Os resultados do primeiro trimestre, ainda que pareçam bons, não refletem a realidade do mercado. Há um logo caminho para a recuperação do setor
Por Karin Fuchs
O cenário econômico ainda mostra muitos desafios para a recuperação das vendas de veículos novos no Brasil. A inflação, câmbio, juros, inadimplência e a oferta de crédito cara e desacelerada estão entre os fatores que impactam diretamente. O resultado está nos números do primeiro trimestre, que não refletem a realidade do mercado, conforme foi apresentado pelos executivos da Fenabrave, na última terça-feira, 3 de abril, em coletiva à imprensa.
Segundo Tereza Fernandes, consultora econômica da Fenabrave, a expectativa de crescimento para o PIB neste ano é de 0,9%, a inadimplência da pessoa física continuará elevada, a população está com menos condição de consumo, o desemprego começou a subir e continuará subindo, contribuindo para um menor crescimento do PIB.
Além do escândalo das Americanas que abalou o mercado de crédito, fundamental para as vendas de veículos no País. “Houve uma redução interna do crédito de 9,5%, em relação a janeiro. O mercado de crédito está desacelerando e o de veículos também. Em 2022, o crédito cresceu 13,7%. Para este ano, a expectativa é de um crescimento de 5%”, especificou.
Resultados – Incluindo todos os segmentos e motos, no acumulado do 1º trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2022, foram 878.872 unidades comercializadas, com um crescimento de 21%. No comparativo entre os meses, março/2022 e março/2023, a alta foi de 33,4%, somando 365.612 unidades. Especificamente autos, as vendas somaram 345.854 no acumulado, alta de 15,12% em relação ao 1º trimestre de 2022. Em março, o crescimento foi de 35,07%, ante março de 2022, com 146.174 unidades comercializadas.

Comparativo real – Excluindo o segmento de motocicletas, que segue em crescimento constante, o presidente, Andreta Jr., disse que para refletir a realidade do mercado, a comparação deve ser feita com o primeiro trimestre de 2019, e não com o de 2022, quando as fábricas estavam paradas e o setor amargou uma queda de 23% no volume de emplacamentos de autos, leves, caminhões e ônibus. No 1º trimestre deste ano, o crescimento foi de 16,3%.
“Nós temos que comparar com 2019, antes da pandemia, quando foram 608.000 unidades comercializadas no 1º trimestre, contra 472.000 emplacadas neste ano, ou seja, nós tivemos uma queda de 22,3%”. A expectativa é que haja uma recuperação, disse ele, “a montadora está com capacidade ociosa, o ticket médio para o concessionário caiu muito e nós esperamos que haja uma recuperação mais consistente, a partir de agora. O crescimento do 1º trimestre deste ano está mascarado pelo resultado do 1º trimestre de 2022”. Hoje, o estoque médio das montadoras e concessionárias é de 40 dias.
Pesados – Marcelo Franciulli, diretor Executivo, apresentou os números do segmento de pesados. Na comparação entre os trimestres de 2022 e 2023, caminhões acumularam uma alta de 2,62% nas vendas, com 27.446 unidades, e uma queda de 7,3% entre os meses de março de 2022 e 2023. “Cabe pontuar que tivemos um primeiro trimestre com os veículos Euro 5, havia bastante estoque, isso também refletiu um pouco na melhora dos números. O Euro 6 começa a ser vendido agora, mas já sentindo a questão dos preços”.
No segmento de ônibus, o crescimento foi de 74,42%, comparando os dois trimestres, chegando a 7.378 unidades neste ano. Entre os meses de março de 2022 e de 2023, alta de 68,6%, com 2.937 unidades. “É um número bastante expressivo, pois além de mais dias úteis neste ano, há o Caminho da Escola e a recuperação do rodoviário, que ganhou força de um ano para cá em função dos altos custos das passagens aéreas”, analisou Franciulli.
Tereza Fernandes, consultora econômica da Fenabrave, alertou que neste ano poderá haver problema com a oferta de ônibus e explicou o porquê. “Existe uma preocupação no segmento, pois os ônibus também estão saindo do Euro 5 para o Euro 6. Aparentemente está havendo uma dificuldade na produção, na motorização do Euro 6. Mesmo com a demanda ainda bastante agressiva, ao longo do ano podemos ter algum problema com a oferta”.
Motocicletas – Nas palavras de Franciulli, “este segmento está blindado da retração do mercado”. E os números mostram. No acumulado do ano foram 357.062 unidades vendidas, alta de 29,97% em relação ao 1º trimestre de 2022. Na comparação entre os meses de março de 2022 e 2023, o crescimento foi de 32,6% ou 145.945 unidades. Entre os fatores que explicam este crescimento, o executivo citou, em primeiro lugar, o delivery, seguido pelas substituições em função do custo de combustível e do preço do veículo.
O que deve vir pela frente – Para este ano, a Fenabrave projeta um crescimento de 3,3% nas vendas, sendo que os segmentos de autos, comerciais leves e caminhões deverão ficar estagnados, o crescimento previsto para ônibus é de 5%, de 9% para motocicletas e a queda prevista para implementos rodoviários é de 10%. Um cenário que poderá ser revisto para a próxima coletiva da Fenabrave, no mês de julho.
Segundo Andreta Jr., “ainda está muito nebuloso o que deve acontecer pela frente. Temos notícias de que o Governo está se movimentando, alguns planos estão em análise e deverá ocorrer um aquecimento para o setor e para toda a economia do País. Espero que isso aconteça em breve. Isso acontecendo, acredito que em julho poderemos dar um panorama mais claro. Nós estamos mantendo a base baixa, porém, tudo vai depender da atitude do Governo. Esperamos que isso ocorra o mais rápido possível e que a gente retorne, talvez, aos níveis de 2019, ou voltarmos um dia a termos a capacidade de produção de 2012, 2013, que foi o pico do setor”.