Uma história que revive os tempos de abertura de mercado externo no governo Collor

No livro ‘O Primeiro Carro Importa’, Reginaldo Regino, importador da marca BMW, retrata um período em que a comunicação com matrizes no exterior era completamente precária e que transformou a cultura dos brasileiros por carro

Por: Karin Fuchs

Autor do livro O Primeiro Carro Importa, lançado pela Matrix Editora, o empresário e engenheiro civil, Reginaldo Regino, relata um marco da indústria automobilística: a abertura das importações promovida pelo governo Collor, na década de 1990. Na época, Regino tinha uma concessionária Chevrolet e foi nomeado pela BMW para representá-lo no Brasil, sendo pioneiro na importação e distribuição da marca no País e revolucionando o mercado brasileiro.

Nesta entrevista ao Balcão Automotivo, ele contou como foi essa história detalhada no seu livro, as características do mercado na época, a mudança de cultura na preferência dos brasileiros por carros e traçou um paralelo entre veículos elétricos e a indústria da aviação.

Balcão Automotivo – Como vocês se tornaram representantes da BMW no Brasil?

Reginaldo Regino – Um amigo de um primo da minha esposa trabalhava na BMW. Eles estavam sem e procurando um importador no Brasil para trazer carros para as embaixadas. Naquela época, pouco antes da abertura em 1990, somente as embaixadas podiam adquirir veículos importados. Começamos a negociar com a BMW em 1988 e naquela época éramos concessionário Chevrolet. Foi uma oportunidade! 

BA – Vocês já tinham uma comunicação diferenciada, com a RegiNotícias, uma mala-direta com informações automotivas e dica, e um serviço Leva e Traz, que oferecia transporte confortável aos clientes até a oficina. Tudo isso pesou na decisão da BMW?

RR – O que nos ajudou a sermos nomeados pela BMW foi justamente o que fazíamos com a RegiNotícias, com o serviço Leva e Traz e com a F1. A gente fazia vários eventos, propagandas e uma parte comercial forte no dia a dia. O nosso forte não era fazer anúncios no jornal, o que era o forte naquela época, havia páginas e mais páginas de classificados, era assim que se vendia carros.

A gente foi para outro caminho, usamos como benchmarking a Dacon (referência em São Paulo), que na época era super elitista, representante da Porsche. Fomos mais para o caminho do corpo a corpo, fizemos cursos de mecânica para mulher e todos os domingos que tinha F1, nós fazíamos um café da manhã para os clientes com ‘telão’. O pessoal da BMW viu que éramos diferentes e isso nos ajudou a sermos nomeados. Eu tinha 30 e poucos anos na época e só quatro anos de experiência em automóveis. Fomos nomeados concessionário Chevrolet em 1986.

BA – Como foi a aceitação da BMW pelo consumidor brasileiro?

RR – Na época, como a importação estava fechada, a Mercedes-Benz trazia 100 carros por ano para as embaixadas e a BMW, 1 ou 2 carros. O produto da Mercedes-Benz era muito superior ao da BMW, que começou a evoluir a sua linha, atrasada da concorrente. A série 3, lançada em 1991, foi um sucesso mundial da BMW. Era estar no lugar certo, na hora certa e veio o produto certo. Todo mundo queria esse carro e a BMW virou concorrente da Mercedes-Benz.

BA – O carro era personalizado para o público brasileiro?

RR – As montadoras não têm carros prontos, elas fabricam para você, importador, concessionário, com o que você acha que vai vender. Os carros que pedíamos eram para o gosto do brasileiro, como era um carro caro, não gosta da palavra de luxo, pois não é de luxo, é um carro de performance, a gente pedia com ar-condicionado, air bag, freios nas quatro rodas e tudo o que tinha direito. A gente montava o carro para o gosto do brasileiro.

BA – Naquela época, a preferência do brasileiro era por carros mecânicos, como foi essa mudança?

RR – Todos os carros brasileiros eram mecânicos, nos anos de 1980 e mesmo na década de 1990. O brasileiro não usava carro automático. Pensando nisso, cheguei à conclusão de que os carros no Brasil eram baseados nos europeus, Volkswagen e Chevrolet, que apesar de ser americana, fabricava aqui os carros da Opel, alemã, havia a Fiat e o europeu não era adepto na época ao carro automático. Já os americanos gostavam dos automáticos.

O Brasil tinha duas coisas. Além do carro mecânico, o brasileiro não gostava de carro de quatro portas porque achava que fazia barulho e que era perigoso, o que era, pois não havia a trava para crianças. O Brasil tinha, vamos dizer assim, essas duas restrições. Tanto que o Brasil produziu a perua Opala, a Chevrolet Caravan, com duas portas. O que é um absurdo. Foram duas coisas que com a chegada dos importados acabou mudando a cultura, a preferência por quatro portas e pelo carro automático, com o trânsito piorando muito. Além disso, antigamente, o carro automático gastava muito mais gasolina do que o mecânico, o que foi uma barreira também.

