O aumento da mistura do etanol na gasolina está sendo questionado na Justiça, enquanto combustíveis adulterados podem gerar prejuízos ao consumidor
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) autorizou o aumento da mistura do etanol na gasolina de 30% para 32%, passando a valer a partir de 1º de agosto.
Impactos
A mistura de 32%, de acordo com Juliano Caretta, supervisor de Treinamento Técnico e especialista da DRiV™, detentora da Champion®, não existe uma resposta única para todos os veículos. “O comportamento depende da tecnologia empregada, da capacidade de adaptação do gerenciamento eletrônico e, principalmente, das condições de manutenção. Por isso, qualquer avaliação deve considerar as características específicas de cada aplicação”, explicou.

Isso porque, quando aumenta a participação do etanol na mistura, a combustão pode responder de formas diferentes conforme o projeto do motor e os recursos eletrônicos disponíveis para gerenciar seu funcionamento. Há de se considerar também os veículos flex — que operam com diferentes proporções de gasolina e etanol — e os modelos movidos apenas a gasolina. Além disso, a eficiência da combustão depende do perfeito funcionamento do sistema de ignição, e anomalias no motor requerem investigação técnica.
Como explicado por Juliano Caretta, “a identificação da origem de eventuais alterações no funcionamento do veículo requer uma análise técnica abrangente, que considere as características do combustível, o sistema de ignição, a alimentação, o gerenciamento eletrônico e as condições mecânicas do motor. Somente a avaliação conjunta desses fatores permite um diagnóstico preciso e compatível com as recomendações do fabricante”, orientou.
Combustível adulterado
Gerson Cunha, gerente de Operações Corporativo da Royal FIC, disse que “o uso de combustível adulterado pode causar perda de potência, danos ao motor, à bomba de combustível e aos bicos injetores, além de reduzir o desempenho do veículo, aumentar o consumo de combustível e gerar custos elevados de manutenção”, pontuou.
Com base na Cartilha do Posto Revendedor de Combustíveis da ANP, 7ª edição, de maio de 2026, o executivo especificou quais são as principais adulterações e não conformidades constatadas nos combustíveis:
Gasolina: “A não conformidade mais comum na gasolina é provocada pela adição excessiva de etanol anidro combustível, sendo detectada pelo ensaio de teor de etanol anidro combustível – teste da proveta”.
Etanol combustível: “A maioria das não conformidades verificadas no etanol hidratado combustível está relacionada ao teor alcoólico, detectado com a verificação da massa específica e da temperatura, e à condutividade elétrica, que podem ser ocasionadas pela contaminação ou adição de água ou de outro produto aquoso”.
Óleo diesel: “As principais não conformidades são teor de biodiesel, pela adição incorreta do percentual estabelecido na legislação; ponto de fulgor, devido à contaminação com produtos mais leves, como a gasolina ou o etanol combustível; teor de enxofre, pela contaminação do óleo diesel B S10; e aspecto, por eventual contaminação, presença de água livre ou problemas no sistema de filtragem”.
Teste
Entre os principais testes, o teste de proveta é o mais utilizado nos postos de combustíveis para verificar o teor de etanol presente na gasolina. “O teste da proveta é concluído em aproximadamente 15 minutos. Nesse período, são realizadas todas as etapas necessárias, como a coleta da amostra, a realização do teste e a análise do resultado”, afirmou Gerson Cunha.
Ele acrescentou que, embora menos frequente, também pode ocorrer adição indevida de metanol tanto na gasolina quanto no etanol. “O metanol é um álcool extremamente tóxico à saúde humana, podendo causar cegueira, irritação das mucosas e até mesmo a morte. A detecção do metanol pode ser realizada por testes colorimétricos disponíveis comercialmente, embora seu uso pelos postos revendedores não seja obrigatório”, explicou.
Questionado acerca do por que a informação sobre testes de qualidade no posto antes de abastecer não é tão divulgada, o executivo respondeu: “A Royal FIC oferece todo o suporte necessário aos seus parceiros, incluindo treinamentos sobre a qualidade dos combustíveis. O objetivo é garantir que as equipes estejam preparadas para atuar da forma correta no dia a dia. Com esse trabalho, a empresa reforça seu compromisso com a qualidade, a transparência e a confiança em toda a sua rede de parceiros”, finalizou.
BOX
Análise do especialista
De acordo com o empresário Paulo Cézar da Silva, da Imperial Auto Center, localizada em Várzea Grande (MT), “o aumento de 30% para 32% de etanol anidro na gasolina, por si só, não deve causar danos relevantes aos veículos modernos, inclusive aos movidos exclusivamente a gasolina. Os testes técnicos realizados antes da adoção do E32 avaliaram consumo, desempenho, dirigibilidade, partida a frio e emissões, sem apontar impactos significativos”, afirmou.
Nos veículos mais antigos, especialmente carburados, importados sem adaptação ao combustível brasileiro ou com mangueiras, vedações e componentes do sistema de alimentação já deteriorados, ele disse que “pode haver maior possibilidade de ressecamento, vazamentos, corrosão ou dificuldade de funcionamento. Porém, geralmente isso está associado ao estado de conservação do veículo e à qualidade do combustível, não apenas ao acréscimo de dois pontos percentuais”, explicou.
No caso de veículos flex, o especialista respondeu que “o sistema de injeção eletrônica reconhece e corrige automaticamente a mistura. Como o etanol possui menor poder energético que a gasolina, pode ocorrer um pequeno aumento no consumo quando o veículo utiliza gasolina E32, provavelmente inferior a 1% em condições normais. Na prática, fatores como trânsito, modo de dirigir, calibragem dos pneus e manutenção do motor podem influenciar muito mais”, acrescentou.
Para finalizar, Paulo Cézar da Silva orientou que o consumidor deve abastecer em postos confiáveis e manter em dia itens como velas, bicos injetores, filtros, bomba de combustível e sistema de partida a frio. “Combustível adulterado ou fora da especificação continua sendo um risco muito maior do que a mudança oficial de 30% para 32%”, concluiu.