BA | 234 O efeito dominó do conflito no Oriente Médio

A alta de preços nos combustíveis e componentes afeta o consumo de frotistas e consumidores, que adiam suas compras de serviços de reparos e acessórios. O conflito implica, ainda, aumento no custo de reposição

Em 28 de fevereiro, quando Israel e Estados Unidos começaram uma guerra contra o Irã, o mundo presenciou o início de mais um conflito que traria consequências para a economia global. Com a interdição do Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento do petróleo, o preço do barril disparou provocando um efeito dominó não somente no preço dos combustíveis – diesel e gasolina –, mas em toda a cadeia produtiva global, incluindo o setor de autopeças no Brasil.

Segundo Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças, o setor de autopeças deve acompanhar eventual desaceleração do setor automotivo em 2026. “As instabilidades geopolíticas têm trazido incertezas para todo o mundo. Na primeira revisão do ano, que deve ocorrer em abril, nossas previsões de crescimento poderão ser alteradas. Porém, ainda não podemos afirmar o que será revisado”, afirmou.

Para a indústria de autopeças, o ano começou com uma recuperação de 21% do faturamento real em janeiro, reflexo de uma base mais fraca em dezembro, e comparado a janeiro de 2025, houve queda de 6,5%. “Por enquanto, nossa área de Economia mantém as previsões para o ano fechadas em dezembro passado: crescimento de 4% no faturamento do setor em 2026 sobre 2025 – para R$ 286,8 bilhões. Quanto aos investimentos, nossa estimativa é de R$ 6,6 bilhões, mesmo valor de 2025”, informou Cláudio Sahad.

As instabilidades geopolíticas têm gerado incertezas
globais. Na primeira revisão do ano, prevista para abril,
nossas projeções de crescimento podem ser ajustadas —
mas ainda é cedo para afirmar em que direção”
Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças

Desabastecimento

Na análise do economista Fauzi Timaco Jorge, não se descarta o risco de desabastecimento de componentes essenciais. “Há um encarecimento de frete, com repercussões na logística de peças, aumentando os custos para oficinas e distribuidores. A alta de preços nos combustíveis e componentes afeta o consumo de frotistas e consumidores, que adiam suas compras de serviços de reparos e acessórios. Além disso, não se descarta risco de desabastecimento de componentes essenciais, por problemas de logística e suprimento de matérias-primas. É, portanto, um tempo de observação dos próximos acontecimentos, com muita atenção ao fluxo de caixa do negócio”, alertou.

Da mesma forma, comentou Rodrigo Carneiro, presidente da Andap. “Pode haver algum desabastecimento, considerando que grandes produtores transferiram suas plantas para países como China, Índia e outros centros. E quando pensamos em condutores/placas eletroeletrônicas e as dificuldades logísticas causadas pelos conflitos, custos e rotas poderão causar rupturas. O nosso mercado não se caracteriza pela geração de demanda e não operamos com especulação. Mesmo assim, por vezes, não reagimos pragmaticamente e/ou subordinados à lei de oferta e demanda. Recomendo e vou insistir que todos tenham sempre ‘à vista’ qual será o custo de reposição amanhã e adequar suas estratégias de precificação a uma nova ordem mundial e a uma situação muito delicada de nosso querido Brasil”, afirmou.

Além dos juros altos e a instabilidade econômica em ano de eleições, Cláudio Sahad disse que há elevação de custos provocada por guerras, com escassez de combustível e de outros insumos e o consequente aumento da inflação. “São todos problemas que estão fora de nosso poder de atuação e que nos atingem diretamente, tanto como empresários, quanto como cidadãos. No caso do setor automotivo, soma-se ainda o expressivo aumento das importações de veículos e de autopeças da China, roubando mercado dos fabricantes nacionais. Definitivamente, o ano de 2026 não será fácil”, previu.

Reflexos

Questionado se o conflito no Oriente Médio, envolvendo em especial os Estados Unidos, Israel e Irã, representa uma crise, mas também uma oportunidade, Fauzi Timaco Jorge respondeu que “por um lado, repercussões negativas sobre o abastecimento de petróleo, sabidamente uma commodity de ampla utilização no universo de insumos industriais, pode provocar uma elevação no preço do produto. No entanto, como vimos acontecer nos choques da década de 1970, uma alta no preço pode estimular a produção mundial e, por extensão, também aqui no Brasil. Outra importante constatação diz respeito ao aumento da demanda por veículos elétricos ou mesmo híbridos, principalmente, por heavy users, ou seja, por aqueles que dependem em grau elevado dos seus veículos para a execução de suas tarefas básicas”, analisou.

Na visão de Rodrigo Carneiro, “o impacto desta triste guerra, como ainda o conflito no Leste Europeu e os históricos problemas que envolvem Israel e o Hezbollah, altera toda a geopolítica econômica e a relação entre os mercados. Acrescentese a isto o efeito ‘Trumpismo’ quebrando todas as práticas do multilateralismo e o cenário pode ser catastrófico. Não se aplica aqui uma discussão apenas sobre a distribuição de autopeças, mas sobre todas as cadeias produtivas, com os custos de produção e distribuição fortemente inflacionados”, afirmou

Inflação e pressão nos preços

Com a pressão nos preços, alguns setores sentirão mais do que outros. “No agronegócio, insumos importados, como fertilizantes e, parcialmente, o diesel, podem provocar sensível aumento nos custos de produção. Para contornar estes efeitos negativos, o Governo se vale de redução ou mesmo eliminação integral de tributos sobre tais insumos e, no caso do IPCA, que é o medidor oficial da inflação brasileira, o monitoramento sobre outros componentes deste índice pode contrabalançar tais aumentos de preços. A rigor, este monitoramento responde por praticamente um quarto da flutuação de preços, para cima ou para baixo, em preços básicos como transporte urbano, energia elétrica, combustíveis e outros”, descreveu Fauzi Timaco Jorge.

