Frota nacional de veículos monocromáticas prevalece no Brasil

No entanto, o País não é cromaticamente homogêneo, o mosaico municipal foi uma das surpresas do estudo Panorama Veloe de Indicadores de Mobilidade

Por: Karin Fuch

Nas ruas das cidades do País é possível observar que cores monocromáticas predominam na frota nacional de veículos. Tanto que um estudo inédito sobre esse tema, Panorama Veloe de Indicadores de Mobilidade, realizado pela Fipe em parceria com a Veloe, a partir de dados do Senatran, confirma essa tendência. Com base em dados de janeiro deste ano, 67,8% da frota estava registrada com cores mais neutras ou “monocromáticas”: branca (21,7%), preta (18,9%), prata (16,5%) e cinza (10,6%). Em nenhum Estado analisado a participação de cores neutras ficou abaixo de 60%.

Tons mais vibrantes ou “coloridos” totalizavam 32,0% da frota, principalmente, vermelho (15,5%) e o azul (7,6%), seguidos por verde (3,6%), bege (1,9%), amarela (1,3%) e marrom (0,7%). Com menos de 1% do total, encontram-se veículos com cores laranja (0,4%), dourada (0,3%), roxa (0,3%), rosa (0,1%) e fantasia (0,1%). Fantasia é qualquer cor que não seja considerada padrão pelo Detran, como as cores customizadas, gradientes, fosco, metálico, entre outros.

Nesta entrevista, Bruno Oliva, economista e pesquisador da Fipe, comenta o estudo. Confira!

Balcão Automotivo – Para o estudo, vocês fizeram alguma análise com a frota antiga, como por exemplo, dos anos de 1960/1970 quando havia uma grande quantidade de carros com cores coloridas?

Bruno Oliva – O nosso recorte estatístico parte do cadastro da frota ativa do Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito), portanto, não inclui medições diretas sobre o Brasil dos anos 1960/1970. Contudo, estudos internacionais sobre pintura automotiva mostram que, naquela época, havia muito mais carros em tons intensos; dos “high-impact colors” dos chamados “muscle-cars” americanos até os pastéis psicodélicos inspirados pela contracultura e pela corrida espacial. Faltam séries históricas oficiais para a frota brasileira, mas as fotos de época e revistas automotivas nacionais reproduzem a mesma estética: laranjas, verdes e amarelos eram comuns em modelos como VW Brasília, Dodge Dart e Chevette.

Bruno Oliva, economista e pesquisador da Fipe – Foto: Divulgação

BA – Podemos afirmar que há 50 ou 60 anos a preferência do consumidor era por veículos com cores coloridas?

BO – Embora não tenhamos percentuais tão precisos quanto os atuais, as evidências mostram que, nos anos 1960 e 1970, o consumidor buscava cores “de personalidade”, em sintonia com as tendências da moda, das artes e dos hábitos de consumo do período. A novidade tecnológica das tintas metálicas e perolizadas, aliada ao marketing agressivo das montadoras, provavelmente, estimulava o uso de matizes chamativos. Em outras palavras, era socialmente aceitável e até desejável, de certa forma, comprar um carro verde-limão ou roxo (“quanto mais visível, melhor”).

BA – A menor oferta de carros com cores diversificadas pode ser atribuída também à otimização da linha de produção das montadoras?

BO – A padronização cromática de hoje também pode ser lida como um fenômeno de oferta, ou seja, como um subproduto da eficiência fabril. Cada nova cor exige troca de tintas, limpeza de cabines e lotes menores, o que encarece a linha de pintura. Montadoras globais, pressionadas por just-in-time, eletrificação e metas ESG, racionalizam portfólios: concentram-se em seis ou sete tons principais e deixam cores especiais para séries limitadas, uma estratégia que reduz SKUs, simplifica estoque de peças de reposição e, ao mesmo tempo, atende ao gosto conservador de grande parte dos compradores de seminovos.

BA – Veículos com cores mais neutras ou monocromáticas também é uma tendência global?

BO – A preferência brasileira por branco, preto, prata e cinza replica um padrão mundial. Segundo o Relatório de Cores para Tintas OEM Automotivas da BASF Coatings de 2024, os “achromatic colors” ainda respondem por cerca de 80 % dos veículos produzidos na América do Sul e mais de 70 % nos demais continentes, com o branco permanecendo líder, seguido por tons de cinza e preto. Ou seja, a paleta sóbria não é exclusividade local; ela reflete fatores globais de revenda, seguridade e identidade do que se entende como segmento premium.

BA – Finalizando o que lhe chamou mais a atenção ou lhe surpreendeu no resultado do estudo?

BO – Um dos pontos que mais nos chamou atenção foi o contraste extremo entre realidades e culturas no país: pequenos municípios nordestinos. como Graça (CE) e Cacimbas (PB), exibem mais de 59% da frota em cores vibrantes (principalmente vermelho), enquanto polos urbanos do Sudeste, caso de Belo Horizonte (MG), superam 80% de tons neutros. Ver 40 pontos percentuais de diferença dentro do mesmo País evidencia como cultura local, clima, renda e até padronizações de táxi ou frotas oficiais criam “ilhas cromáticas” muito distintas. Para quem esperava um Brasil cromaticamente homogêneo, o mosaico municipal foi, sem dúvida, a maior surpresa.

BOX

Predominância por região

– A maior proporção de veículos em tons neutros ou monocromáticos (branco, cinza, prata ou preto) está no Distrito Federal, liderando com 73,2%, seguido por Espírito Santo e São Paulo (ambos com 70,8%), Mato Grosso do Sul (70,5%) e Santa Catarina (70,4%).

– No Sul e Sudeste prevalecem veículos brancos, enquanto na média nacional essa cor representa 21,7% da frota. A cor preta apresenta percentuais superiores a 20% em diversos estados. A diferença entre prata (16,5%) e cinza (10,6%) na frota nacional mostra como alguns consumidores preferem a tonalidade metálica à fosca.

– Maranhão, com 39,7% de veículos, Piauí (39,5%), Ceará (39,1%), Acre (38,3%) e Amazonas (38,1%), dão os estados onde a paleta frota é mais colorida e vibrante.– Os 10 municípios com as frotas mais coloridas/vibrantes (vermelho, azul, verde, etc.) são Graça (CE) e Cacimbas (PB), ambas com 59,2% de automóveis coloridos, seguidas por Brejo dos Santos (PB) com 57,8%, Santa Terezinha (PE) e Sucupira do Norte (MA), ambas com 57,7%, Pacujá (CE) com 57,4%, Santana do Piauí (PI) com 57,0%, Itapetim (PE) e Mãe d’Água (PB), ambas com 56,9%, e Brejinho (PE), com 56,6%.

– Os 10 municípios com as frotas mais neutras/monocromáticas são: Belo Horizonte (MG), 81,2% nessa paleta, seguido por Paraíso das Águas (MT) com 78,3%, Americana (SP) e Vitória (ES), ambas com 78,1%, Nova Independência (SP) e Sapezal (MT), ambas com 77,8%, Jaci (SP) e Bady Bassitt (SP), cada uma com 77,1%, Pirangi (SP) com 76,9% e Paulínia (SP), com 76,8%.

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