Por: Karin Fuchs
O primeiro semestre do ano foi marcado pelo aumento de consumo estimulado pela expansão da oferta de crédito, pela queda na taxa de desemprego e, em paralelo, o Governo continua gastando mais do que arrecada, ampliando, assim, o déficit fiscal, uma conta que deverá ser paga no futuro. As possíveis consequências são a redução do ritmo da economia e o aumento da inflação.
Segundo Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Conselho do PROVAR, Professor Titular da FEA-USP e idealizador do MBA Varejo da FIA, o varejo ampliado – “Veículos, motos, partes e peças” e “Material de construção” cresceu cerca de 4,6% no semestre. “Essa expansão foi obviamente muito positiva e relaciona-se ao recuo da inflação. Com efeito, a massa real de rendimentos cresceu quase 8% comparando abril de 2023 com abril de 2024 (último dado disponível)”, analisa.
Por outro lado, diz Felisoni, “a desvalorização do dólar ante o real afeta as importações, em especial: eletrônicos, automóveis, produtos de tecnologia, medicamentos, roupas e calçados diferenciados, cosméticos e perfumes, alimentos importados, equipamentos esportivos, eletrodomésticos e jogos; e brinquedos. Além disso, o enfraquecimento do real amplia a incerteza, diminuindo a disposição das empresas varejistas em ampliar suas operações”.
Na avaliação de Fabio Pina, assessor econômico da FecomercioSP, foi um momento peculiar da economia brasileira. “Estamos rodando em paralelo duas economias. Uma com o aumento de consumo, mais emprego e mais renda em relação a 2023, em grande parte, esse desempenho se deve a um estímulo econômico fiscal, ou seja, o Governo gasta mais do que arrecada, o que gera um estímulo de consumo momentâneo. O consumo de hoje é, em parte, artificial e terá que ser pago com o esforço do futuro”.
Desempenho
De forma geral, diz Pina, foi um semestre positivo. “O PIB do primeiro semestre deste ano deve crescer em torno de 2% a 2,5% em relação ao primeiro semestre de 2023. Isso foi o suficiente para impulsionar as vendas no varejo. Só que, novamente, isso se deu também a uma expansão fiscal relevante. O déficit fiscal do ano deve superar R$ 100 bilhões, isso é 1,5% do PIB, o que em parte tem estimulado as vendas e o consumo, e reduz as possibilidades de termos um segundo semestre muito exitoso. O mercado financeiro e outros agentes investidores começam a ficar preocupados com essa situação das contas públicas”.
Um cenário que Felisoni também vê com cautela. “O indicador de evolução do PIB é uma das premissas a justificar o fluxo de vendas no varejo. É evidentemente positivo, entretanto, o ambiente de negócios caracteriza-se hoje por grande incerteza. A questão e a maneira como o governo tem lidado com essa situação fiscal é a principal preocupação. Portanto, o crescimento do PIB é questionável diante das pressões inflacionárias e a resposta necessária do Banco Central no que se refere à taxa básica de juros”.
Segundo Pina, “o crédito foi o responsável por um aumento sensível de vendas no primeiro semestre. O volume de crédito e das concessões são muito grandes, mas dificilmente isso permanecerá, pois, as famílias já estão com um grau de endividamento mais elevado. Temos um processo de final de queda da taxa de juros, tudo isso deve esfriar um pouco esse desempenho. Vai gradativamente sendo reduzido, ajustado, dificilmente teremos um segundo semestre com esse desempenho. Mas ainda assim deve ser positivo”.
Para o financiamento de veículos novos e usados, somente no mês de abril foram R$ 22,5 bilhões em concessões de crédito, o melhor mês na série histórica do Banco Central, com um crescimento de 57% na liberação de crédito, em relação ao mesmo período de 2023.

Ele prevê um crescimento em torno de 1,5% a 2% para o PIB neste ano. “Um pouco mais acelerado no primeiro semestre, devendo desacelerar no segundo. Terminamos o primeiro semestre provavelmente com uma taxa de desemprego em torno de 7%, relativamente baixa perto do que já tivemos em 2015, 2016, quando a taxa chegou a 15%, e com o consumo das famílias crescendo, o que vai ensejar um ajuste no futuro que pode ser mais severo do que a gente imagina, ou seja, a desaceleração da economia que se aproxima pode ser maior do que imaginávamos, de um ano e meio a dois anos”.
Ainda de acordo com Pina, “vai ser um segundo semestre também positivo em termos de consumo e de crédito. Mas, provavelmente, com uma taxa de crescimento menor para ambos e para o PIB, do que foi no primeiro semestre. Temos como grande desafio o controle da inflação, com uma disputa política e até inadequada entre o Banco Central e autoridades do Governo, se deve reduzir ou aumentar os juros. Essa disputa é ruim, deixa o mercado mais nervoso, pressiona o câmbio e a Bolsa e, em segundo momento, a inflação”.
Para finalizar, Felisoni fala sobre os impactos das eleições municipais na economia, “as eleições municipais diretamente podem afetar pouco a economia de modo geral. Entretanto, o pleito e o resultado, ao que tudo indica, devem reforçar o ambiente polarizado. Tal polarização não é algo que contribua para a superação dos problemas econômicos”. Confira, a seguir, os resultados para o varejo de autopeças nas diferentes regiões do País.