Ele falou também sobre as repercussões de uma queda acentuada no câmbio, ou seja, uma valorização da moeda nacional, como vimos acontecer no período recente, sobre o nível da taxa de juros básica da economia, a taxa Selic.

“Desde 2016, o Banco Central deixou de utilizar a política monetária como suporte ou anteparo da política cambial. Assim sendo, o câmbio varia, desde então, em função do volume de entrada e saída de moeda estrangeira. Como vimos acontecer no período recente, há uma atração especial do capital estrangeiro por papéis brasileiros, como ações e títulos da dívida pública. Esta entrada acentuada de dólares implica em apreciação – também conhecida por valorização – do real, ou seja, menos unidades de real por unidade de dólar, em pouco mais de três meses, quando saímos de R$ 5,50 em 31/12/2025 para R$ 5,08 em 08/04/2026. Isso barateia as importações, mas desestimula as exportações, cujos preços terão que ser renegociados, tanto pelo aumento dos custos de produção como pela perda de rentabilidade na exportação. Quanto à taxa de juros Selic, certamente o Copom do Banco Central levará em consideração tais fatores nas suas próximas reuniões”, afirmou.

Para finalizar, Rodrigo Carneiro contou que o câmbio, de forma geral, traz outro componente, além do cenário já anteriormente descrito. “O movimento GAMA ou Great América Again e a decisão clara do presidente Donald Trump de baixar o valor da moeda americana como estratégia de atrair investimentos na produção dentro do território americano. Isto, se bem explorado, pode ser positivo para os países em desenvolvimento e, particularmente, para o Brasil, grande produtor de autopeças”, concluiu.

Barril de petróleo

Cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito (GNL) global transitam pelo Estreito de Ormuz, em uma passagem estreita de menos de 40 km, entre o Irã e Omã. Desde o início do conflito, no final de fevereiro deste ano, o petróleo Brent subiu mais de 40% a 49,2%, ultrapassando a marca de US$ 100/barril, em vários momentos do conflito. Inicialmente em fevereiro, antes do conflito, as previsões aprontavam para um preço médio de US$ 60/barril. Para o segundo trimestre, a EIA (U.S. Energy Information Administration) projeta um patamar de US$ 115/barril, com queda gradual no final do ano.

Recorde e dependência

Em 2025, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), o Brasil bateu recorde nacional de produção de petróleo, com a marca de 3,77 milhões de barris por dia, consolidando-se como um grande exportador de petróleo bruto. A Petrobras tem reservas de petróleo para quase 13 anos. Por outro lado, o Brasil é dependente da importação de derivados, chamados de combustíveis refinados.

A produção brasileira de diesel atende a cerca de 70% a 80% da demanda nacional. Em 2024, o País importou 103,2 milhões de barris de petróleo, ou cerca de 280 mil barris por dia, principalmente da África (40%) e do Oriente Médio (23%). A autossuficiência de diesel é planejada pela Petrobras até 2031.

Alta dos combustíveis

No mês de março, a inflação (IPCA) atingiu 4,14% ao ano, impulsionada pelo aumento dos combustíveis, óleo diesel (13,9%), da gasolina (4,59%) e do etanol (0,93%). Enquanto o preço médio do diesel passou de R$ 6,04 para R$ 7,09 de março para abril, no mesmo período, o litro da gasolina variou de R$ 5,99 para cerca de R$ 6,38, em média.

Para conter a alta dos combustíveis, o Governo Federal anunciou um pacote de medidas, que incluem: o aumento da mistura de etanol na gasolina de 30% para 32% e a subvenção do diesel nos meses de abril a maio deste ano, de R$ 1,20 no ICMS do diesel importado e R$ 0,80 no produzido no Brasil. E, ainda, a isenção de impostos federais sobre o biodiesel, subvenção ao gás de cozinha e ao querosene de aviação e linhas de crédito para o setor aéreo.

Inflação e Selic

No mês de março, a inflação oficial (IPCA) registrou alta de 0,88%, acelerando em relação a fevereiro (0,70%) e acumulando 4,14% em 12 meses, pressionada por alimentos e serviços. Para o final deste ano, o mercado financeiro elevou de 4,36% para 4,71% a inflação no País, impactando o consumo das famílias e acima da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual, para até 4,5%.

Para a taxa Selic, o mercado financeiro manteve a projeção de 12,50% ao ano, com uma expectativa de redução gradual para 2027 e 2028, de 10,50% e 10,00%, respectivamente, segundo o Boletim Focus, do Banco Central. O Banco Central manteve a projeção de crescimento do PIB em 1,6% para este ano, mas o resultado pode ser impactado pelo prolongamento do conflito no Oriente Médio e pelo aumento da inflação. Já para o dólar, a previsão é de R$ 5,37 no final do ano.

Compartilhe