Aftermarket gera debate no 12º Fórum IQA da Qualidade Automotiva

Novas tecnologias, marketplaces e o passaporte digital de produtos foram os principais temas abordados no painel dedicado ao mercado de reposição automotiva

Com o tema “Inovação e Excelência Operacional na Mobilidade: Cultura, Pessoas e Processos para Competitividade Sustentável”, foi realizado, na segunda quinzena de outubro, em São Paulo (SP), o 12º Fórum IQA da Qualidade Automotiva.

No painel dedicado ao aftermarket, “Ampliação do Comércio Eletrônico e Inteligência Artificial: Impactos na Qualidade, na Segurança e na Competitividade do Setor Automotivo”, os participantes falaram, principalmente, sobre as mudanças provocadas pelos marketplaces, o uso de novas tecnologias e o passaporte digital de produtos.

José Arnaldo Laguna, presidente do Conarem e mediador do painel, destacou a expansão das compras on-line no mercado B2B. “O B2B já deixou de ser periférico em mercados maduros. A Roland Berger aponta que mais de 60% das oficinas já compram significativamente on-line. Isso traz preço, disponibilidade, conveniência e amplitude de oferta”, afirmou.

Para Alexandre Mol, presidente do Sindirepa Brasil, o comércio eletrônico melhorou a relação do reparador com a compra de peças. “É muito mais ágil e muito mais assertivo na questão do modelo. Em compensação, a gente precisa melhorar a cultura do reparador, porque não é qualquer e-commerce que vai atender às necessidades, principalmente as técnicas. Na internet tem de tudo, inclusive produtos de origem duvidosa e de qualidade questionável. Vale a experiência do reparador para saber qual marca pode comprar e de qual distribuidor”, comentou.

Passaporte Digital de Produtos

No painel dedicado ao aftermarket, os participantes falaram sobre as mudanças provocadas pelos marketplaces, o uso de novas tecnologias e o passaporte digital de produtos – Foto: Divulgação

O Passaporte Digital do Produto (PDP) é uma identidade digital vinculada ao produto, acessível por tecnologias como QR Code, NFC ou RFID, que pode armazenar informações verificáveis sobre a origem das matérias-primas, o impacto ambiental, a composição e as orientações para reparo ou reciclagem. Na União Europeia, sua implementação está prevista de forma gradual, conforme as categorias de produtos e as respectivas regulamentações.

Segundo Antônio Rebouças de França Filho, diretor da Divisão de Segurança de Produtos do DESEG-FIESP, “na Europa, uma série de produtos já entra em um processo de classificação de informações unitárias, personalizadas, e não por lote. No Brasil, nós usamos nanotecnologia para identificar produtos falsos e verdadeiros. É o caso, por exemplo, da identificação de cabos de energia para evitar o furto de energia. Em alguns estados do Brasil, 80% das faltas de energia foram reduzidas com o uso de nanotecnologia”, mencionou.

Ele também falou sobre a dimensão da ilegalidade no Brasil, estimada em R$ 514 bilhões em 2025, e destacou que o setor de autopeças está entre os dez mais prejudicados. Para o executivo, o passaporte digital pode contribuir para reverter esse cenário. “Nós conseguiremos neutralizar a atividade ilegal, que cresceu tanto mundialmente, chegando à casa dos trilhões de dólares, se a indústria legal se organizar e tiver essa transparência. O passaporte digital de produtos europeu é semelhante ao nosso. Cada produto tem que contar sua história, ter a certeza da veracidade e ser autêntico. No Brasil, o passaporte digital de produtos deve ser muito mais robusto. Deve garantir, por exemplo, de onde saiu o nosso ouro e aonde ele chegou, lá na Suíça. Isso passa por divisa, soberania e, principalmente, legalidade”, defendeu.

O presidente do IPEM-SP, Marco Heleno Guerson, comentou que os europeus estão enfrentando dificuldades relacionadas à identificação da origem dos produtos. “Eles estão trabalhando no primeiro projeto-piloto do passaporte digital. É um momento propício, e o grande desafio é trabalhar esses dados de forma inteligente para poder ter uma ação”, afirmou.

Para ele, no caso das plataformas digitais, os setores público e privado precisam trabalhar juntos em busca de soluções. “Se eu identificar 100 mil anúncios dentro de uma plataforma eletrônica, a estrutura de fiscalização entra em colapso. Ela não tem capacidade de processar 100 mil irregularidades ao mesmo tempo. Então, a lógica tem que ser diferente. Uma vigilância de mercado tem que ser baseada em tecnologia, e a resposta também. Os formuladores das políticas públicas e dos regulamentos têm que ter isso em mente: como trabalhar todo o processo para dar vazão a algo que, no mundo, é exponencial”, explicou.

Novo agente da cadeia

O Boston Consulting Group aponta que as plataformas digitais e a inteligência artificial reorganizam a cadeia de valor e a competição. Questionado por José Arnaldo Laguna sobre se estamos diante de um novo canal ou de uma reorganização estrutural da cadeia de valor, além de onde estão as oportunidades e os riscos dessa mudança e se ela cria eficiência ou reescreve a cadeia, Sergio Montagnoli, sócio e fundador da SM Consultoria, começou destacando o aumento da complexidade.

