Para produzir as suas peças, Edismar Arruda conta com doações de oficinas mecânicas de Fortaleza (CE). A sua arte já extrapolou fronteiras
Por Karin Fuchs
Da pequena cidade de Jaguaribara, no interior do Ceará, e hoje morando na capital, Fortaleza, Edismar Arruda produz esculturas que encantam os olhos e surpreendem. São peças de todos os tamanhos, desde miniaturas até em tamanho real, como um elefante que pesa nada mais nada menos do que três toneladas. Para produzi-las, ele usa principalmente sucatas de peças automotivas, o que representa 90% do material utilizado, e são doadas pelas oficinas de Fortaleza, por uma iniciativa do Sistema Sincopeças, Assopeças e Assomotos (SSA-CE).

O seu portfólio tem mais de 300 peças e ele divulga o seu trabalho, principalmente pelas redes sociais. Só no Instagram, ele tem mais de 20 mil seguidores. Tudo começou quando ele era criança e os seus pais não tinham recursos para comprar brinquedos para os seus oito filhos, foi assim que ele começou a produzir os seus próprios brinquedos de madeira e lata.
“Eu faço arte desde criança e na cidade velha que morávamos, eu vendia geladinho nas ruas para poder comprar as coisas que eu queria. Eu gostava muito de vender nas oficinas, pois eu achava muito interessante ver as engrenagens, os parafusos e as porcas. Em uma dessas oficinas eu pedi emprego e me disseram que eles me dariam uma oportunidade quando se mudassem para a nova cidade”, recorda-se.
A cidade nova que ele se refere tem o mesmo nome da cidade antiga, Jaguaribara, que foi demolida para a construção da barragem do Açude Castanhão, e os moradores de lá foram transferidos. “Com a mudança, nós tivemos muitas perdas cultural e de modo de vida, antes, o pessoal mais velho vivia do meio rural e isso mudou”, lamenta.
Aprendizado em oficina mecânica
Da promessa na cidade antiga, Edismar bateu na porta da mesma oficina mecânica e conquistou o emprego de ajudante de mecânico. Lá, ele aprendeu a soldar. “Nas horas vagas, como eu já tinha facilidade de fazer peças em madeira, eu comecei a fazer miniaturas com pregos e parafuso. Eu fui me aperfeiçoando e consegui um emprego em uma firma como soldador, onde fiquei por sete anos, e depois eu montei o meu próprio negócio, uma metalúrgica, mas sem deixar de lado a minha arte”.
Certo dia, ele resolveu dar um presente para a sua esposa, uma miniatura da moto que ela tinha, uma Honda Pop 100. Sem ficar contente com o resultado, ele decidiu não a presentear. A obra ficou no seu local de trabalho e chamou a atenção de um cliente. “Ele me disse que era uma arte saber transformar coisas em obras de arte e que eu deveria pesquisar mais para me aperfeiçoar. Me encantei com o que eu vi na internet, eu sabia que eu tinha capacidade e comecei a melhorar e diversificar, até então, eu só fazia miniaturas”.

De feiras para o mundo
Por indicação de artesões, Edismar tirou a sua própria carteirinha na Central de Artesanato do Ceará (CeArt) e começou a participar de feiras de artesanato. O seu trabalho que ganhou notoriedade foi um jacaré de dois metros. “Um cliente quis comprá-lo e eu fiz um só para ele para não o tirar da feira. Ele também pediu para eu fazer um elefante, uma girafa e um leão, em tamanhos reais. Eu dizia que não tinha como fazer, a minha estrutura era pequena e ele me incentivou muito e eu consegui fazê-las”.
Logo, o seu trabalho conquistou as redes sociais e, no ano passado ele participou do Domingão do Huck – The Wall. Hoje ele mora com a família em Fortaleza. “Tudo mudou da água para o vinho e não caía a ficha do que estava acontecendo. Graças a Deus e às pessoas que me ajudaram, hoje eu vivo só da minha arte e fechei a minha metalúrgica”. Uma arte que extrapolou fronteiras, suas peças já foram adquiridas por clientes de várias outras regiões do País e até por um cliente que a levou para os Estados Unidos.
Inspiração e doações
Edismar conta que a sua principal fonte de inspiração é a natureza. “Eu gosto muito da natureza e dos animais”, valida, e de como consegue produzir esculturas tão grandes. “Um dia me perguntariam isso e eu respondi que me inspirava nos animais e nas aves, assim como um passarinho que constrói o ninho como o seu bico, fio a fio”. Um trabalho de muita dedicação.
Para as sucatas utilizadas em suas peças, ele teve uma grande ajuda, de um empresário que o apresentou para Ranieri Leitão, presidente do Sistema Sincopeças, Assopeças e Assomotos (SSA-CE). “Ele entrou em contato com as oficinas, que se sensibilizaram com a minha história e me fazem as doações. 90% do material que eu utilizo são de sucata automotiva”.
Um trabalho também em prol do meio ambiente. “Com certeza, a minha alegria de fazer esta arte é saber que a natureza, os mais jovens e as crianças vão agradecer futuramente”, afirma. E as doações são bem-vindas. Quem tiver interesse, basta entrar em contato com o artista pelo Instagram, @edismararruda, ou pelo telefone: (88) 99725-5584. Os dois contatos também valem para quem quiser adquirir as suas peças.
Exposição
Em celebração aos 50 anos do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico no Estado do Ceará (Simec/CE) até o dia 17 de março ficou em cartaz a exposição “Simec 50 anos” com esculturas de metal feitas por Edismar Arruda. Foram 24 obras expostas, entre elas, o trono de ferro de “Game of Thrones”, Kratos de “God of War”.