Sudeste
Na Rocha Autopeças, em Campinas (SP) e região, o empresário Roberto Rocha conta que terminaram o primeiro semestre praticamente empatados com o ano passado. “Tivemos meses com crescimento e outros com perda. Em abril, tivemos um aumento considerável de vendas em relação ao ano passado, porém, este ano não tivemos feriados no mês, foi um mês cheio, o que ajuda o faturamento. Não sei até que ponto o aumento do crédito reflete diretamente dentro do mês, mas quem sabe ajudou na revisão do veículo usado”.
Rocha comenta também que nesse ano o abastecimento de peças está normalizado. “O problema está no cliente, aumentou a inadimplência e os pedidos estão reduzidos, apenas de peças necessárias. Nós temos parcelamento em até 10 vezes, porém, não costumo liberar muito, pois quem tem carro não pode contar com um financiamento para a manutenção. Antes de acabar de pagar, já vai ter outros serviços a fazer”.
Uma das ações que eles fizeram foi um sistema de venda em atacado. “Para quem compra produtos de caixa fechada direcionado ao reparador, com um preço bem atrativo. Isto ajuda eles a terem um lucro maior”, especifica, acrescentando que um dos desafios foi o aumento da informalidade. “Estão trazendo mercadorias de fora sem recolher o imposto ST, isso dificulta a venda de quem trabalha corretamente”, ressalta.
Para o segundo semestre, Rocha prevê um resultado similar. “As eleições injetam dinheiro no mercado, que pode ajudar a diminuir a inadimplência, mas não creio que irá trazer resultados muito positivos para nós”, explica.
Proprietário do Grupo Pelegrini, em Uberlândia (MG), João Pelegrini diz que o crescimento em torno de 10% nas vendas da Casa do Chevrolet e da Casa da Transmissão só foi possível com esforço. “Percebemos que nesse primeiro semestre aumentou a concorrência, o mercado estava mais disputado, então, tivemos que trabalhar mais para ter essa oportunidade crescimento”.

Para isso, foram criadas campanhas internas e externas para as vendas e para a área administrativa. “Isso proporcionou um maior entusiasmo, uma maior integração da equipe, por premiarmos com meta para que todos consigam se comprometer. Mas é lógico, motivar toda a equipe faz a diferença. Criamos café da manhã para os clientes, buscamos sugestões tanto dos nossos clientes internos como externos para saber o que pode ser melhorado. Com essas sugestões, nós fizemos algumas mudanças que foram muito válidas”.
Outra ação implementada no Grupo foi a de uma consultoria externa. “Desde fevereiro nós estamos fazendo uma consultoria, em que os diretores e líderes estão buscando se lapidar, se profissionalizar mais e nos prepararmos mais e melhor para que possamos também ter a capacidade para os desafios do dia a dia, no sentido de concorrência, que está muito forte”.

Para o segundo semestre, Pelegrini prevê que será melhor. “Nós sempre somos muito otimistas e sempre o segundo semestre costuma ter um melhor desempenho em relação ao primeiro. Estamos ansiosos com as eleições, para sempre buscarmos bons gestores nos nossos municípios. Eleger o candidato que tenha realmente a capacidade para melhorar a cidade e melhorando, melhora para todo o comércio e para o seu negócio, nós estamos com boas expectativas tanto no volume de faturamento como eleger bons executivos”.

Sul
Na Kepeças, localizada em Curitiba (PR), o resultado do primeiro semestre foi bastante positivo, conforme conta o empresário André Keppe. “Crescemos cerca de 15% comparado ao ano passado, com novos clientes chegando, novas parcerias sendo formadas, é claro que com muito trabalho. Somos uma loja nova, estamos no nosso segundo ano e fazendo um trabalho de mudança de mentalidade do dono do carro e do mecânico reparador, apostando na consultoria de peças e não apenas em vender peças ou tirar pedido”.
Keppe conta que o grande desafio tem sido vender para os mecânicos e auto centers. “Eles estão comprando diretamente nas distribuidoras. Para vender precisamos baixar muito nossa margem, mas esse é um assunto antigo, o mercado foi para esse lado e já não há mais volta. Por isso, é preciso inovar diariamente. Se não o preço, outra coisa que trará esse reparador para a loja”.
Como oportunidades, ele cita a área de inteligência do mercado, app, site, venda online, clube de descontos e consultoria. “Temos trabalhado incansavelmente nos bastidores, desenvolvendo soluções que além de atender nosso cliente da loja local também atenderão outros setores mais distantes da loja. Criamos um aplicativo de fidelidade para os clientes, ao se cadastrar no app o cliente tem acesso a descontos, prazos mais flexíveis e acesso à nossa lista de melhores mecânicos da cidade. Para o mecânico que está no app, também tem descontos e serviços de divulgação nas mídias. Tem funcionado”.

