Produção de carros puramente elétricos não é viável nos prazos legislativos

É o que mostra uma pesquisa global encomendada pela ABB Robótica e pela Automotive Manufacturing Solutions. “É difícil definir um prazo ideal diante dos desafios apontados pelos próprios entrevistados, além do fato de o ritmo de adoção de veículos elétricos ser diferente em cada região”, diz Rodrigo Bueno, diretor da área de Robótica da ABB Brasil

Por Karin Fuchs

Segundo a pesquisa global encomendada pela ABB Robótica e pela publicação do setor automotivo, Automotive Manufacturing Solutions, mais da metade (59%) das empresas acreditam que a mudança para a produção de veículos puramente elétricos não é viável dentro dos prazos legislativos atuais. Ao todo, 590 entrevistados examinaram as tendências atuais na produção automotiva, 49% eram da Europa, 22% da Ásia-Pacífico, 21% da América do Norte, 5% da América Central e do Sul e 3% do Oriente Médio e África.

Os entrevistados destacaram os desafios de adaptação a uma nova cadeia de suprimento de baterias, citada como uma barreira importante por 19% dos entrevistados, enquanto 16% estavam preocupados com os altos níveis de investimento de capital necessários. A falta de infraestrutura de carregamento foi citada como a maior restrição à adoção de veículos elétricos por mais de um quarto (26%) dos entrevistados, enquanto 17% destacaram os altos preços dos veículos como a principal barreira ao crescimento dos veículos elétricos.

Nesta entrevista, Rodrigo Bueno, diretor da área de Robótica da ABB Brasil, comenta os desafios, as transformações que serão necessárias, o avanço das regiões globais e como o Brasil se insere neste cenário.

Rodrigo Bueno, diretor da área de Robótica da ABB Brasil

Balcão Automotivo – Pela pesquisa, a grande maioria afirmou que não é viável a produção de veículos puramente elétricos nos prazos legislativos atuais. Qual seria o prazo “ideal”?

Rodrigo Bueno – A pesquisa mostra que apenas 11% acreditam que todas as metas regionais para a adoção de VEs até 2030-2040 são realistas. É difícil definir um prazo ideal diante dos desafios apontados pelos próprios entrevistados, além do fato de o ritmo de adoção de veículos elétricos ser diferente em cada região. Entre os desafios destacados na pesquisa estão: adaptação a uma nova cadeia de suprimento de baterias, preocupações com os altos níveis de investimento de capital necessários, escassez de matérias-primas, infraestrutura adequada e falta de capacidade de rede.

BA – E como seria a transição para a indústria automobilística?

RB – Para a indústria do setor automobilístico, na prática, a transição para veículos elétricos significa que a produção global será caracterizada cada vez mais por uma mistura fragmentada de carros a combustão com os veículos elétricos. Trata-se de um desafio complexo que requer inovação e adaptação em várias frentes para alcançar uma produção mais sustentável e eficiente. E é nesse sentido que a automação robótica vem ganhando um papel fundamental na transição da indústria para a fabricação de veículos elétricos, levando agilidade e, principalmente, flexibilidade à cadeia produtiva.  

BA – Existe uma previsão de quando produção de veículos eletrificados, ultrapassará os motores a combustão pura globalmente?

RB – O Flexing for the Future, um Relatório de Previsão Global 2035 sobre Powertrain patrocinado pela ABB Robótica e criado pela unidade de inteligência automotiva da Ultima Media, apontou que apenas em 2031, a produção de veículos eletrificados, incluindo versões híbridas, ultrapassará os motores a combustão pura globalmente. Segundo o documento, divulgado em 2021, o quadro será ainda mais complexo em 2035, quando embora a produção de veículos elétricos predomine, os motores a combustão pura ainda representarão mais de 20% do mercado global. Além de um mix de veículos plug-in e híbridos, haverá também a ascensão de novas tecnologias, como veículos elétricos de célula de combustível de hidrogênio.

BA – Esta mudança de produção seria pontual em cada país/região?

RB – Os fabricantes vêm desenvolvendo plataformas e projetando instalações que lhes permitem fabricar uma combinação complexa de gasolina, diesel e combustíveis alternativos, variações híbridas, baterias elétricas em crescimento, bem como tecnologias emergentes, como a célula de combustível de hidrogênio. Até 2035, segundo projeções do relatório, haverá diferenças entre regiões na proporção destas variações na produção e vendas de veículos, em alguns casos, drasticamente.