BA – Havia também uma questão de preço, comparando o mecânico ao automático?

RR – Os primeiros carros importados eram muito caros, o imposto era de 85% e aqui custavam quase quatro vezes mais do que lá fora, mas o cliente do carro importado sabia o que era o carro automático, conhecia dos Estados Unidos. A gente trazia carro mecânico e não vendia, todo mundo queria o automático.

No carro importado, a diferença de preço do mecânico para o automático era muito pouca, no carro nacional era muita. Isso porque lá fora tinha volume de venda de carro automático e no Brasil, muito pouco. Quanto maior o volume, menor o custo. Hoje, carro automático e quatro portas virou praticamente uma unanimidade.

BA – Por quanto tempo foram importadores da BMW e qual foi o volume vendido?

RR – Fomos importadores da BMW até 1995 (quando passou para a BMW do Brasil) e foram cerca de 6 mil carros vendidos. Na época, a BMW fabricava 330 mil por ano e os 6 mil representaram 2% da sua produção. Hoje, ela fabrica 3 milhões e o Brasil vende 12 mil, ou 0,5%. Proporcionalmente, eram muitos carros, sendo que hoje ela tem fábrica no Brasil.

BA – Traçando um paralelo entre os anos de 1990 e os dias de hoje, quais são as dificuldades para importar no Brasil?

RR – Acho que os desafios são os mesmos. O Brasil é um País muito difícil para importar, muito complicado, muito burocrático, tudo atrapalha. Naquela época, mais um pouco do que hoje, pois ninguém sabia como fazer, pois o País ficou fechado para a importação por 15 anos. Eu fui aprender com o pessoal de trade, sentava e me ensinavam como importar. Hoje, as empresas já sabem como fazer, têm o know how, e naquela época não tinha computador.

Eu fazia uma guia de importação na máquina de escrever. Não tinha internet, era na base do fax, mesmo com a Chevrolet, era com telex. Eu tinha uma secretária que não falava inglês e a minha comunicação era toda em inglês com a BMW. Eu fui criado nos Estados Unidos quando pequeno, tenho inglês fluente, o que foi uma das coisas que me facilitou para a importação da BMW. Como as ligações telefônicas eram muito caras, tínhamos um acordo com a BMW de nos comunicarmos inicialmente por fax e finalizarmos por telefone. Uma das grandes dificuldades, naquela época, era a comunicação. Hoje é outro mundo, é tudo instantâneo.

BB – Quais foram seus próximos passos depois de representar a BMW?

RR – Eu fui concessionário Chevrolet, Rolls-Royce, Ferrari, BMW e por pouco tempo, importador da Hyundai, entre o Garavelo (primeiro importador da Hyundai no Brasil) e a CAOA. Da Chevrolet até 2005, quando vendi e fui para outro ramo, onde fiquei dez anos. Hoje sou aposentado, cuido das minhas coisas e escrevi o meu livro.

BB – Como engenheiro civil, o senhor atuou na área?

RR – No começo sim, eu fiz estágio, fiz sobrados para vender e tive uma firma de concreto aparente. Quando eu me formei em 1980, eu já era casado, tinha dois filhos, e estava muito difícil a engenharia civil, pois os anos de 1980 foi a década perdida. O meu pai era distribuidor da cervejaria Skol e depois da Brahma e eu fui trabalhar com ele. Mesmo com ele, eu construía sobrados e casas para vender.

BB – Finalizando, na nossa entrevista, o senhor fez um paralelo entre o veículo elétrico e a indústria da aviação. Como é esse comparativo?

RR – Eu comparo o carro elétrico com a indústria da aviação. O quanto o avião evoluiu em 110 anos é um absurdo. Em 1901, Santos Dumont deu a volta na torre Eiffel com o 14-Bis. Hoje, os aviões levam até 800 passageiros, foi muito rápido, um negócio muito grande e dividido em duas partes: o avião, mas ele não é nada se não tiver os aeroportos, a infraestrutura. Além de fazerem os aviões em 110 anos, foi feita toda a infraestrutura. Com o carro elétrico será a mesma coisa: o carro e a infraestrutura. A infraestrutura será feita para o carro elétrico e ele vai evoluir. Acho que em 20, 30 anos, isso será uma realidade. Hoje, o carro elétrico é um ótimo negócio para motoristas de aplicativos que moram em casas e têm os carregadores, para quem mora em prédio, ainda é um empecilho. Imagina 50 carros sendo recarregados ao mesmo tempo. 

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