Brasileiro cria um carro 100% elétrico em parceria com a marca Lecar

A equipe de engenharia desenvolveu um automóvel 100% elétrico com design, envolvimento e energia totalmente projetado por brasileiros. O Lecar Model 459 deve ser lançado em dezembro deste ano

Por Karin Fuchs

Empresário do setor financeiro, Flávio Figueiredo Assis, vendeu a sua empresa, a Lecard, e criou a sua própria montadora de carros elétricos, a Lecar, em 2022, com planta industrial em Caxias do Sul (RS). O primeiro passo foi formar um time de engenharia automobilística altamente qualificado e experiente. Hoje, a equipe conta com 30 profissionais, muitos deles, vindos de grandes montadoras. “Dois anos atrás, a Ford e a Mercedes-Benz fecharam suas fábricas no Brasil e pensei em buscar esses profissionais. A primeira reunião com os engenheiros da Ford/Troller, em Fortaleza, foi em março de 2022. Uma equipe perfeita para desenvolver um carro do zero”, disse Assis.  

Interior do Lecar Model 459

Natural de Guaçuí, no interior do Espírito Santo, a empreitada foi com capital próprio, e o protótipo do primeiro veículo da marca, o Lecar Model 459, será homologado em Londres. “O maior desafio dessa missão é a burocracia. São 98 homologações previstas em Lei. As mais complexas são as de impacto. Iremos enviar três carros para testes em Londres, na Inglaterra, e nunca mais os veremos. Após estes testes que praticamente inutilizam os carros, eles ficarão em um depósito por cinco anos, à disposição das autoridades. Por isso, minha formação e habilidades são tão úteis ao projeto. Direito e Contabilidade têm mais a ver com carros que eu poderia imaginar”, comentou Assis.

A previsão é que o Lecar Model 459 entre em linha de produção ainda neste ano e que que seja comercializado também até o final deste ano, a um custo de R$ 279 mil e autonomia de 400 km por carga. Na fase de projeto e homologação serão investidos R$ 80 milhões. Na segunda fase, R$ 600 milhões em obras civis, ferramental, moldes, montagem, integração, automação e robotização da linha de produção. Na terceira, que será a produção de 300 carros mês, serão destinados R$ 400 milhões.

Peças

Cerca de 35% das peças do Lecar Model 459 serão importadas da China. Motores e baterias virão do fabricante chinês Wiston, que fornece também para a Volkswagen e Hyundai. O restante será produzido no Brasil. E os contratos fechados com vários fornecedores preveem a transferência de tecnologia e cooperação técnica, científica e operacional, o que viabiliza uma fábrica de células de bateria e motores elétricos no Brasil, permitindo a autossuficiência na produção de carros elétricos.

Segundo Assis, “temos em nosso País, 97% dos minerais que compõe as células de baterias. Além de sermos autossuficientes, podemos ainda nos tornarmos protagonistas e uma grande referência no mercado global de veículos elétricos, fornecendo automóveis para outros países. Nossos carros vão interessar a quem cuida do meio ambiente também em outros países”.

Também está no radar a criação do Lecar POP, uma versão popular e com o uso de baterias e motores elétricos produzidos no Brasil que, com os mesmos incentivos fiscais aos elétricos existentes em diversos países, teria o custo estimado de R$ 100 mil e autonomia de 200 km por carga.

Produção

O grande diferencial da Lecar, de acordo com Assis, é desenvolver um produto totalmente pensado para o País. “Tenho um Tesla e, definitivamente, ele não foi estruturado para rodar pelas ruas e estradas brasileiras. Ele sofre a cada buraco. Nosso projeto é de um carro feito para os desafios das estradas do Brasil, com tecnologia de ponta, resistência, prazer na direção e alinhado à necessidade de redução de emissões de CO2, que foi o grande motivador para embarcarmos nesse projeto”, explicou.

No primeiro ano, a estimativa é produzir 300 veículos por mês, gerando 600 empregos diretos e R$ 1 bilhão de faturamento. O foco das vendas será a Grande São Paulo, especialmente entre a capital, Campinas e São José dos Campos, onde a empresa deve investir em uma rede de infraestrutura para recarregamento de bateria. Posteriormente, o foco é a expansão para todo o território nacional e a internacionalização, especialmente para Estados Unidos, França, Itália e Mônaco. “Já estamos alinhando uma série de parcerias nesses países para levar nossa marca para o mundo”, declarou.

Em cinco anos, a Lecar pretende produzir 50 mil carros por ano, gerar 6 mil empregos diretos e R$ 13 bilhões de faturamento anual. A empresa pretende, ainda, criar um plano de assinaturas. “As pessoas não precisam ter um carro, o que elas precisam é de mobilidade”, afirmou Assis. A assinatura base para o plano de locação de 36 meses será oferecida por aproximadamente 3% do valor de venda para uma quilometragem mensal de 1 mil km.

Também está previsto, já para 2025, a criação de uma rede de carregamento próprio ao longo de toda BR 101, com carregadores rápidos disponíveis a cada 150 km da rodovia. Até 2030, a empresa espera oferecer cobertura total nas principais rodovias do Brasil.

Incentivos fiscais

O modelo de estreia da Lecar, o Lecar Model 459, tem uma carga tributária de 43% e o empresário defende os incentivos fiscais. “Se tivermos no Brasil os mesmos incentivos fiscais que existem nos Estados Unidos e China para produção de carros, iremos competir com vantagens financeiras, pois os importados elétricos começaram a ser tributados recentemente por aqui. A carga tributária para automóveis chega a 43% no Brasil e, com tratamento fiscal diferenciado, teremos nosso carro com um preço que caiba no bolso do brasileiro”, argumentou.

Abertura de capital

Para o próximo ano, está prevista a abertura de capital. “Pretendemos captar R$ 5 bilhões na bolsa para produzir 50 mil carros em cinco anos, com receita estimada em R$ 14 bilhões. Sem investimentos, iremos produzir 18 mil carros em 5 anos. Além disso, com o IPO, vamos ampliar os investimentos em pesquisas e desenvolvimento de novas tecnologias a fim de internalizar a produção de células de baterias e motores elétricos”, finalizou.

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