Sobre o segundo semestre, a expectativa é alta. “Estamos com a expectativa alta para o segundo semestre, estamos sofrendo com a falta de funcionários, especialmente na área de vendas, mas estamos nos desdobrando para suprir isso. Esperamos um aumento de 15% para esse semestre. Sobre as eleições municipais, cremos que não influenciam em nada nas nossas vendas”, concluiu.
Proprietário da Peçauto, em Campo Largo (PR), César Kuroshi retrata um cenário bastante desafiador no primeiro semestre. “Foi um primeiro semestre difícil, mas não dá para reclamar muito, pois conseguimos sobreviver. Ficamos estagnados. As oportunidades sempre existem, mas os desafios são maiores. A economia não está estável, está com muita turbulência, e o maior desafio é não diminuirmos. Pelo menos voltarmos a crescer quando essas turbulências passarem”.
Em suma, Kuroshi fala que o mercado está desaquecido e mesmo em um ano de eleições municipais, em que se costuma injetar dinheiro na economia, na sua cidade não há esse efeito. “Para nós, aqui, as eleições municipais não mudam muita coisa. Muda mais quando são eleições Federal ou Estadual, mas não vejo diferença quando é Municipal”.
Centro-Oeste
Em Cuiabá (MT), o empresário José Julio dos Reis, da Winner Trading Autoparts, tem motivos para comemorar. “Nós tivemos um aumento das vendas em torno de 30% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. Hoje estamos com imóvel próprio, em um espaço maior, o que nos possibilitou fazer um investimento maior em nosso estoque. Este ano estamos investindo em mídias e anúncios e estamos tendo resultados”.

Autopeças, de Fortaleza (CE)
Com relação ao segundo semestre, ele estima que seja melhor que o primeiro. “Temos boas expectativas, que sejam melhores que o primeiro semestre, já que houve um crescimento na liberação de crédito para financiamento de veículos”. E assim como César ele também disse que eleições municipais não trazem resultados para os seus negócios. “As eleições municipais não têm impactado o nosso ramo de atividade”, afirma.

Os sócios da Martins Imports Auto Parts, localizada em Goiânia (GO), Kaylane Leite de Pina e Luis Eduardo Martins de Souza Filho contam que o este ano se iniciou com diversos projetos voltados à otimização da performance em vendas, atendimento, lucro, custos e satisfação do cliente. “Desde o final de 2023, a empresa investe na ampliação da variedade de produtos, na expansão da estrutura física com a mudança para uma nova sede, na consolidação do fluxo financeiro através da estipulação de metas de custos e da busca por parcerias com fornecedores, e na prospecção de novos mercados para atender ao Mercado Pago Full”, pontuam.

Segundo eles, “a flexibilização das concessões de crédito, aliada às mudanças no panorama político, abre um leque de oportunidades promissoras para o setor de autopeças”. E quanto ao segundo semestre, “com base em um planejamento detalhado e na execução rigorosa das ações previstas, estamos confiantes de que alcançaremos um crescimento sustentável e consolidaremos nossa posição de liderança no mercado de autopeças”, concluem.
Nordeste
Na Truckão Autopeças, em Fortaleza (CE), o empresário Rogério Nobre Façanha conta que o cenário foi desafiador no primeiro semestre e que eles seguem fazendo melhorias na empresa para beneficiar o cliente. “Nós tivemos que planejar muito, fazer uma série de modificações na empresa, ouvir muito o mercado e saber o que estava acontecendo no cenário nacional. Fomos tentando melhorar as nossas mentes aqui dentro para tentar melhorar e alcançar os objetivos”.
Foram feitas adequações para melhorar o atendimento da equipe de vendas e aumentar a produtividade na parte de serviços. “Para que o veículo fique menos tempo para fazer a revisão, nos organizando para o cliente ficar menos tempo na empresa. Tudo isso foi feito nos últimos anos para otimizar nosso trabalho e presentear o cliente todo dia. Temos que trabalhar para tirar um pouco a pressão dele, que é muito grande, e sempre se antecipar às necessidades dele”.
No primeiro semestre, a oportunidade para a Truckão foram as obras públicas. “Como eu trabalho com a linha pesada, teve muita retomada de obras e de outras necessidades que estavam paradas. Houve muita necessidade de caminhões para tocar essas obras e, para mim, a área de serviços de manutenção desses veículos foi muito interessante”.

