Ao longo das últimas décadas, a indústria automotiva tem ocupado papel central na
transformação tecnológica da manufatura global. Pressões por competitividade, eficiência
operacional, sustentabilidade e inovação colocaram o setor na linha de frente da agenda da
Indústria 4.0, impulsionando a modernização de processos produtivos em diferentes mercados,
inclusive no Brasil.
Essa liderança aparece de forma consistente nas estatísticas internacionais. Segundo o último
relatório da Federação Internacional de Robótica (IFR) lançado em 2025, o setor automotivo
permaneceu como um dos principais adotantes de robôs industriais globalmente, com
protagonismo em diferentes mercados, incluindo Europa, Américas e Ásia.
E, além da demanda produtiva de alta escala, outros fatores macroeconômicos ajudam a explicar
esse protagonismo, incluindo o movimento de transição para os veículos elétricos e os desafios
de qualificação profissional observados no setor industrial.
Com isso, o mundo já conta com mais de 4,6 milhões de robôs operando em fábricas e, só em
2024, 542 mil novas unidades robóticas foram instaladas, mais que o dobro de 10 anos atrás.
Ainda segundo a IFR, as instalações anuais ultrapassaram 500 mil unidades pelo quarto ano
consecutivo, com a Ásia representando 74% das novas instalações em 2024, em comparação
com 16% na Europa e 9% nas Américas.
E, ainda que estejamos falando de um ecossistema atualmente bastante concentrado – cerca de
76% dos investimentos em robótica são realizados por China, Japão, Estados Unidos, Coreia do
Sul e Alemanha –, esse cenário começa a mudar, abrindo espaço e oportunidades para
montadoras operando no Brasil.
Afinal de contas, quando pensamos em parques industriais automotivos, o fato é que a
automação avançada – um dos pilares centrais da Indústria 4.0 – deixou de ser um diferencial
de nicho para se tornar o alicerce da qualidade e da redução de custos em processos que vão da
montagem à estamparia e pintura.
Os benefícios da corrida pela automação
Nesse contexto, a agilidade é um dos ganhos mais relevantes, permitindo que projetos sejam
executados de forma totalmente digital, desde a engenharia até as validações, reduzindo
drasticamente o tempo de execução das linhas de produção.
Ato contínuo, com o uso intensivo de softwares de simulação e o conceito de digital twin, as
montadoras conseguem prever comportamentos de peças e tempos de ciclo no ambiente virtual
com alta precisão, garantindo segurança operacional antes mesmo de a linha existir fisicamente.
Além disso, a automação impacta diretamente a estrutura de custos; na pintura automotiva, por
exemplo, a economia de insumos como tinta pode, por si só, viabilizar o retorno sobre o
investimento. Essa eficiência é integrada à versatilidade dos robôs industriais para diferentes
etapas da cadeia automotiva – robôs que começam a avançar de modo mais consistente no
Brasil.
Radar da Indústria 4.0: desafios e oportunidades para o Brasil
O contexto brasileiro, aliás, é permeado por contrastes: embora a densidade robótica nacional
ainda seja modesta — com cerca de 12 a 13 robôs para cada 10 mil trabalhadores, enquanto
países como Estados Unidos atingem 1,3 mil equipamentos para a mesma proporção — o setor
automotivo local apresenta índices de maturidade e sofisticação significativamente superiores a
outros segmentos da indústria brasileira.
Essa realidade reflete a busca por competitividade de um parque industrial maduro que,
pressionado pela entrada de novas montadoras, acelera seus investimentos em automação para
otimizar retornos e reduzir custos operacionais em um movimento diretamente alinhado ao
avanço da Indústria 4.0 no país.
Segundo dados analisados pelo Observatório Nacional da Indústria, o mercado de Indústria 4.0
no Brasil gerou US$ 1,77 bilhão em 2022 e tem potencial para atingir US$ 5,62 bilhões até 2028,
impulsionado por tecnologias como IoT e Inteligência Artificial.
Ao mesmo tempo, novas tendências emergem no horizonte de inovação da indústria
automotiva. A automação hoje também está intrinsecamente ligada à sustentabilidade e à
resiliência da cadeia produtiva. Nesse sentido, estratégias como o retrofit e o reuso de robôs
permitem manter projetos competitivos mesmo em cenários de restrição de capital, reduzindo
desperdícios e otimizando o ciclo de vida dos ativos industriais.
Ao mesmo tempo, o uso de IA generativa para gerenciar a variabilidade do ambiente externo e
a experimentação com robôs humanoides para tarefas específicas começam a despertar mais
investimentos, embora ainda seja preciso provar a viabilidade econômica em escala industrial
das tendências emergentes frente às soluções já consolidadas. No Brasil, a chegada da
tecnologia 5G também é vista como um catalisador que poderá acelerar ainda mais essa jornada
que está apenas começando no país.
Por fim, é essencial compreender que a robótica atua como uma alavanca de inovação industrial
que redefine relações de trabalho, elevando o papel humano para tarefas mais estratégicas, de
supervisão e controle analítico
Assim, o avanço da automação não trata apenas de substituir o manual pelo máquina, mas de
permitir a criação de processos mais flexíveis, eficientes, orientados por dados e que elevem a
capacidade criativa ao mesmo tempo em que fortalecem a competitividade das montadoras.
Para o Brasil, é fundamental dar um passo adiante em sua jornada de automação, de modo que
seu protagonismo no setor automotivo vá além das fronteiras regionais e possa abrir caminho
para uma indústria mais produtiva, sustentável e realmente conectada aos pilares 4.0 na
construção de um futuro ainda mais inovador.
*Rodrigo Bueno é Diretor da ABB Robótica para o Cluster South America