A dica de Ricardo Haag, sócio da Wide, é compor um conselho que tenha pelo menos uma pessoa do mercado e não apenas profissionais de dentro de casa
Por Karin Fuchs
Formar um bom conselho administrativo ou consultivo é estratégico nas empresas para a tomada de decisões. Segundo a pesquisa “Pratique ou Explique: Análise Quantitativa dos Informes de Governança”, cerca de 65% das companhias aderiram, em 2023, a boas práticas de governança – uma das tarefas mais importantes que estes talentos são responsáveis nesta função.
Ricardo Haag, sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção, esclarece que é primordial que o conselho seja formado por executivo/empresários que, verdadeiramente, acreditem na causa e missões buscadas pela organização, assim como busquem por profissionais com visões distintas que se contraponham às suas, visando gerar uma maior pluralidade de ideias que possam ser implementadas. Confira!

Balcão Automotivo – Como formar o conselho administrativo ou consultivo?
Ricardo Haag – A composição de executivo/empresários e de profissionais com visões distintas é o que formará um conselho de verdade, e não em um que apenas cumprirá tabela ou que demonstrará mais interesses comerciais do que corporativos. Estes membros devem ter um alto nível de maturidade neste sentido, assim como uma genuína vontade de evoluir individualmente quanto coletivamente, dispondo de um intenso olhar crítico sobre as operações, flexibilidade para mudar as estratégias, caso preciso, e estar disposto a unir forças com todos os membros da empresa nessa trilha.
BA – Segundo o IBGE, 90% das empresas no Brasil têm perfil familiar e muitas delas ainda não têm uma gestão profissional. Em qual momento elas devem investir nesse perfil de gestão para se manterem competitivas e no mercado?
RH – Muitas vezes, as empresas familiares limitam suas operações conforme a capacidade do empresário, comandam o negócio da forma que querem, o que pode impedir que alavanquem seus processos. O ideal é que esses donos tenham uma virada de chave importante nesse sentido, compreendendo que podem contratar executivos ainda melhores para transformar o negócio e conquistar resultados ainda melhores. Ou seja, é melhor ser dono de um negócio grande e rentável, contando com a ajuda de um executivo, do que centralizar e limitar as operações dentro de sua própria capacidade.
É um momento tênue de tomada de decisão, e difícil de o empresário exercer esse desapego. Minha recomendação é manter o radar sempre ligado, avaliando os profissionais do mercado e as melhores práticas que estão sendo tomadas, assim, ficará mais fácil enxergar o momento adequado de investir nessa profissionalização.
BA – Muitas vezes o fundador insiste que os herdeiros devem ser os seus sucessores. Quais dicas podemos dar para eles perceberem se os seus herdeiros são ou não as melhores opções?
RH – É importante ter claro em mente que ser herdeiro não é sinônimo de ser um bom executivo, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Minha dica é envolver os herdeiros na operação, na capacitação oferecida pela empresa, e fazer uma análise bem minuciosa sobre seu desempenho e potencial ao longo do tempo, sem nenhum apego.
A ideia é avaliar se ele possui as características, habilidade e potencial precisos para exercer uma boa função executiva. Se não demonstrar essa compatibilidade, será preciso buscar por um outro profissional no mercado que atenda a essas necessidades e expectativas.
BA – Quais dicas podemos dar para eles detectarem talentos nas suas empresas para formarem o conselho administrativo?
RH – Muitas empresas familiares com empresários centralizadores acabam tendo uma equipe pouco desenvolvida e que acaba apenas executando as ordens do dono. Nesse cenário, é difícil ter uma boa margem de sucessão ou talentos se desenvolvendo lá dentro. Porém, se pensarmos em uma empresa que, de fato, desenvolve seus talentos, para assumir este cargo no conselho, a pessoa precisa já ter assumido alguma posição diretiva internamente.
Com isso, essa decisão acaba acontecendo de forma natural, uma vez que não tem como ‘forçar a barra’ nesse sentido. Normalmente, acaba sendo um executivo que já esteja em uma fase mais avançada em sua carreira e que, talvez, não tenha mais tanto interesse de uma cadeira executiva a tempo integral, acabando, naturalmente, se encaixando mais em uma posição de conselho, onde a experiência e histórico andam juntos.
BA – O conselho independe do porte da empresa?
RH – Não há uma regra específica sobre isso. Mas, em minha opinião, independentemente do porte da empresa, um conselho de administração pode ser muito útil, desde que os empresários / executivos estejam abertos a ouvir os conselhos destes conselheiros, assim como a implementar melhores práticas nesse sentido. Na prática, isso faz com que a validade de um conselho esteja muito mais conectada com a forma na qual os executivos querem aproveitar essa experiência, do que o tamanho da empresa em si.
BA – Em qual momento os empresários devem buscar profissionais de fora para o conselho administrativo?
RH – Em minha opinião, todo conselho deveria ter, pelo menos, uma pessoa do mercado para compor seus membros. Ter um conselho apenas com profissionais que se desenvolveram dentro de casa acaba tornando-o pobre. Afinal, seus membros terão a mesma visão, ponto de vista e experiência.
Um bom conselho precisa ter diversidade de visões, opiniões e estratégias, o que está diretamente relacionado com a vinda de profissionais de outros lugares, com experiências e visões distintas, assim como um conhecimento muito útil capaz de desenvolver o negócio e as pessoas como um todo.
BA – Finalizando, o quanto uma consultoria ajuda em todos esses processos?
RH – Uma consultoria é absolutamente importante nesse processo. Uma de recrutamento de executivos, neste caso, irá ajudar, de uma forma competente e imparcial, a acessar profissionais com vivências e experiências que contribuam muito para a organização. O fato de ela não ser vinculada a nenhum laço familiar ou relações pessoais contribui para que seu foco seja entender o perfil que mais irá contribuir para o crescimento da empresa para que, com isso, encontre este talento no mercado.
Além disso, uma consultoria de gestão estratégica e governança também terá um trabalho muito relevante nesse sentido, sensibilizando a liderança e desenhando a governança necessária para ter um conselho de administração ou consultivo com eficiência. No final, contar com este apoio externo e de profissionais experientes e especializados no seu tema, sempre será relevante para as empresas.