) média foi projetada para 2022 num intervalo próximo aos 5,3% alcançados em 2021. As empresas com receita acima de 10 bilhões de euros e portfólio para vários segmentos devem publicar os melhores resultados. Para as autopeças, a margem EBIT média deve ser superior aos 9,1% de 2021, principalmente pela demanda de peças de reposição.

Desglobalização da cadeia

A necessidade de desglobalização da cadeia também fez parte da primeira etapa do estudo da Roland Berger e da Lazard. Entre os riscos no curto prazo, estão a continuidade da política chinesa de covid zero, baseada no lockdown de áreas residenciais e fabris, que, nas estimativas das consultorias, tem potencial para reduzir a produção global de veículos em ao menos 1,5 milhão de unidades. Além disso, uma possível guerra entre China e Taiwan pode, no limite, derrubar a produção de veículos em até 90%, embora as consultorias apontem esse conflito como provável. Taiwan responde por 50% da produção global de semicondutores e 70% dos microcontroladores automotivos.

“Na parte de semicondutores, a desglobalização será mais lenta no Brasil. O único país pronto para suprir sua demanda e mesmo assim não é 100% é os Estados Unidos. O resto da cadeia está passando por um movimento que estamos chamando de New Sharing, que é trazer a fabricação de produtos para perto do local de produção ou consumo. Nas Américas, dois países são candidatos imediatos para isso, o México, pela proximidade com os Estados Unidos, mas ele não tem energia limpa, e o Brasil, pela abundância de recursos que nós temos, uma matriz muito limpa”, afirmou Cristiano.

Segundo ele, se o governo brasileiro souber explorar bem isso e aproveitar o momento, é de novo uma oportunidade para sairmos na frente. Para isso, ele defendeu a união das diversas entidades, entre elas, a Fiesp e a Anfavea, para este movimento de trazer fornecedores para o País e ampliar a produção local. “Ninguém mais quer ficar refém de um fabricante do outro lado do mundo, não só por questões pandêmicas, mas por questões geopolíticas, fretes muitos longos, custo de logística e tudo isso impacta muito”, ressaltou.   

 

Um movimento que Cristiano disse que já está acontecendo. “A gente vê

montadoras que estavam pensando em deixar o País e já estão desistindo, e muitas que estão muito sólidas aqui anunciando mais investimentos e não só montadoras, mas toda a cadeia de fornecedores. Tudo isso vem a reboque”.

Eletrificação

Cristiano antecipou que outro estudo está sendo desenvolvido pelo escritório da Roland Berger, em São Paulo (SP), sobre a frota, eletrificação, mercado fornecedor e tendências de mobilidade para os próximos anos. De antemão, disse ele, “acreditamos que pelo fato de o Brasil ter o etanol muito forte e dele ser reconhecido como uma energia limpa, o custo de aderir aos híbridos ou totalmente elétricos é tão alto que faz com que o nosso ecossistema de motor a combustão a etanol sobreviva por muito tempo”.

Para finalizar, ele disse que como País, nós precisamos alavancar uma estratégia industrial nos próximos anos. “Nós temos uma vantagem ante a outros países produtores de automóvel, que é a matéria-prima do etanol. Além de ter o veículo etanol puro, o Brasil é o País que tem a maior porcentagem de etanol misturado na gasolina, isso também ajuda no quesito poluição”.  

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