Brasil tem maior taxa de imposto sobre veículos, e mais aumentos podem vir

Hoje, as fábricas operam com uma capacidade ociosa de 45%. Uma desoneração de 1% poderia aumentar a produção em 70 mil carros e de 5%, 340 mil unidades

Por: Karin Fuchs

É sabido que os impostos no Brasil diminuem a competitividade das indústrias, a geração de empregos e o consumo. Na indústria automobilística não é diferente. Por aqui, dependendo do Estado, a carga tributária chega a 44% do preço dos veículos, enquanto na China o percentual é de 5%, nos Estados Unidos, 7%, e na Alemanha, 19%. Além disso, há uma discussão em torno da inclusão do veículo no Imposto Seletivo (IS), em tempos que foram anunciados pelas montadoras o maior volume de investimentos do setor. 

Ciro Possobom, CEO da Volkswagen do Brasil, participou da última coletiva da Anfavea, no início de junho, e mostrou o quanto o País perde em competitividade. “São mais de 50 marcas de automóveis no País, o nosso setor representa 20% do PIB industrial. Em 2024, vendemos 2,18 milhões de veículos de passeio e comerciais leves, e a produção foi de 2 milhões unidades. A capacidade produtiva é de 4,2 milhões e para este ano, a previsão é de 2,3 milhões de emplacamentos. 45% de ociosidade, o que não ajuda na competitividade do nosso produto e não auxilia na parte de empregos”, afirmou. Ele lembrou que o Brasil chegou a 3,7 milhões de veículos vendidos.

“É um mercado desafiador, mas nunca se investiu tanto no Brasil, o que mostra o impacto gigante que a gente tem na economia. São R$ 130 bilhões em investimentos, trazendo novas tecnologias, novos produtos, plataformas, motores, sistemas de eletrificação, muito focado em descarbonização não só de veículos, mas em plantas para deixar toda a cadeia melhor no sentido de redução de carbono. Na Volkswagem o investimento é de R$ 16 bilhões, com 16 novos produtos, mas também em plataformas novas, sistemas de eletrificação novos. Desde a concepção do carro até exportações, muitos carros aqui são feitos na (planta de) Anchieta e exportados para a Europa”.

O peso dos impostos

Como posto no início, dependendo do Estado, a carga tributária chega a 44% do preço dos veículos. “Por isso o mercado hoje é de 2,3 milhões de veículos no País, o que poderia ser muito maior com uma desoneração fiscal. Estamos discutindo o IVA, que a princípio está ficando em 26% e tem a discussão sobre como ficaria o Imposto Seletivo, o quanto ele será”. Imposto Seletivo (IS) que o setor é totalmente contra para veículos.

Ao contrário, uma desoneração já traria impactos na produção e nas vendas. “Se conseguíssemos desonerar um pouco essa cadeia e o carro ficar mais barato, com certeza, o mercado vai crescer muito mais e vai gerar muito mais empregos e impostos para o Brasil. Se conseguíssemos uma desoneração de 1%, a produção poderia crescer em até 3% ou 70 mil carros. Se fosse de 5%, poderia aumentar em 340 mil carros”, expôs Possobom.

Ao contrário, o aumento do imposto dificulta o acesso da classe média ao consumo. “E como temos uma taxa de juros para o financiamento de veículo que gira em torno de 25% ao ano, uma das maiores do mundo, cada vez que o preço fica mais caro, o impacto com a taxa de juros fica mais difícil as vendas de veículos. Além disso, a incidência do IS sobre híbridos também onera as novas tecnologias que vão combinar com o biocombustível”.

Segundo ele, é preciso haver um equilíbrio entre tecnologia e o mercado. “O preço médio do carro no Brasil é em torno de R$ 150 mil, toda vez que coloca mais segurança, mais conectividade e mais eletrificação, mais tecnologia, mais impostos, tudo ligado à inovação, esse carro vai ficar mais caro”.

Possobom também falou sobre a taxa de importação. “De janeiro a maio desse ano, importamos 45,7 mil veículos, isso representa uma renúncia fiscal de R$ 2,2 bilhões, 3,5 vezes mais do que os incentivos ao programa carro popular. Se pegar esse dinheiro todo e colocar na indústria nacional, a gente pode aumentar em quase 340 mil carros (produção) no Brasil. Nós como Volkswagem somos claros no pedido da volta dos impostos de importação, que está acontecendo no mundo inteiro, os Estados Unidos subindo para 100% e a Europa para mais de 30%. O Brasil tem essa escalada, indo para 35% somente no segundo semestre de 2026. Pedimos que volte os 35% e estimular a indústria nacional que tem muito potencial para fazer mais carros aqui”.

Renovação da frota de pesados

Marcio Querichelli, presidente da Iveco para América Latina, também participou da coletiva para falar sobre o segmento de pesados. “O setor de transporte é de extrema importância para o Brasil, o modal rodoviário representa 65% do transporte de cargas em território nacional. O momento do segmento de pesados e extrapesados é bastante positivo, registrando agora, um crescimento de 27% (nas vendas) no acumulado de janeiro a junho”.

Mas a produção está aquém do que foi no passado. “A média anual de produção, de 2010 a 2014, foi de 180 mil unidades. Para este ano, mesmo com o crescimento no segmento de pesados, a projeção que fazemos junto à Anfavea é de 133 mil unidades. Isso significa que temos um potencial bastante interessante a ser explorado. Segundo nossos estudos, um volume de produção e comercialização na ordem de 200 mil unidades é o que almejamos como indústria. Esse é o potencial que queremos definir como próximo patamar e, a partir daí, seguir com crescimento sustentável. A gente acredita ser totalmente possível de ser retomado”.

Querichelli defendeu também a necessidade de renovação da frota. São mais de 2 milhões de caminhões rodando no País. 500 mil tem mais de 25 anos de uso. “A renovação da frota é a maior oportunidade de descarbonização para o setor de transporte no nosso País. Houve uma melhoria, mas ela não pode ser comparada a um programa de renovação de frota que tem como premissa retirar um veículo que basicamente é Euro zero e emite uma quantidade de fumaça bastante grande. Essa é a grande pegada e estamos trabalhando muito forte com a Anfavea e com o Governo Federal para criar mecanismos para viabilizá-la do ponto de vista econômico e de meio ambiente; fazer de fato isso sair do papel e ganhar escala. Temos uma expectativa muito grande para que a próxima fase do programa de renovação da frota aconteça nesse segundo semestre”, finalizou.

Compartilhe