O futuro do capital humano

Uma pesquisa aponta que o uso excessivo de tecnologias digitais pode afetar a criatividade e a inovação. A partir dela, foi criado um sistema capaz de realizar diagnósticos automatizados e recomendar intervenções para áreas de RH e lideranças

Uma pesquisa realizada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) aponta que o uso excessivo da inteligência artificial e de tecnologias digitais pode comprometer o potencial criativo da geração Z e das próximas gerações, caso modelos de aprendizagem baseados exclusivamente em algoritmos passem a dominar a educação e o mercado de trabalho.

Segundo o pesquisador Rodrigo de Barros, autor da tese de doutorado desenvolvida na UTFPR, “há um perigo inerente ao consumo massivo de informações e entretenimento guiado exclusivamente por algoritmos preditivos nas redes sociais e plataformas digitais. Já estamos vivenciando um processo de crise criativa”, afirmou.

Criatividade é diferencial

Os processos cognitivos relacionados à criatividade vêm sendo impactados pela combinação entre hiperconectividade, consumo excessivo de conteúdos mediados por algoritmos e redução das experiências presenciais. “A criatividade depende da capacidade de estabelecer conexões inéditas entre conhecimentos distintos. Esse processo exige curiosidade, exploração, experimentação e contato com diferentes perspectivas. Quando o indivíduo passa a consumir apenas conteúdos semelhantes aos seus interesses já consolidados, reduz-se a possibilidade de formar essas conexões”, explicou.

Para Rodrigo de Barros, “a criatividade deixou de ser um diferencial para se tornar uma das competências mais importantes do mercado de trabalho. O próprio Fórum Econômico Mundial posiciona o pensamento criativo como a segunda habilidade mais relevante para os profissionais do futuro. No entanto, enquanto as empresas investem cada vez mais em inovação, cresce um fenômeno silencioso que pode comprometer justamente a geração que está ingressando no mercado de trabalho: a perda da liberdade criativa”, alertou.

Desafios na educação

Os resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) mostram dificuldades persistentes dos estudantes brasileiros para resolver problemas complexos, interpretar informações e desenvolver raciocínio crítico.

Para Rodrigo de Barros, “criatividade e inovação dependem diretamente da capacidade de aprendizagem das pessoas. Organizações internacionais, como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), reforçam que promover a inovação exige muito mais do que investimentos em tecnologia: requer investimento contínuo no desenvolvimento humano e nas competências cognitivas da população”, defendeu.

Impactos nas empresas

Segundo o relatório Future of Jobs Survey 2023, o pensamento criativo é a segunda habilidade mais valorizada pelas empresas para os próximos cinco anos.

“Empresas, escolas e famílias precisam atuar conjuntamente para reconstruir ambientes favoráveis ao desenvolvimento da criatividade. Isso inclui limitar o uso excessivo de dispositivos digitais, estimular atividades analógicas, ampliar o acesso à cultura, incentivar a leitura, as artes, o contato com a natureza e criar espaços que favoreçam a reflexão e a experimentação”, destacou.

Protótipo do Sistema Web MACI

A pesquisa desenvolvida na UTFPR analisou inicialmente 1.004 artigos científicos publicados em todo o mundo. Após critérios de seleção, foram escolhidos os 101 estudos de maior impacto para a construção do modelo MACI, estruturado em cinco dimensões de aprendizagem e desenvolvimento, 25 componentes comportamentais e um instrumento de avaliação, o QMACI, composto por 75 questões destinadas a medir a maturidade criativa de indivíduos e equipes.

A tese resultou na criação de um protótipo do Sistema Web MACI, capaz de realizar diagnósticos automatizados e recomendar intervenções para áreas de Recursos Humanos e lideranças. “Embora existam inúmeros estudos explicando o que é criatividade, ainda há uma lacuna sobre como ela se desenvolve. A pesquisa propõe justamente um modelo aplicado para desenvolver essa competência em pessoas e equipes, partindo da premissa de que criatividade não é um dom inato, mas uma habilidade que pode ser aprendida e aperfeiçoada”, justificou Rodrigo de Barros.

Na prática, sempre que o sistema identifica um componente com nota inferior a 3,5, cruza os resultados com a literatura científica e apresenta recomendações específicas para que RH e lideranças atuem de forma direcionada. “Faço palestras para algumas das maiores empresas do Brasil e, semanalmente, ouço relatos sobre a dificuldade de inovar. Pesquisas internacionais já demonstraram que empresas com processos criativos bem estruturados podem faturar até 2,4 vezes mais”, destacou.

A pesquisa reforça que a criatividade antecede a inovação. “Antes que uma organização desenvolva novos produtos, serviços ou modelos de negócio, é necessário que seus profissionais sejam capazes de produzir ideias originais. Sem criatividade, a inovação torna-se apenas uma reprodução incremental do que já existe. Mais do que uma discussão sobre tecnologia, a tese propõe uma reflexão sobre o futuro do capital humano”, afirmou.

Para finalizar, Rodrigo de Barros ressaltou que, “em uma economia cada vez mais automatizada, o diferencial competitivo não estará na capacidade de consumir informações rapidamente, mas na habilidade de produzir ideias inéditas, resolver problemas complexos e conectar conhecimentos de forma original”, concluiu

Rodrigo de Barros, autor da tese de doutorado desenvolvida na UTFPR – Foto: Divulgação
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