Desmistificar esse tabu exige promover informação científica de qualidade o ano inteiro, combatendo diretamente o preconceito e a psicofobia associados às doenças mentais
A campanha Setembro Amarelo foi criada para combater o estigma e o preconceito contra as doenças mentais, quebrar o tabu em torno do suicídio e exigir do Estado políticas públicas e ações efetivas de prevenção. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) mantém o slogan permanente “Se precisar, peça ajuda”, o mesmo lema internacional da prevenção ao suicídio.
A iniciativa teve início em 2013, (ABP) iniciou os estudos e trouxe ao Brasil a proposta do Setembro Amarelo. “Em 2014, com o apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), colocamos a campanha efetivamente nas ruas, apoiada em informação técnica e científica. Em 2015, a mobilização cresceu com a participação da Associação Médica Brasileira (AMB), da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), do Exército Brasileiro e de outras instituições médicas e não médicas. Ao longo dos anos, essa rede continuou a se ampliar, com a participação de instituições públicas de diferentes esferas. Esse trabalho acontece 365 dias ao ano”, afirmou o Dr. Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
Estatísticas
Com base em dados do DATASUS, em 2025 foram registrados 16.470 suicídios, o que representaria uma média de 45 mortes por dia. “Mas é comum que haja desencontros nos diferentes levantamentos e recortes devido à expressiva subnotificação no País. Estima-se que uma parcela considerável de óbitos sequer seja notificada ou receba registros imprecisos ou errados, como mortes por causas externas de tipo ignorado, acidentes de trânsito, intoxicações, envenenamentos ou politraumatismos”, ponderou.

Outro dado alarmante é o índice de suicídio entre os jovens. A explicação, segundo o Dr. Antônio Geraldo da Silva, é multifatorial. “É comum que essa faixa etária seja mais suscetível a pressões coletivas e passe por intensas transformações no cérebro, sem saber lidar com conflitos e crises emocionais. Há também um índice elevado de supressão do sono entre os jovens, gatilho para quadros depressivos, e mais uso e abuso de substâncias, o que pode desencadear e agravar transtornos mentais”, mencionou.
Influência das redes sociais
O Dr. Antônio Geraldo da Silva acrescentou que “as redes sociais e o ambiente virtual em si também podem ser bastante nocivos quando expõem os jovens a comparações irreais, ciberbullying e ataques online. A soma desses fatores com problemas familiares, impulsividade, baixa autoestima e incertezas socioemocionais pode vulnerabilizar pessoas nessas idades”, relatou.
Segundo a OMS, em países de média e baixa renda, o índice de suicídio é maior. “A princípio, atribui-se à distribuição demográfica, já que quase 90% dos jovens do planeta habitam essas nações, mas também existem determinantes estruturais, como a profunda dificuldade de acesso a serviços psiquiátricos de qualidade. Logo, há escassez de diagnósticos precoces, de estrutura ambulatorial e de fornecimento de medicamentos básicos”, explicou.
Segundo ele, “tudo isso obstrui o tratamento adequado à maioria das pessoas com transtornos mentais, assim como os estressores socioeconômicos e ambientais, tais como desemprego, pobreza, instabilidade financeira e falta de integração social, potencializam o surgimento de doenças como depressão e ansiedade”, pontuou.
Sinais
A maioria das pessoas com ideação suicida emite sinais nítidos, de acordo com o Dr. Antônio Geraldo da Silva. “Os indicativos verbais mais frequentes envolvem expressões diretas ou indiretas de desesperança, desespero e desamparo (ex.: ‘Eu queria não ter nascido’, ‘Preferia estar morto’ ou ‘Caso a gente não se veja de novo’). Também se deve observar o isolamento social, oscilações bruscas de humor, impulsividade, baixa autoestima, perda do interesse em atividades antes prazerosas e a organização de despedidas (ex.: doar pertences, redigir textos de adeus, testamentos). Em adolescentes, sinais específicos podem envolver queda no rendimento escolar e mudanças no vestuário em dias quentes para cobrir marcas de automutilação”, afirmou.
Ainda um tabu?
Questionado se, no Brasil, falar sobre suicídio induz ao ato, o Dr. Antônio Geraldo da Silva esclareceu que isso é falso e ultrapassado. “A ciência já mostra que abordar o tema de forma responsável, séria e fundamentada alivia o sofrimento, reduz a angústia e estimula a busca por ajuda médica especializada”, explicou.
Ele disse também que “desmistificar esse tabu exige promover informação científica de qualidade o ano inteiro, combatendo diretamente o preconceito e a psicofobia associados às doenças mentais. É preciso intensificar ações educativas contínuas em escolas, empresas e imprensa, ensinando a reconhecer os sinais de alerta e disseminando que o suicídio é uma emergência médica evitável”, defendeu.
Como as famílias e as empresas podem ajudar
Para as pessoas que estão em situação de sofrimento, o Dr. Antônio Geraldo orientou: “As famílias desempenham um papel vital ao praticar uma escuta ativa e empática, sem julgamentos ou desvalorização do sofrimento. Os parentes devem manter a pessoa acompanhada, remover o acesso a meios letais e levá-la imediatamente à avaliação de um psiquiatra. Já as empresas precisam levar o assunto para o ambiente de trabalho, realizando palestras com médicos especialistas, estruturando canais abertos no RH e promovendo a prevenção de doenças mentais como um todo”, finalizou.