O setor pode ser bastante atrativo para os jovens, para isso, o varejo de autopeças precisa mudar o seu posicionamento
varejo de autopeças enfrenta uma realidade: o envelhecimento da equipe e falta de atratividade para os jovens. Eliel Matos, fundador da Peça Certa e especialista em Recrutamento e Seleção no Aftermarket Automotivo, explica que essa transformação passa por dois pilares importantes. “A valorização da experiência de quem já está no setor e a criação de um ambiente empresarial mais atrativo para quem está chegando”, sintetizou
Segundo ele, o mercado de reposição automotiva tem profissionais extremamente experientes, muitos deles formados na prática, no balcão, no relacionamento com oficinas, aplicadores e consumidores, um conhecimento que não pode ser perdido. “Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que os jovens buscam ambientes com mais clareza de crescimento, tecnologia, desenvolvimento e propósito”, acrescentou.
Para poder aproximar gerações diferentes dentro da mesma empresa, “a dica dele é que a loja de autopeças desenvolva um plano de carreira, política de cargos e salários, programas de mentoria, treinamentos de desenvolvimento profissional, trilhas de aprendizagem e processos bem estruturados”.
“A reposição precisa deixar de depender apenas da contratação de profissionais prontos, porque esse profissional está cada vez mais escasso. As empresas de maior crescimento no setor aprenderam a criar ambientes de alta performance e que promovem engajamento e troca de aprendizados contínuos entre as diversas gerações presentes em suas equipes”, descreveu.
Atratividade
Matos relatou que a Geração Z olha para o mercado de trabalho com outros critérios. “Não é apenas salário, embora remuneração continue sendo importante. Eles também avaliam ambiente, tecnologia, possibilidade de crescimento, qualidade da liderança, aprendizado e identificação com a empresa. Muitos jovens ainda enxergam o setor de autopeças como um mercado tradicional, muito operacional e pouco inovador”, especificou.
Porém, disse ele, “essa imagem nem sempre corresponde à realidade. Hoje, o setor envolve catálogo eletrônico, plataformas digitais, inteligência comercial e e-commerce. Também exige integração de sistemas, logística, CRM e análise de dados. O problema é que o setor nem sempre comunica bem essa evolução. Muitas empresas são modernas na operação, mas continuam se apresentando ao mercado de trabalho de forma antiga”, ponderou.
Também pesa muito a falta de plano de carreira. “Quando o jovem não enxerga onde pode chegar, ele tende a procurar outros segmentos que comuniquem melhor as oportunidades de crescimento”, sintetizou.
Novo posicionamento
Para Matos, o setor precisa reposicionar a função do balconista. “O balconista de hoje não é apenas alguém que consulta uma peça e atende um cliente no balcão. Ele é um consultor técnicocomercial, que precisa entender o processo de vendas em sua integralidade e isso envolve conhecer bem os produtos e marcas, saber o momento certo de oferecer uma solução complementar, utilizar sistemas e plataformas digitais que gerem velocidade de resposta e ainda desenvolver relacionamento com os clientes”, afirmou
Atrair uma geração mais conectada requer das empresas mostrar que existe tecnologia dentro da reposição automotiva. “O jovem precisa perceber que ele poderá trabalhar com ferramentas digitais, catálogos eletrônicos, sistemas de gestão, plataformas de venda, WhatsApp comercial, e-commerce e dados de atendimento”, pontuou.
Além disso, é preciso modernizar a comunicação das vagas. “Muitos anúncios ainda são frios, genéricos e pouco atrativos. A empresa precisa apresentar melhor sua cultura, seus desafios, suas oportunidades de crescimento e o impacto real daquela função no negócio. A nova geração não quer apenas “ocupar uma vaga”, ela quer entender o sentido daquele trabalho e como poderá evoluir dentro dele”, explicou.
Formação
Para a capacitação de jovens talentos, algumas empresas de autopeças adotaram processos dentro de casa. Na avaliação de Matos, “este é um excelente caminho. No entanto, o risco de perder esse colaborador quando ele estiver mais preparado para o mercado é grande se não houver um plano de carreira bem definido que contribua no processo de retenção”, alertou.
Segundo ele, empresas que desenvolvem pessoas dentro de casa ganham vantagem competitiva. “Elas conseguem formar profissionais alinhados à sua cultura, ao seu padrão de atendimento, aos seus processos e à sua forma de vender. Mas para isso funcionar, não basta colocar o jovem ao lado de alguém Eliel Matos, fundador da Peça Certa e especialista em Recrutamento e Seleção no Aftermarket Automotivo SUPLEMENTO ESPECIAL 38 | BALCÃO AUTOMOTIVO experiente e esperar que ele aprenda sozinho. É preciso método”, ressaltou.
A dica dele é ter trilha de capacitação, rotina de acompanhamento, avaliação de desempenho, feedbacks constantes e líderes preparados para ensinar. “Formar talentos exige tempo, mas custa menos do que viver apagando incêndio por falta de gente qualificada”, afirmou.
E também não buscar apenas o candidato que já sabe tudo. “Muitas vezes, o jovem certo ainda não tem conhecimento técnico, mas tem atitude, raciocínio, vontade de aprender, facilidade com tecnologia e potencial comercial. Se a empresa souber desenvolver esse perfil, ela terá um excelente profissional no futuro. Nós aqui na Peça Certa somos especialistas em encontrar esse tipo de profissional. O mercado de reposição automotiva precisa entender que atração de talentos não começa na entrevista. Começa na imagem que a empresa constrói todos os dias como marca empregadora. Quanto melhor o setor se posicionar, mais jovens vão enxergar a reposição como uma carreira de futuro”, finalizou.