“Tem aumentado o número de veículos. Eu diria que hoje a gente deve ter cerca de 20 mil modelos circulando na frota. Hoje, um distribuidor médio tem 80 mil SKUs. Quando você vai para uma autopeça, ela acaba tendo mais, porque tem outros itens. Vamos falar de 100 mil SKUs. E, na oficina, você não sabe qual veículo vai entrar. Um fator que temos que levar em consideração, tanto na oficina independente quanto nas concessionárias, é a falta de mecânicos. Tenho um aumento de complexidade de um lado e falta de mão de obra especializada do outro”, expôs.

Na avaliação dele, uma das contribuições das plataformas tem sido o aumento da produtividade nas oficinas. “O tempo médio de busca de peça, eu arrisco dizer, é menos da metade do que era para achar a peça certa. Se você entrar nos grandes marketplaces, vai ver que os grandes operadores ainda são as autopeças tradicionais. Quando a gente pensa em distribuidor, boa parte já tem um B2B. Houve um novo agente: os marketplaces. Eles não chegaram a mudar a cadeia, mas são um novo agente nela”, explicou.

Alexandre Mol defendeu a educação digital e citou iniciativas voltadas à orientação dos consumidores. “Isso já está acontecendo. Nós temos uma parceria do IPEM com o IQA e já temos um produto, que é o guia de compras on-line. O pessoal tanto do IQA quanto do Sindipeças e outros atores participaram disso. E o IPEM está promovendo esse material em sua página e dando todo o suporte. A gente entende que começa a surgir a questão da educação, porque não é óbvio que a pessoa que está comprando saiba disso, que conheça essas questões”.

Indução ao erro

Sob o tema “Inovação e Excelência Operacional na Mobilidade: Cultura, Pessoas e Processos para Competitividade Sustentável”, a 12º edição do Fórum IQA da Qualidade Automotiva reuniu profissionais do setor automotivo – Foto: Divulgação

Para Antônio Rebouças de França Filho, José Arnaldo Laguna perguntou se a inteligência artificial pode industrializar o erro. O executivo respondeu que sim, sem sombra de dúvida. “Para evitar isso, é preciso transparência e rastreabilidade da informação unitária. Também é possível trabalhar com a informação voluntária. Antes, nós tínhamos um problema de como ativar dados. Hoje, não temos. Os dados são fluidos. O importante é que haja responsabilidade em cada etapa do processo, que tudo seja absolutamente transparente, esteja dentro das normas legais e atenda aos regulamentos exigidos. A fiscalização também precisa ser transparente, o que fará com que essa industrialização da informação errada seja rapidamente identificada. Antes, quando uma pessoa colocava uma informação errada no Google, não havia a concentração de dados e a triagem que existem hoje”, respondeu.

Modelo competitivo

Outra pergunta feita por José Arnaldo Laguna a Sergio Montagnoli foi onde termina a inteligência artificial que simplesmente reduz custos e onde começa aquela que muda o modelo competitivo, além de qual seria o maior risco de fazer essa transição tarde demais ou devagar demais.

O executivo comparou essa transformação à evolução do uso de planilhas e bancos de dados para melhorar a performance. “Todo o processo de digitalização melhora a performance. Tinha aquela planilha de Excel que mensurava 4 mil linhas e 300 e poucas colunas, e eu passei isso para um banco de dados. Então, temos sempre que lembrar que o banco de dados tem que estar limpo, saneado, porque, senão, você vai delegar lixo e vai sair lixo com todo esse processo de digitalização. É mais viável, melhora a performance em relação ao que eu fazia com a planilha de Excel ou com o banco de dados que tinha um analista. Você pode criar um agente que vai cruzar as informações do estoque do distribuidor e de alguns varejistas conectados, e outro para monitorar preços ou cliques na internet. Uma hora, esses agentes vão conversar entre si, e você vai descobrir que tem um negócio novo para entregar”, afirmou.

No Sindirepa Brasil, Alexandre Mol contou que, desde janeiro, a entidade está focada na melhoria do ambiente de negócios. “Isso passa por gestão, capacitação e certificação das empresas. Às vezes, o reparador fica muito imerso na própria atividade e se esquece do que está acontecendo no mundo”, disse.

Para Marco Heleno Guerson, a educação é fundamental para essa nova realidade, envolvendo toda a cadeia, da fabricação ao consumidor. Todos precisam entender esse cenário e saber como usar a inteligência artificial a seu favor. “É preciso pensar em como levar a informação adequada às pessoas. Não adianta mandar do mesmo jeito para todo mundo. Não é isso que vai funcionar”, alertou.

“A palavra é transparência para o consumidor naquilo que realmente interessa”, acrescentou Antônio Rebouças de França Filho.

Para finalizar o painel, José Arnaldo Laguna sintetizou os desafios do setor. “Eu acredito que nós vamos ter que treinar os diversos atores da cadeia para usar essas novas ferramentas. Nós vamos ter que nos adaptar, aprender, trabalhar e divulgar. É um desafio muito grande, e temos primeiro que preparar as instituições”, concluiu.

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