Abeifa realiza inúmeras críticas à volta urgente do imposto de cerca de 35%

Para a Abeifa, não faz sentido a volta urgente do imposto de 35%. A entidade defende o que foi combinado e o que o consumidor quer: veículos com tecnologia e segurança. No 1º semestre as vendas de veículos importados cresceram 38,8%. Entre as associadas da Abeifa a alta foi de 224%. Ainda assim, a participação desse nicho no mercado ainda é baixa, cerca de 5%

Por Karin Fuchs

No 1º semestre deste ano foram emplacados 193.438 automóveis e comerciais leves importados, 38,8% acima do mesmo período de 2023. Entre as associadas da Abeifa, foram 45.766 unidades, resultado 223,9% superior ao 1º semestre de 2023, sendo 44.921 importadas e 41.417 eletrificadas. A maior participação foi da BYD com 32.572 unidades, 71,2% do total. Para o término do ano, a previsão da entidade é chegar a 96.800 unidades, em um mercado estimado em 2,420 milhões de unidades (automóveis e comerciais leves).

“A Abeifa representa quase 46 mil veículos, estamos falando de 23% do total de carros importados, e 52% dos importados elétricos são de alguns dos nossos associados. Isso mostra que a gente tem uma agenda superforte com a eletrificação, mas, principalmente, com a indústria como um todo. O nosso mantra é semear a cultura da tecnologia e da segurança. A indústria massiva já passou do tempo de investir em segurança em seus veículos”, afirmou o novo presidente da entidade, Marcelo Godoy, durante a coletiva de imprensa.

Antecipação da tarifa de importação

A Anfavea tem visto uma queda acentuada das exportações e um dos seus pleitos é a volta urgente da alíquota de 35% para os veículos importados, o que está previsto para acontecer gradualmente até 2026 (ver Box). A Abeifa não é contra a volta da tarifa de importação, mas em quebrar a regra que foi imposta. O susto para os fabricantes nacionais foi com o aumento das importações chinesas, o que segundo a Abeifa é apenas uma fração. O Mercosul continua tendo a maior participação, ainda que tenha caído de 62,3% para 46,1%, entre 2023 e 2024, enquanto a da Ásia passou de 14,4% para 29,8%.  

“Quando vemos uma agenda superforte de crítica ao imposto de importação e o pedido de antecipação da alíquota de 35%, estamos falando de 200 mil carros e não só chineses. A importação de veículos chineses é uma fração. Temos um tratado de livre comércio, se de um país a gente aumenta a taxa e de outro a mantém zero, a gente cria um desequilíbrio no mercado de carros importados”, defendeu Godoy.

O executivo também criticou a política protecionista, em números, disse ele, o mercado brasileiro chegou a 5 milhões de veículos por ano no passado e hoje não passa da metade disso. “Se continuarmos com uma política protecionista aos fabricantes do País, talvez a gente não consiga aumentar esse número, principalmente, as exportações que reduziram. Isso pode ser simplesmente por barreiras de impostos, mas, talvez, a grande questão é “será que o cliente não está querendo outro produto, com mais qualidade e mais segurança?” E algumas empresas que produzem aqui há 10 anos, não estão ficando um pouco para trás? Tem que fazer o que o cliente está disposto a comprar, seja um carro elétrico, um carro mais tecnológico e mais seguro. Essa é a discussão no meu ponto de vista”.

Participação de mercado

Godoy também foi crítico à posição da Anfavea, pela participação que os veículos importados têm no mercado. “Representa 5% da indústria como um todo. Até 10%, 15% é um número saudável para qualquer país. Mais do que o número de vendas e a origem do carro, é importante para a indústria como um todo ter novos produtos, tecnologias e segurança. Ter o que o cliente quer comprar. Quando se barra isso é prejudicial ao País em médio e longo prazos. Se a indústria local não tem capacidade de brigar com 10% do mercado, ela precisa repensar seu modo de fazer negócios e os seus veículos”.

O que a Abeifa defende é o retorno gradual da taxa de importação. “A regra foi criada e todo mundo se adaptou. Abrir uma ruptura agora para se antecipar cria um efeito terrível em médio e longo prazos. Não acho que o Governo fará isso, e não só carros são importados, existem medicamentos e outras indústrias que trabalham com importações. Como uma matriz que está lá fora olha esse movimento e olhará para o Brasil”, alertou.

BOX

Retorno gradual

Pela Resolução do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), publicada em janeiro deste ano no Diário Oficial da União, o retorno da tarifa de importação para veículos eletrificados já começou:

– Híbridos: 15% em janeiro desse ano, 25% nesse mês, 30% em julho de 2025 e de 35% em julho de 2026.

– Híbridos plug-in: 12% em janeiro desse ano, 20% nesse mês, 28% em julho de 2025 e 35% em julho de 2026.

– Elétricos: 10% em janeiro desse ano, 18% nesse mês, 25% em julho de 2025 e 35% em julho de 2026.

Imposto Seletivo

A regulamentação da reforma tributária, aprovada pela Câmara dos Deputados no dia 10 de junho, estabelece a criação do Imposto Seletivo para os produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. O texto inclui veículos, incluindo os eletrificados, o que para as entidades do setor é fora da realidade quando se fala em volume de investimentos e descarbonização.

Segundo Godoy, “entendemos que é outra anomalia do sistema. Se a discussão for pela bateria, vamos abrir uma discussão aberta sobre como fazer o seu descarte corretamente. O próprio Governo tem plano de reciclagem, vamos incluir a bateria, ou cobrar das empresas uma estratégia correta para elas. Hoje, a bateria vale muito, ela não vai ser descartada como não é também a bateria do celular. Vai existir uma forma de reciclá-la. O carro elétrico não é a única forma de diminuir a pegada de carbono, mas uma delas e uma ótima opção. Colocar isso em uma agenda que não é de meio ambiente, mas muito mais política, não agrega a discussão. É um argumento fraco perto do que o veículo elétrico oferece”.

Veículos recreativos fora da estrada e importação independente

Ambos os temas também fizeram parte da agenda da coletiva da Abeifa. A entidade é a favor da regulamentação dos veículos recreativos fora da estrada, que tramita na CTVAT – Câmara Temática de Assuntos Veiculares e Ambientais da SENATRAN. Quanto à Lei nº 14.902, de 27 de junho de 2024, que trata no art. 4ª da importação independente, há uma grande ressalva, como explicou o diretor Financeiro, Rodrigo Soares.

“Somos contra o texto, que simplesmente define a mesma obrigação para o importador independente e para a importadora oficial, a responsabilidade pela manutenção e por algum problema no carro. É extremamente difícil controlar isso e criar essa obrigação para os importadores por contra própria. Estamos brigando para rever esse texto, até agora estamos tendo sucesso, e estamos indo para outras esferas. Os independentes assumiram o risco por algum benefício e dificilmente a importadora oficial será responsável por todos esses veículos”.

Nova gestão (2024/2026)

Na coletiva da Abeifa também foi apresentada a sua nova diretoria, empossada no dia 15 de maio. Marcelo Godoy (CEO da Volvo Cars) assumiu a presidência, antes, ele era o vice-presidente da entidade. Juliana Cavole Lauro (Porsche), a vice-presidência, e Rodrigo Soares (UK Motors), a diretoria financeira.

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