Atuantes no setor automotivo, elas disseminam conhecimento, unem forças e promovem o crescimento profissional não só de mulheres, mas também dos homens
No setor automotivo, várias mulheres estão à frente, contribuindo para que mais mulheres evoluam profissionalmente, independentemente do cargo em que atuam. Uma delas é a Carla Nórcia, presidente e idealizadora da AMMA, Associação Brasileira das Mulheres do Mercado Automotivo, uma entidade com foco na representatividade feminina, mas sem ser segregacionista. Neste ano, ela completa 40 anos de atuação no setor automotivo.

“Comecei muito jovem, quando esse mercado era ainda mais fechado, técnico e predominantemente masculino do que é hoje. Cresci aprendendo a negociar em ambientes duros, a ocupar espaços onde quase não havia mulheres e a transformar relacionamento em estratégia. O aftermarket me ensinou disciplina, leitura de cenário e visão sistêmica. Mas, acima de tudo, me ensinou resiliência. Resiliência para atravessar crises econômicas, mudanças cambiais, reestruturações industriais, consolidações globais e agora uma transformação tecnológica acelerada”, relatou Carla.
Idealizadora do programa Mulher AutoMotiva, que nasceu para dar suporte às empresárias e gestoras do setor, Paola Brandão tem 26 anos de carreira em marketing e vendas e, desse tempo, 16 anos são no segmento automotivo. “Comecei dentro das maiores empresas do setor, onde atuei no marketing dos distribuidores, em uma rede de centros automotivos, também em uma rede de autopeças gigante e em diversos projetos inovadores para o mercado. Tive a experiência de viver a indústria, que é outro universo, mas o que sempre me encantou nisso tudo foram as empresas familiares da ponta da cadeia. Sinto que fui evoluindo e aprendendo junto com o mercado”, afirmou.

Mulheres no setor
Paola contou que desde que começou, o avanço das mulheres no setor aconteceu, principalmente, nos últimos anos. “Quando cheguei, eram poucas mulheres. Me lembro de ver tantos homens mais velhos que até me assustei. Participei de muitas reuniões em que ninguém me dava crédito pelo que eu falava e tive que me posicionar de forma dura muitas vezes”, recordou-se.
Hoje, segundo ela, as mulheres estão presentes em todas as áreas do setor. “Para mim, a maior porta de entrada que vejo é na área comercial. Mas ainda estamos em construção. Saímos dos cargos de assistentes e suporte, ou de ‘ajudar na empresa da família’, para ocupar cargos de liderança, gestão e decisão. O crescimento é visível. Porém, ainda existe resistência cultural em alguns ambientes. É perceptível a evolução das empresas quando há mulheres envolvidas, por terem habilidades complementares às dos homens. Essa é a minha parte favorita da inclusão: essa complementaridade”, ponderou.
Carla relatou que, em sua trajetória, ela viu o setor se profissionalizar, digitalizar, internacionalizar, multinacionais entrarem, modelos de negócio mudarem, dados virarem ativos estratégicos. “E vi algo igualmente importante: a presença feminina deixar de ser exceção para se tornar parte da engrenagem de crescimento. Se olharmos sob a ótica macroeconômica, a inclusão feminina não é apenas justiça social, é expansão de capacidade produtiva. Quando mais mulheres participam ativamente da economia, o setor ganha eficiência, diversidade de pensamento e estabilidade. Vivi e vivo isso na prática”, enfatizou.
Na visão de Carla, o avanço feminino no setor automotivo não é um movimento de moda. “É estrutural. Mulheres sempre estiveram presentes — nas oficinas, nas lojas, nas indústrias, nos bastidores administrativos — mas, muitas vezes, invisíveis. O que mudou foi a consciência coletiva. Hoje falamos da presença feminina não como concessão, mas como competência. E isso é amadurecimento de mercado”, explicou.
Segundo ela, “estudos mostram que países e empresas com maior participação feminina tendem a ter melhor desempenho econômico e maior capacidade de adaptação em momentos de crise. Isso não é ideologia, é estatística. E o aftermarket, que vive ciclos constantes de pressão e reinvenção, precisa dessa capacidade adaptativa. Trazer mulheres, sobretudo para a liderança, amplia repertório, amplia leitura de consumidor e amplia visão estratégica. É crescimento inteligente”, ressaltou.
Equidade e diversidade
Questionadas se existe uma equidade de oportunidades no aftermarket, Paola respondeu que ainda não pode considerar que exista, principalmente, em cargos de liderança. “As oportunidades aumentaram, mas o acesso nem sempre é igual. Muitas vezes, a vaga existe, mas quem ocupa são homens, mesmo não tendo todas as habilidades necessárias. Mas aí entraríamos em questões de machismo estrutural. Não é falta de capacidade feminina, pelo contrário, as mulheres estudam muito mais”, afirmou.
Da sua experiência, nos setores técnicos o desafio é maior. “Principalmente, por estereótipos antigos, por acharem que a mulher não tem força física para as atividades e por falta de confiança técnica. A boa notícia é que as mulheres estão se especializando, estudando e se posicionando nas áreas técnicas.
Quando olhamos para o setor estético, elas se destacam pelo capricho nas entregas. Competência não tem gênero, e o mercado, aos poucos, está começando a entender isso. Outro dia ouvi de um homem que, quando há mulher na estética, ele fica até mais confiante para entregar o carro”, comentou.
Paola acrescentou que diversidade não é pauta social. “Em minha opinião, é pauta estratégica de negócio, porque equipes diversas potencializam os resultados, cada um com suas habilidades e competências. Empresas diversas têm maior potencial de vendas, inclusive, porque entendem melhor o cliente, têm capacidade de personalização de carteiras e mais sensibilidade com os diferentes perfis. Também têm equipes mais criativas, decisões mais equilibradas e uma visão ampliada por conseguirem mapear mais frentes. No aftermarket, que é um setor de relacionamento, isso faz toda a diferença. Quem não entende isso vai perdendo mercado”, alertou.
Para Carla, representatividade é indicador econômico. Não é pauta ideológica. “Organizações que investem em ambientes mais inclusivos apresentam maior retenção de talentos, maior inovação e melhor governança. Já é sabido que ampliar a participação feminina no mercado pode impactar positivamente o PIB. Equidade não significa privilégio. Significa remover barreiras desnecessárias para que talento possa florescer. Quando ampliamos o acesso, ampliamos produtividade. Quando ampliamos produtividade, ampliamos competitividade. E competitividade, no nosso setor, significa margem, eficiência e sustentabilidade de longo prazo. É simples: quanto mais talentos aproveitados, melhor o resultado econômico. E talento não tem gênero”, respondeu.
Liderança Feminina
Quanto à liderança feminina no aftermarket, Carla disse que “a liderança feminina no aftermarket traz uma combinação interessante: firmeza estratégica com capacidade relacional elevada. O setor automotivo sempre foi movido por confiança, parceria e construção de longo prazo. Mulheres têm demonstrado enorme competência em gestão de pessoas, operações comerciais, em negociações complexas e construção de pontes entre indústria, distribuição e varejo. Elas têm se mostrado motores de mudança e inovação”, afirmou.
A executiva acrescentou que se trata de ampliar repertório. “Economias modernas são mais fortes quando aceitam pensamentos múltiplos, isso eleva o nível das decisões. O aftermarket é grande demais, sofisticado demais e estratégico demais para funcionar sem complementaridade”, concluiu.
“Quando vem esse assunto, não consigo pensar em outra coisa a não ser nas mulheres desbravadoras que estão nessas posições atualmente. Elas têm uma responsabilidade positiva enorme nisso. Hoje temos líderes nas indústrias e empresárias liderando oficinas, distribuidoras e varejos com alta performance e posicionamento. Isso é inspirador para outras mulheres e exemplo para que os homens percebam a diferença. Alguns já entenderam isso e estão tendo excelentes resultados. A liderança feminina traz organização, visão estratégica e foco em pessoas. Isso fortalece todo o setor”, finalizou Paola.
BOX
Giovana Carolina Toso, Consultora Técnica Automotiva, atua no setor há mais de 13 anos fez uma transição para a consultoria não apenas para ajudar mulheres do setor, mas também homens — e a si mesma.. “Trabalhei como mecânica entre 2019 e 2025, período em que consolidei minha base técnica e minha vivência prática em oficina. A transição para a consultoria foi natural, prática e tranquila, pois nasceu de uma necessidade real que eu já enxergava no dia a dia da operação. Percebi que se eu quisesse um dia abrir o meu próprio negócio, precisaria ser mais do que uma das melhores mecânicas do País. Eu precisava entender de pessoas, atendimento, gestão, finanças e estratégia empresarial”, expressou-se.

