Pela pesquisa da Planejar, o foco ainda é bastante concentrado no curtíssimo prazo. A essência do problema está na falta de uma educação de qualidade, incluindo, a questão da educação financeira
Por Karin Fuchs
Uma pesquisa realizada pela Planejar (Associação Brasileira do Planejamento Financeiro) mostra que, em comparação a 2022, aumentou o percentual de brasileiros que fazem algum tipo de planejamento financeiro, de 72% para 83,2%.
A pesquisa foi feita em sete capitais, com a participação de mais de 600 pessoas. Na análise de Osvaldo Cervi, vice-presidente do Conselho de Administração da Planejar, ainda que o percentual tenha aumentado, há um longo caminho a percorrer, até porque o Brasil viveu períodos bem difíceis.

Segundo Cervi, “os últimos 10 anos foram bem difíceis para nós brasileiros. 2014 e 2015 trouxeram quedas expressivas no PIB e elevação significativa do desemprego (+ de 3 milhões); esse terremoto econômico se sucedeu a um grande endividamento das pessoas físicas e empresas no Brasil, fato que tornou ainda mais doloroso o processo. Naquele momento, pela dor que sentia, o brasileiro começou a procurar mais informação sobre finanças, na busca de organizar sua vida financeira, mas, em 2020, quando tudo parecia estar se organizando, vivemos a triste experiência da Covid. Assim, o amadurecimento sobre a necessidade de se organizar financeiramente vem dessas difíceis experiências”.
Aculturamento
Cervi valida que as plataformas digitais e as diversas fintechs que vêm sendo criadas também contribuíram para o desenvolvimento dos clientes financeiros e o próprio mercado de trabalho. “Mais competitivo, o mercado tem exigido também profissionais mais qualificados que, por sua vez, ajudam no aculturamento dos clientes. Um ciclo virtuoso que explica o amadurecimento financeiro de muitos brasileiros. Mas é só o começo. Ainda temos dezenas de milhões de brasileiros com baixíssima compreensão financeira. Ha muito o que fazer”, afirmou.
Foco no curtíssimo prazo
Para a maioria dos entrevistados (35,15), o principal objetivo para o planejamento financeiro é organizar as finanças, enquanto 16,9% disseram que pretendem gerenciar as despesas do mês e 16,5% estão preocupados com a aposentadoria. O foco principal para a maioria (64,3% das respostas) é com o curtíssimo prazo, enquanto para apenas 17,7% é com o longuíssimo prazo.
Questionado se essa preocupação centrada no curtíssimo prazo se deve à falta de educação financeira ou da insegurança sobre a situação econômica do País, Cervi respondeu. “É verdade que a economia brasileira já viveu tempos sombrios, com inflação descontrolada, a exemplo do que vivem neste momento nossos irmãos argentinos. Fato é que vimos passando por altos e baixos desde o real, em 1994, e os impactos econômicos, sobretudo quando os juros sobem muito, com aumento concomitante do desemprego, dificultam uma organização financeira melhor, mas, sem sombras de dúvidas, a baixa compreensão financeira agrava esse cenário, portanto entendo que a essência do problema está na falta de uma educação de qualidade, aí inclusa a questão da educação financeira”.
Entre aqueles que afirmaram não realizar planejamento financeiro, os principais motivos alegados foram a falta de renda suficiente e por não saberem como fazer. Entre os que realizam o planejamento, a maioria (72,8%) não tem ajuda de assessor financeiro. Dos 27,2% que têm, o principal braço é de parentes e amigos, o gerente do banco, seguido pelo agente ou consultor autônomo para essa tarefa.
Estabilidade financeira
De acordo com a pesquisa, apenas 2,5% dos entrevistados disseram que a preocupação é com a compra da casa própria. “É preciso lembrar que a pesquisa se concentra em 7 capitais e ouve pouco mais de 600 pessoas. Claro que ter a própria casa é um dos principais objetivos de qualquer pessoa, mas é preciso entender que mais de 70% das famílias brasileiras estão endividadas, então é natural que o foco de se organizar financeiramente e poupar pensando em sua aposentadoria acabaram consolidando as maiores preocupações das pessoas, novamente em linha com sua visão de organização de curto prazo”, disse Cervi.
E apenas 1,2% dos participantes tem como preocupação a estabilidade financeira. “Minha interpretação é de que a instabilidade econômica associada ao alto nível de endividamento das famílias faz com que a visão sobre estabilidade financeira esteja distante. Não que não se queira ter estabilidade, mas o foco de organização para um dia chegar lá suplanta esse objetivo, de início”.
Para finalizar, disse Cervi, “mas o tempo, com o aprofundamento do amadurecimento e aculturamento sobre o planejamento financeiro, certamente mostrará uma migração dos objetivos de curto para o longo prazo. Aí sim, com maior foco na estabilidade financeira. Parece importante lembrar que ainda temos dezenas de milhões de brasileiros que mal sobrevivem, portanto entendo que essa evolução se dará em ondas, considerando, sobretudo o nível de formação e renda dos indivíduos”.