Ações no varejo
Na Guaxinim Autopeças, considerada a maior rede de autopeças do interior do Ceará, com matriz em Mombaça, o empresário Antônio José Cavalcante Paulino (Dedé) sabe muito bem a importância dos jovens talentos e como valorizá-los. Além do seguro de vida para os colaboradores com carteira assinada, eles podem se tornar sócios.
Com atrativos, disse Dedé, “não temos dificuldade de contratar jovens. Acho até que a Geração Z tem interesse. Com o cliente cada vez mais digital, faz diferença o vendedor mais jovem, mais adaptado e que domina a área de tecnologia. O meu discurso na Guaxinim é que ela será uma empresa centenária onde os jovens que começaram comigo, desde o início, estão passando a ser sócios. Eu tenho cinco lojas em sociedade e estou dando também participação no lucro para os mais interessados e que desejam crescer comigo e ter a sua liberdade financeira”, afirmou.
Para Dedé, é fundamental acreditar nos jovens. “Precisamos acreditar mais nesta turma jovem, o futuro é o cliente digital, e o futuro é agora. Daqui a 20 dias, nós teremos outro perfil de cliente, que é a geração que está chegando”, ressaltou.
Nova geração
Sobrinho de Dedé, Caio Duarte Cavalcante (Caio de Jiló) tem 26 anos, começou no mercado em 2013 e desde 2017 atua no balcão da loja. “A Guaxinim Autopeças faz parte da minha história desde criança, eu cresci acompanhando a rotina da loja, o que ajudou a formar minha base no setor”, revelou.
Ele disse que nem sempre foi um funcionário exemplar. “Eu reconheço que já passei por uma fase bem ruim dentro da empresa. Mas em 2017 eu tive uma virada de chave. Meu chefe, que também é meu tio, me incentivou muito e me deu apoio para eu me desenvolver, aprender de verdade o balcão e buscar ser reconhecido no mercado. A partir daí eu entendi que essa profissão tinha futuro para mim e que eu podia crescer com resultado e responsabilidade”, afirmou.
Para ele, o mais atrativo no setor é o aprendizado constante. “Mudam as aplicações, marcas, tecnologias e até o jeito do cliente comprar. Para quem é apaixonado por vendas é um setor muito bom, porque o resultado vem com consistência: você vai construindo conhecimento, confiança e carteira de cliente com o tempo. Não é do dia para a noite, mas é uma profissão que recompensa quem leva a sério”, contou.
Com um foco individual no início, Caio mudou para uma visão coletiva, aqui descrita por ele, “de 2017 até 2025, eu fui construindo minhas próprias estratégias de vendas, formando minha carteira de clientes e estudando mais conhecimento técnico, para atender com mais segurança e melhorar meus resultados. No início de 2025, eu tive um despertar: deixei de pensar apenas no individual e passei a pensar mais no coletivo”, informou.
A mudança veio quando ele começou sua formação como líder “Com a intenção de passar conhecimento, ajudar a formar novos vendedores e me conectar mais com o pessoal das outras filiais para fortalecer a Guaxinim como um todo. Eu quero ver a Guaxinim crescer de forma sólida — uma empresa familiar que se mantém forte com o tempo. Meu objetivo é que ela seja uma empresa centenária e se torne uma das maiores do nosso mercado”, revelou.
Ele falou também sobre o quanto é bom o convívio com as gerações mais antigas, o que proporciona muita troca de informação. “Eles têm o método de quem aprendeu com catálogo físico, como o antigo catálogo da IPAB, sem sistema operacional, sem catálogo digital — e isso traz uma base prática que não tem em lugar nenhum. Quando você mescla isso com a tecnologia atual fica muito interessante: você aprende a raiz do conhecimento com quem tem vivência e agrega agilidade e precisão com as ferramentas digitais. O resultado é um atendimento mais completo e com menos erro”, descreveu.
Programa de formação
Atualmente, Caio participa da criação de um programa de treinamento interno junto a Dedé e Francisco Gomes, consultor e instrutor do Curso de Balconista de Alta Performance. “A ideia surgiu porque, para a Guaxinim se tornar uma empresa centenária, precisamos desenvolver pessoas dentro da própria casa. Queremos criar algo como um instituto de formação, uma escada de evolução onde o vendedor ou funcionário tenha passos claros para crescer. Não queremos mais contratar de fora e trazer vícios de outras lojas, preferimos moldar jovens que queiram trabalhar, crescer no mercado e se identificar com a gente. Quando pensarmos em abrir uma nova filial, já teremos pessoas capacitadas e treinadas para assumir posições chave, garantindo que o DNA da Guaxinim se mantenha forte e consistente”, explicou.
Para finalizar, ele falou que o seu maior sonho profissional é ser relevante no mercado. “Aquela pessoa que consegue se conectar com as pessoas, liderar equipes, trabalhar em conjunto e desenvolver gente. Mesmo sendo um jovem aprendiz, quero nunca parar de aprender, mas ao mesmo tempo ser um bom líder que inspira e cresce com o time. É sobre construir algo duradouro e fazer diferença no setor de autopeças”, concluiu. Uma inspiração para jovens talentos!


