Por Renato Lass
Em fevereiro deste ano, tive a oportunidade de participar do NADA (National Automobile Dealers Association) Show, um dos maiores eventos da indústria automotiva, que foi realizado em Dallas, nos Estados Unidos. A feira, que contou com grandes players do mercado, trouxe uma visão atualizada do segmento e perspectivas de como se preparar para atuar nesse setor em constante evolução. Neste artigo, apresento a vocês um pouco do que vi e ouvi sobre carros elétricos, o grande destaque do evento.
A realidade de adoção de carros elétricos no Brasil comparada aos Estados Unidos ainda é bastante diferente, considerando que, em 2022, os veículos elétricos (EVs) atingiram o patamar de 5% do total das vendas de veículos leves, o que representa o gatilho para que uma nova tecnologia seja considerada massificada, contra 0,5% no Brasil. Porém, com o rápido avanço nas vendas (crescimento de 41% de 2021 para 2022) e adesão da população ao produto, o carro elétrico tem tudo para continuar crescendo fortemente sua participação nos próximos anos, ainda mais se considerarmos que os veículos premium estão tomando uma fatia cada vez maior do mercado, o que tem correlação direta com o público que compra elétricos. Nesse cenário, é fundamental que os segmentos de reparação e reposição independente se preparem para receber a demanda, e saibam lidar com um produto com grandes diferenças dos modelos a combustão.
O primeiro ponto a se considerar é que o carro elétrico não vai acabar com a reparação e reposição, mas, sim, transformá-las. Assim como o carro a combustão, o elétrico e o híbrido também demandam cuidados e assistência, porém em outras dimensões, com grande foco na saúde da bateria, a qual representa entre 30% a 40% da composição do custo de um veículo elétrico. Além disso, a alta tecnologia embarcada nesses veículos deve demandar um novo perfil de mão de obra, com qualificações distintas das quais vemos hoje nos mecânicos, acostumados a um checklist extenso de verificações e trocas de componentes, os quais são muito mais escassos e duráveis nos modelos elétricos. Devemos observar uma entrada de profissionais com perfil de tecnologia da informação nas oficinas, com conhecimentos em hardware e software sendo preponderantes no mercado de reparação.
Novas soluções, novos problemas
O carro elétrico é um grande avanço no mundo da mobilidade, traz diversos benefícios, como redução de custos de abastecimento e manutenção para o proprietário, redução de emissão de CO2, além de uma experiência de condução e viagem muito instigante e confortável. Contudo, algumas barreiras na adoção massiva dificultam uma velocidade maior de crescimento, por exemplo, o valor de compra ainda muito acima da média e com poucos incentivos fiscais, se compararmos a outros mercados como os EUA, que fornecem crédito de imposto de renda no valor de US$7.500,00 para os compradores de elétricos. Quando se fala em escala, obviamente a infraestrutura de carregamento fora dos grandes centros ainda é um problema, além disso há um processo de conscientização do consumidor sobre os benefícios dos EV’s, por exemplo, nos EUA, que é um mercado um pouco mais avançado, 41% dos potenciais compradores têm dúvidas a respeito do custo de reposição da bateria, outros 37% acerca da autonomia e 57% estão preocupados com a falta de estações de recarga.

Como já destacado, a bateria é o centro das atenções. Por isso, é fundamental estudar sobre a dinâmica dela em termos de vida útil, saúde, custo de reposição, segunda vida, descarte, reciclagem, entre outros aspectos que podem gerar uma grande variedade de oportunidades de negócios para o Aftermarket. Aqueles que entenderem mais rápido a dinâmica desse novo produto tem a possibilidade de construir as bases para o crescimento da sua adoção, que ocorrerá de forma inexorável mais cedo ou mais tarde, haja vista que toda a cadeia de suprimentos global no mercado automobilístico está se movimentando nessa direção, como evidenciam os planos da Volkswagen de descontinuar investimentos em motores a combustão a partir de 2025 e da GM de parar de vender veículos a combustão em 2035.
Pode parecer que os elétricos ainda demorarão para chegar, mas os movimentos de outros mercados nos apontam que a velocidade é maior do que todos esperavam e trata-se de um caminho sem volta. Obviamente, existem outras prioridades com as quais o Aftermarket precisa se preocupar, mas não se pode negligenciar o potencial que esta transformação traz em novos negócios para o futuro próximo.
Fontes: Associação Brasileira do Veículo Elétrico / FENABRAVE / NADA Show 2023 / Cox Automotive Survey 2022.
Renato Matias Vieira Lass é diretor da vertical de Aftermarket Automotivo da Linx, empresa da plataforma de software StoneCo, especialista em tecnologia para o varejo e líder no mercado de software de gestão, com 45,6% de market share do mercado varejista, conforme atesta o IDC. Toda a expertise da Linx é focada em um varejo de – e para – pessoas, conectando o indivíduo à facilidade, inteligência e experiência desejada do mundo online ao offline