Neste caminho, ela encontrou alguém disposto não apenas a lhe oferecer um novo cargo, mas a compartilhar com ela o conhecimento que o levou a construir uma empresa de sucesso. “Entendi que era o momento certo de dar esse passo. Foi uma decisão consciente de ampliar minha visão e me preparar para algo maior”, afirmou.
Segundo ela, os gargalos nas oficinas mecânicas são diversos e, muitas vezes, interligados. “Vejo uma grande carência na gestão, falta de processos bem definidos, desorganização operacional e, principalmente, ausência de preparo na linha de frente — aqueles profissionais que fazem o atendimento ao cliente.
Também percebo a falta de profissionais verdadeiramente comprometidos com excelência técnica e postura profissional. Esses fatores impactam diretamente na experiência do cliente e nos resultados da oficina”, pontuou.
A consultoria
A solução que Giovana desenvolveu não é direcionada a um gênero específico. “Ela foi criada para resolver um conjunto de gargalos que envolvem experiência do cliente, domínio técnico do consultor e a forma como esse conhecimento é transmitido. Atendo homens e mulheres que ocupam cargos de liderança ou atendimento ao cliente. Meu objetivo é transformar profissionais em verdadeiros consultores automotivos, capazes de explicar com clareza, gerar confiança e aumentar aprovações e ticket médio de forma ética e técnica”, revelou.
A consultoria será lançada ao público no segundo semestre deste ano. “Antes de lançar oficialmente, optei por aplicar o método dentro da própria oficina onde atuo. Testei pessoalmente, ajustei processos, refinei a metodologia e validei os resultados. A decisão foi clara: só levar ao mercado um produto realmente estruturado, eficiente e aplicável à realidade prática das oficinas”, disse.
Com a consultoria, o seu principal objetivo é contribuir para a evolução do setor automotivo de forma responsável, técnica e estruturada. “Quero ajudar oficinas a crescerem com organização, ética e preparo, não apenas aumentando faturamento, mas elevando o padrão profissional do mercado. Acredito profundamente na democratização do conhecimento automotivo. O cliente não pode mais se sentir excluído das decisões sobre o próprio veículo. Quando ele entende o que está sendo feito, por que está sendo feito e quais são as consequências, ele confia. Minha missão é justamente reconstruir a ponte entre oficina e cliente por meio da clareza, da competência e da verdade técnica. Porque aprovação não vem da persuasão. Vem da compreensão”, finalizou.