O setor precisa de medidas urgentes para a retomada e os juros altos têm sido a principal razão para a queda das vendas. Confira os resultados e os movimentos do segmento
Por Karin Fuchs
A Anfavea registrou o pior desempenho de produção para um primeiro trimestre, desde 2004, incluindo todas as categorias (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus). Ainda que todos os segmentos tenham tido um crescimento de 37,3%, em março em relação a fevereiro, totalizando 221,8 mil unidades, e no comparativo anual entre os trimestres de 2022 e 2023, a alta tenha sido de 8%, totalizando 536 mil unidades, a base de comparação é fraca.
O primeiro trimestre deste ano também foi marcado pela paralisação de oito fábricas e dois cancelamentos de turnos. Para a retomada, a questão de juros altos, melhores condições de crédito e linhas de financiamentos são fundamentais, e o setor tem trabalhado muito na interlocução com o Governo para desenvolver alternativas, conforme apresentado por Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea, em coletiva à imprensa na manhã de 10 de abril.
“Nós repetimos neste ano o pior trimestre desde 2004. Os dois turnos que deixaram de existir talvez tenha um efeito ainda pior do que uma simples paralisação de fábrica. Lembrando que no ano passado, as paralisações foram muito marcadas pela falta de semicondutores, agora, a gente adiciona a isso principalmente a questão de demanda. É um mercado que tem um problema de aquecimento e que precisa voltar a patamares que sejam sustentáveis. A suspensão de dois turnos tem um impacto mais duradouro, porque não é momentâneo”, afirmou.
Pesados
No segmento de pesados, a queda de produção se justificou pela entrada da nova tecnologia, o Proconve P8. No comparativo entre os trimestres de 2022 e 2023, a queda para caminhões foi de 28,8%, somando 24,5 mil unidades e ônibus teve uma retração de 29,6%, com 4 mil unidades, até mais baixo do que as 6 mil unidades produzidas em 2020.
“A retração tem relação direta com a produção com a nova tecnologia Proconve P8, a partir de 1º de janeiro deste ano, apesar da evolução na comparação entre fevereiro e março, e com janeiro, mês de férias coletivas nas principais montadoras. A mesma situação é para a produção de ônibus, que também entrou na nova fase Proconve P8. As montadoras de pesados também estão dando férias coletivas, ou fazendo eliminação, ou redução de turnos”, disse Gustavo Bonini, vice-presidente da Anfavea.
“Após a entrada em vigor do P8, os custos dos caminhões tiveram um aumento significativo e hoje as fábricas estão praticamente com uma produção muito abaixo do normal, em torno de 7% do que foi comercializado neste ano foi produzido no próprio ano, mais de 93% foram produzidos em 2022. Isso tem um impacto muito grande não apenas para o primeiro trimestre, mas também para os próximos meses do ano”, avaliou Leite.
Emplacamentos
No primeiro trimestre foram 472 mil unidades emplacadas, incluindo todas as categorias (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus), alta de 16,3% em relação ao mesmo período de 2022. No comparativo mensal, entre março e o mês anterior, o setor computou 199 mil unidades vendidas, alta de 53,1%. Leite também destacou que a base de comparação é fraca, já que no mesmo período do ano passado o setor enfrentava a falta de semicondutores.
Chama a atenção as vendas para as locadoras, com um acréscimo de 93% no mês de março, representando 40% do total de crescimento do mercado. Outra questão colocada pelo executivo foi o aumento das importações. No volume de emplacamentos no primeiro trimestre, os importados participaram com 13,8% do total, ante 8,2% no mesmo período de 2021. E as vendas de produtos extrazona, que não são nem do Mercosul e nem do México, tiveram um crescimento de 50% comparando os dois períodos.
Na análise de Leite, “a falta de previsibilidade e de uma regra clara em relação às importações têm levado esse mercado a um crescimento, enquanto o cenário é de estabilidade do nosso mercado. Isso tem levado a algumas reflexões, nós temos apresentado essas situações para o Governo”.
Movimentos
Logo no início da coletiva, Leite comentou alguns temas e ações que estão em voga, entre eles:
Carro verde de entrada – “Esse assunto surgiu na mídia e vem sendo discutido, mas ele não é uma demanda que afeta a Anfavea como entidade diretamente, pois algumas montadoras têm discutido com o Governo a utilização de veículo de entrada para reaquecer o mercado e fazer a renovação da frota. O carro de entrada, de baixo custo, impacta principalmente alguns fabricantes que atuam neste mercado”.
Juros, melhoria do crédito e linhas de financiamentos – “O Banco Central tem mostrado porquê os juros estão nos patamares atuais, isso sem dúvida é muito importante para todos nós, para entendermos como é a dinâmica. Nós falamos para o presidente do Banco Central que o nosso setor está com fábricas paradas e que os números de 2023, comparados com o trimestre de 2022, são incomparáveis. 2022 foi o pior trimestre desde 2004 e o trimestre de 2023 é muito próximo ao de 2022”.
O que segundo ele é alarmante e tem feito com que esse debate seja muito transparente, reunindo força. “Temos 1,2 milhão de empregos e famílias que dependem deste mercado e dos nossos investimentos. Juros têm sido a principal razão para a queda deste mercado. Se não tivermos condições melhores, respeitando os trabalhos que têm sido feitos, esse mercado não conseguirá reagir e igualmente, condições de crédito e linhas de financiamentos”.
Eletrificação e novas tecnologias – “O Brasil tem apresentado um crescimento importantíssimo em relação às novas tecnologias. O mês de março foi marcado por um crescimento muito importante (vendas), apesar dos números ainda não serem tão significativos. Mas, o crescimento das novas tecnologias e eletrificação no nosso País é algo que merece ser ressaltado e para isso, nós precisamos de infraestrutura, o que não é algo imediato, mas se constrói com planejamento para termos o crescimento deste setor. A Anfavea tem se incumbido muito de conversar com os entes privados e públicos, trabalhando a questão da infraestrutura para a eletrificação e igualmente para as novas tecnologias”.
Rota 2030 fase 2 – “É o programa mais importante que temos conversado com o Governo, ele se baseia em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Hoje, nós colhemos os frutos de P&D que foram realizados. O Rota 2030 colocou o Brasil como um dos países que mais investem em P&D. 36% dos investimentos nesta área vêm do setor automotivo”.
Renovação da frota de leves – “O envelhecimento da frota não tem em seu DNA a descarbonização e itens de segurança. Se não mexermos na frota antiga, estaremos com um veículo que emite 20 vezes mais (poluentes) do que um veículo novo. É um tema que temos enfrentado muito com o Governo”.