Embora a Europa e a Ásia, especialmente a Europa Ocidental e a China, tenham provavelmente os níveis mais elevados de vendas e produção de veículos elétricos, os da América do Norte ficarão um pouco atrás, enquanto a América do Sul e a África estarão muito abaixo da média global.

BA – Quais são as grandes mudanças na cadeia global de fornecimento para a produção dos veículos elétricos?

RB – A transição para veículos elétricos exigirá uma profunda transformação de processos e ferramentas nas linhas de produção de fabricantes de automóveis e de fornecedores, além da infraestrutura de logística. Para manter a lucratividade e qualidade, será preciso maior flexibilidade e colaboração em toda a cadeia. Nesse contexto, automação, digitalização e conectividade ganham mais uma vez protagonismo no setor automotivo, que, vale lembrar, é pioneiro na adoção da robótica.

BA – Complementando a pergunta anterior, quais são as principais transformações que ocorrerão?

RB – O aumento da flexibilidade virá com os avanços na adoção de robôs colaborativos, robôs móveis autônomos (AMRs) e sistemas digitais, que permitem, por exemplo, montagens personalizadas e mudanças rápidas de produção. Também será fundamental nesse sentido a mudança para uma logística e manuseio de materiais nas fábricas mais autônomos. E tudo isso pode ser melhorado por meio da conectividade local mais rápida, incluindo o uso de redes 5G.

Outra transformação importante será a transição para células modulares e individuais de produção capazes de suportar uma maior variação de produtos e oferta em comparação com a montagem linear. Isso dará aos fabricantes a possibilidade de modificar ou até mesmo substituir células individuais sem a necessidade de interrupções de produção. Assim, é possível iniciar processos em pequena escala e aumentar o ritmo de produção, adicionando ou reimplantando células de acordo com as mudanças de demanda.

O uso de big data para planejamento preditivo ajudará os fabricantes a otimizarem layouts de produção por meio de simulações de gêmeos digitais, ao garantir que eles possam antecipar e reagir às mudanças.

BA – Como a ABB Robótica está inserida nesse processo como um player global na transição para a eletrificação?

RB – A ABB Robótica não apenas oferece uma variedade de robôs industriais, mas também fornece globalmente produtos para diversos estágios da produção industrial automotiva. Isso inclui powertrain e montagem de baterias, carroceria sem pintura, pintura e vedação de veículos elétricos.

Entre os produtos da cadeia de produção industrial automotiva tem os cobots integrados a softwares que, integrando tecnologias de Internet das Coisas (IoT), oferecem supervisão com classificação de segurança do movimento do robô, permitindo células de automação mais enxutas e colaboração mais próxima; expertise em integração para processos complexos, incluindo enrolamento de motores, balanceamento e testes.

Além disso, a ABB é líder global em soluções de carregamento de veículos elétricos (EV), por meio da ABB E-Mobility, que já superou a marca de 1 milhão de carregadores instalados no mundo. 

BA – E o Brasil, como ele se insere neste cenário?

RB – A transição será marcada justamente por um mix que inclui veículos plug-in e híbridos, além da ascensão de novas tecnologias, como veículos elétricos de célula de combustível de hidrogênio. Em relação aos investimentos em automação para a produção de veículos elétricos, a ABB, por exemplo, é uma das fornecedoras de soluções robóticas para a fábrica da BYD em Camaçari (BA).

Além disso, a ABB fechou parceria com a Bravo Motor Company, empresa com sede na Califórnia (EUA) que oferece inovação aplicada em descarbonização para a produção de baterias, veículos e sistemas de armazenamento de energia, para fornecer soluções inovadoras para o setor de eletromobilidade no mercado brasileiro. Um grande projeto que contará com a participação das divisões de Robótica e Eletrificação no Brasil da multinacional suíço-sueca é a construção da primeira fábrica no Brasil da Bravo Motor, chamada Colossus Cluster, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

BA – Também no Brasil, quais são os principais desafios para a transição para a eletrificação?

RB – O maior problema hoje é a cadeia. É preciso trabalhar desde as linhas novas para fazer os novos carros, uma vez que a maioria delas não é adaptável aos modelos elétricos. O Brasil não possui ainda linhas para produção de motores, que terão que ser completamente novas. Além disso, as baterias são um desafio para produção local. Outro desafio é a expansão da infraestrutura de recarga para carros elétricos para permitir viagens longas. Essa falta de infraestrutura de recarga acaba limitando o uso do veículo elétrico a grandes cidades.

Compartilhe