Quanto ao aumento da concessão de crédito, ele comenta que isso não impactou tanto nos seus negócios. “Sentimos levemente, pois mesmo com as concessões, os juros continuam muito altos e os preços dos carros também. Mesmo com as concessões, ainda ficaram fora da realidade”.
A tendência para o segundo semestre é melhorar. “Que haja mais obras, mais investimentos em infraestrutura, a necessidade de compra de veículos novos e de reparos também. Tudo isso condiciona a venda, serviços e aquece mais a economia. Tudo que tiver para que venha mais dinheiro para o mercado, gira a economia e é importante demais para a gente que isso aconteça. Estou mudando o layout da loja, dando mais treinamento ao nosso pessoal e investindo mais em marketing. Estamos acreditando que realmente o mercado reaja, e que reaja mesmo!”.
Na JR Peças e Serviços (Zelitão), em Cícero Dantas (BA), o empresário José Ribeiro dos Santos comenta que “embora o mercado esteja com uma diminuição de empresas, a nossa segue firme e com um aumento relevante em toda demanda desde o ano passado; o que vem contribuindo cada vez mais para o crescimento da empresa desde 2023. Atuamos no setor de linha leve e foi possível notar um aumento significativo na procura por peças de reposição desde dezembro de 2023, o que tem contribuído bastante para o aumento das vendas no balcão”.
Os desafios, comenta ele, são o mercado competitivo e as atualizações de veículos, “o que sempre será um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade. Uma vez que, se torna extremamente importante e necessário estar por dentro de todas as inovações do mercado automotivo e, assim, se tornar uma oportunidade de atrair novos clientes e ainda conseguir manter os antigos”.
Na JR Peças e Serviços, o empresário destaca como ponto alto o atendimento personalizado para cada cliente. “Identificando sua necessidade e seu sonho de momento; uma vez que somos resolutivos em sanar seus problemas e necessidades no ato da compra. Seja na forma de pagamento (dinheiro, pix, cartão de crédito ou débito) ou no fornecimento rápido do produto”.
Ao contrário do que disseram muitos empresários nessa matéria, para ele, as eleições municipais têm impactos diretos. “Somos do interior da Bahia e a eleição tem um impacto fundamental, principalmente, por ter um número grande de consumidores que são funcionários do setor público, e uma incerteza de mudança pode gerar uma diminuição no fornecimento. Mas, acreditamos que após o resultado, as vendas voltem a crescer e todo o comércio também”.
Norte
Na Goianinho Autopeças, em Belém (PA), as perguntas foram respondidas por Luscio Silva e Carla Silva. No primeiro semestre eles cresceram, aumentou a procura por mercadoria e, com isso, tiveram que aumentar as compras e contratar mais funcionários, e aumentaram os investimentos em mídia. Por outro lado, diminuíram os preços por conta dos impostos elevados para continuarem movimentando e girando as mercadorias.
A liberação recorde de crédito para o financiamento de veículos novos e usados no mês de abril trouxe resultados positivos para loja. “Graças a Deus, nós tivemos uma melhora significativa e estamos animados”, afirmam.
Para finalizar, sobre as expectativas do segundo semestre, eles dizem que é preocupante. “Estamos investindo para melhorar, pois sempre quando tem eleições, a tendência é de enfraquecer o mercado”.
VAREJO PAULISTA
Segundo Heber Carvalho, presidente do Sincopeças-SP, o varejo de autopeças está em franco crescimento. “Haja vista que a frota de veículos usados tem aumentado e a procura de peças para manutenção também é crescente, muito embora alguns veículos sofram com algumas peças em falta (principalmente os importados). Os resultados no varejo paulista do setor foram além da expectativa. Projeta-se com um crescimento de 10% no primeiro semestre”.
Em relação ao aumento da concessão de crédito para a aquisição de veículos novos e usados, Carvalho vê com bons olhos. “É uma expectativa de bons resultados para o setor automotivo. Quando alguém compra um carro novo, quase sempre um veículo usado também é colocado à disposição para outro alguém adquirir e esse veículo deverá passar para manutenção e reparação. Neste caso, com substituição de peças de desgastes pelo uso”.
Quanto aos impactos das eleições municipais no segundo semestre, diz ele, “acredito que o processo político municipal não venha a alterar o comércio varejista de autopeças. Quando falamos do setor, temos que identificar que são peças automotivas para veículos de passeio, caminhões e ônibus, além de peças para motocicletas, um segmento em franco crescimento”.
