A urgência da transformação digital na cadeia de manutenção automotiva

Apesar de avanços nos últimos anos, segmento ainda precisa avançar para alcançar maturidade tecnológica plena e atender demandas de consumo de forma diferente por outros canais

Por Iago Átila 

O setor automotivo, como um todo, opera em um cenário de contrastes quando pensamos na corrida pela digitalização que avança em toda a economia. Há pouco mais de 5 anos, por exemplo, o Índice CESAR apontou que mais de 65% das empresas do segmento ainda estavam longe ou muito longe da transformação digital. O contexto de pandemia fez avançar esse cenário e, em 2022, a mesma pesquisa indicou crescimento de 8% na maturidade tecnológica do universo automotivo.  

Esse cenário é impulsionado, dentre outros fatores, pela expansão do uso de dados e da inteligência artificial no mercado. Em relação a IA, por exemplo, uma projeção da consultoria Grand View Research destacou que, até 2030, espera-se um aumento 23,4% nos investimentos em tecnologias de inteligência artificial na indústria automotiva – já em 2024, mais de US$ 4,2 bilhões foram investidos globalmente.   

No entanto, enquanto a indústria automotiva global se organiza em torno da conectividade, do uso estratégico de big datas informacionais valiosos, da inteligência artificial e de novas cadeias de abastecimento mais eficientes, uma parcela relevante de toda a cadeia de autopeças e manutenção no Brasil mantém sua tradição operando no modelo de canais analógicos. 

É comum ver empresas do segmento com desafios na gestão de portifólio de produtos e estoque, na precificação assertiva de produtos, e uma ausência de familiaridade e de profundidade no uso de ferramentas tecnológicas. Essa resistência custa caro — em eficiência, em relacionamento com o cliente e, principalmente, em oportunidades perdidas. 

Um estudo recente da Salesforce reforça esse ambiente, com apenas 26% das fabricantes de equipamentos originais e 23% dos varejistas realmente afirmando que estão adaptados ao ecossistema de vendas online. 

A consequência disso é um descompasso: oficinas e varejistas que já operam com ferramentas de gestão integradas, e-commerce e uso de dados em tempo real abrem janelas potenciais de crescimento, enquanto os demais se isolam num modelo de negócio que se torna obsoleto mais rápido do que conseguem perceber. 

Não por acaso, a pesquisa da Salesforce também frisa que, para 93% dos entrevistados, o uso de dados – como interação no site, apps e histórico de compras e uso de serviços – podem otimizar a experiência dos consumidores. E, como sabemos, em tempos de hiperpersonalização, experiências positivas são pontes para mais vendas e crescimento. 

Um panorama da digitalização na manutenção automotiva 

O varejo de manutenção automotiva não está apenas diante de uma onda tecnológica — a digitalização é uma das bases essenciais do ambiente de negócio contemporâneo. Nesse sentido, a questão não é mais “se” vai digitalizar, mas “quando” — e, para muitos, o tempo já começou a se esgotar.  

Olhando pelo prisma positivo, internacionalmente, a digitalização dos serviços de manutenção automotiva já é uma tendência consolidada nos mercados globais, conforme apontado no estudo Global Automotive Aftermarket Trends, da BusinessWire. O relatório destaca ainda o papel das novas tecnologias na abertura de novas fontes de receita e a ascensão dos canais digitais como vetores de novas vendas que melhoram ainda os processos de precificação e de relacionamento com clientes. 

Também graças a esse panorama, a expectativa é que o mercado de manutenção e reposição automotiva movimente mais de US$ 559 bilhões até 2030 em todo o mundo. 

Em contrapartida, o varejista que ainda consulta catálogos em papel, não utiliza inteligência e dados para prever o giro de estoque ou não possui sequer uma presença digital básica, está jogando contra si mesmo.  

A tecnologia atual permite precificar dinamicamente, ajustar logística com base em dados reais de demanda e histórico de manutenção, e antecipar necessidades do cliente com auxílio de inteligência artificial. Mas não se trata apenas de usar IA e os dados como recursos adicionais. Trata-se de redesenhar a lógica dos negócios e entender que os dados de consumo e manutenção do cliente são ativos tão valiosos quanto a peça vendida no balcão.  

Quem compreende isso já não pensa apenas em vender, mas em reter e potencializar experiências. Já não depende da sorte, mas de análise preditiva. E mais: passa a competir com mais inteligência, menor custo e mais presença digital. 

Para tanto, há uma resistência cultural que precisa ser vencida e que passa, inclusive, pelo entendimento dos avanços em segurança da informação no ambiente digital. Hoje, já é possível contar com soluções, marketplaces e ecossistemas que apoiam o varejista a se destacar no universo online dispondo de recursos avançados de criptografia e cibersegurança para proteger, por exemplo, os dados de consumidores e as interações em canais virtuais.  

Com isso, entende-se o quão importante é para a empresa se atualizar. A tecnologia não veio tirar espaço do modelo de vendas tradicional — veio dar a ele um novo território de crescimento, relacionamento e abertura de novas possibilidades comerciais que já estão construindo uma nova cadeia automotiva. 

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